quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Carne de segunda

https://catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2014/05/Di_Cavalcanti_-_Baianas.jpg
Di Cavalcanti

Ainda de manhã a mãe preparava a comida do final de semana.

Havia tempos que a família não se reunia.

Finalmente todos juntos: pai, mãe, filhos, netos, cachorro, sobrinho.

No café da manhã, animado como sempre, conversavam sobre os últimos acontecimentos políticos.

Falavam sobre o sistema de cotas e sobre o desarmamento civil.

Os argumentos giravam em torno da oportunidade que deveria haver em uma política afirmativa, de inclusão, e a desnecessidade de se armar um cidadão.

A filha ainda leu em voz alta algumas notas de opinião do jornal da cidade. Teorias inteiras divididas em ilusões práticas por salvadores da pátria.

Também falaram sobre o filme "12 anos de escravidão" e a lamentável legitimidade das agressões aos escravos, que apanhavam não sem antes ouvirem da boca dos seus donos a interpretação particular da palavra sagrada acerca do castigo. Justificavam-se buscando algum perdão moral inconsciente - ou consciente - e desciam o chicote com o peso das mãos. Uma mão era usada para bater e a outra para carregar a leveza da culpa em joias, livros santos, cremes naturais. Havia até o patético e infeliz conceito de "dono bom". Aquele que não maltrata os escravos como os senhores da fazenda ao lado. A escravidão manchou nossa sociedade para sempre e jamais deverá ser esquecida. Há uma alta dívida social a ser paga.

- Mas esse filme já não passou faz tempo?
- Não tem muito tempo não. Concorreu ao Oscar do ano retrasado, eu acho.
- É de um livro, né?
- É sim. Parece que foi o próprio escravo que escreveu.
- Eles sofreram muito.
- O negro ainda sofre.
- Sofre.
- Dá uma agonia assistir. Duas horas de filme que parecem séculos de angústia.
- Quero assistir. Tem no Netflix?
- Não sei.
- Shiii.
- O que foi, mãe?
- A carne moída não vai dar.
- Eu vou ao açougue.

O filho trocou de roupa. Vestiu uma camiseta cuidadosamente branca, tal como a sua cor, um relógio mediano, calça de marca e um tênis da moda.

A fila do açougue estava grande. Logo atrás do garoto apareceu um homem baixo, negro, sorridente, vestido com roupas não tão novas e chinelos.

Trocaram um leve aceno com a cabeça, cúmplices da espera.

Quando da vez do filho, a atendente perguntou:

- O que vai ser?
- Quero 1 kg de carne moída.
- Qual carne o sr. quer?
- A maminha está magra?
- Está sim. A carne está boa.
- E o patinho?
- A maminha está melhor.
- Pode ser então.

Enquanto o garoto aguardava a mulher sorridente moer a carne, o segundo atendente falou em direção ao sujeito negro e baixo:

- O que vai ser?
- Também quero 1 kg de carne moída.
- Carne de segunda?
- Não não. Pode ser maminha também.

E assim se passaram 12 segundos de escravidão camuflada àquela sensala moderna.


Tadeu Rodrigues
out/15

*Baseado em fatos reais.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Amo-te perto

"Amo-te
Perto.
Como um segundo é 
Do outro 
Perto.
Como a palma da mão 
É do aplauso
Perto.
Como o constrangimento 
É da vaia
Perto.
Como o fique é
Do saia
Perto.
Como a distância
Não é da paciência
Perto.
Perto.
E nem de todo 
Certo."

Tadeu Rodrigues
out-15

Tinham-se

Entre viagens e crenças

Enquanto isso

Fôlego

(Auto)biografia

Entre Paula e Bebeto

E assim começa

Menino-sonho

Professor

*Arte da Silvana de Quadros

"Primeiro
o professor me ensinou
a voar. 
Depois me deus asas
ensinando-me
a escrever".

Tadeu Rodrigues.
out-15

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Resenha Entrelaçadas - Scribae

Foto Silvanna de Quadros

Resenha sobre meu livro Entrelaçadas, escrita pela Erika Marianno, que saiu no blog Scribae.

Quem quiser conhecer mais o trabalho deles, comandado pelo amigo Regivaldo, é só clicar aqui.

Segue um trecho da resenha:

"Entrelaçadas foi um livro que me de me despertou interesse do começo ao fim, mesmo com um assunto tão pesado como o suicídio, o autor soube exatamente como deixar a leitura leve, tanto as personagens principais como as secundárias são incríveis, todos tem papel importante na história, inclusive eu me identifiquei com alguns deles."

Para ler o texto todo, só clicar aqui.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Entre céus e sabores

Picasso

Minha mãe um dia me disse:
- Filho, venha ver o céu que tanto gosta.
O céu, naquela ocasião,
era minha mãe e meu pai
sentados na varanda aguardando a surpresa do tempo.
(...)
"O céu, minha mãe,
é aquele dia bonito que carregamos
dentro do peito.
Que, até mesmo quando nublado,
enche de esperança nosso peito acinzentado."
(...)
- Mãe, venha comigo ver o céu que tanto somos.

Tadeu Rodrigues
Set/15

Naquele novo


Foto: Tadeu Rodrigues

Naquele sonho novo
A sede do todo.

Tadeu Rodrigues
Barra Velha/CE
Set/15

Cais

Foto: Tadeu Rodrigues

E se estamos longe,
vejo uma ilusão completa
às escondidas 
com os nossos pecados 
mais íntimos.
[Mas]
Se num dia como hoje,
necessários um ao outro,
assim como sinto,
certo,
nosso encaixe abraçaria o mundo.
Tornando-nos meros coadjuvantes
Do protagonismo sincero 
Da poesia.
Do protagonismo sincero 
Dos becos.
Do protagonismo sincero
Do amor.
Nós,
Protagonistas clandestinos;
Coadjuvantes principais
Do nosso cais.

Tadeu Rodrigues
Jericoara/CE

Do povo


Foto: Tadeu Rodrigues

Um mito em minha tribo.
Semente, desatino e, do mais, 
vitrines comerciais
expondo porcamente 
nossos ais.
Aí, disse o poeta do mar,
Vão-se os sapatos
Ficam os pés 
[descalços];
Vão-se os barcos
Ficam os mares
[E a tempestade];
Vão-se as pessoas
Ficam as memórias 
[E a saudade].
E assim,
dentro de mim,
as imagens formam 
versos sem fim.

Tadeu Rodrigues
Canoa Quebrada/CE

Pedaços de fé

Foto: Tadeu Rodrigues


Pelas secas, 
a imagem do que bem podia ser santo.
Um santo de palha, 
rodeado de poeira fina, 
que ouve o gemido verdadeiro fugir do peito 
e chegar em mantra na boca e nos olhos. 
E quando nos olhos, 
lágrima vira, 
e transformada, 
toca o solo e vira barro, 
e do barro, 
casa.
Um pedaço de Deus 
naquelas bandas, 
à fé dos pedaços de homens.

Tadeu Rodrigues
Barra Velha/CE

Terras Secas

*Baseado em terras secas reais.

Foto: Tadeu Rodrigues

- Tem mar aqui não?
- Tem não. Por quê?
- Ôxi, porque tem que ter. Tá vendo esse espaço aí não?
- Deixe de ser besta, homem. Isso é só terra seca branca.
- Parece mais areia de praia.
- E desde quando nós temos praia no sertão?
- Mas tinha que ter.
- Aqui do céu não cai água em nenhuma horinha.
- Cai não? E como é que forma aquela pocinha ali.
- Aquilo é água imaginada. Num tem nada ali não. Dizem que é trapaça de alguma alma inventada.

Tadeu Rodrigues
Em Jericoacara-CE
Set/15

A vida e sua falta de jeito

Autoria desconhecida

Nos desajeitos da vida
engendro uma parte celeste,
que nua, como veio ao meu lado,
sente-se à vontade para chorar
e sentir gratidão pelo amor recém-chegado.
Ciente de que nosso dia,
tal como a certeza do sol demasiado e a rachadura do chão,
chegaria em todas as suas estações.
Esquentando o olhar,
na neve fora de época de todo resto do mundo
- atemporal,
esfriando os nossos medos
e as nossas incertezas.
Nos desajeitos da vida
Nos ajeitamos.

Tadeu Rodrigues
set/15

Cá estou

Há os que gritam

Amor dilacerado

Olhos marejados

Seu próprio jeito

Ela, o atalho

Menino de papelão

Gaiola de pássaro livre

Tinham-se

Entre viagens e crenças

Enquanto isso...

Fôlego