quarta-feira, 29 de julho de 2015

Entrelaçadas, por Mariza Martins

Belíssima resenha que a querida Mariza Martins escreveu sobre o livro Entrelaçadas. Mariza conseguiu captar de um jeito singular e humano a essência da história.

Segue abaixo:

                             


AS LIÇOES QUE APRENDEMOS COM A ARTE

Creio que quando não nos surpreendemos mais com o desgosto é sinal de que algo muito grave nos acontece.
Viver não é uma coisa tão simples assim. Talvez por estarmos destinados a ser uma obra inacabada, até o último instante de vida podemos aprender.
Às vezes um acontecimento pequeno, uma coisa até óbvia mesmo, muda nosso jeito de ser, torna-se uma revelação com efeitos práticos que podem realmente durar a vida toda.
Quando o escritor Tadeu Rodrigues lançou “Entrelaçadas”, aliás, antes, já senti que seu livro ficaria marcado para mim. Não sei...um palpite, uma intuição...
Quando li o livro, à medida que ia sendo envolvida na teia de questões da personagem Helena, me dei conta de que estava absolutamente certa. Aquele drama me faria repensar minuciosamente sobre o afeto que dou e também do que necessito e mereço.
A personagem Helena, filha única, é jovem e tem uma vida confortável, mas garimpa afeto na cozinha de sua linda residência. A pessoa que lhe destina mais atenção e uma nesga de afeto é uma serviçal da casa. Seus pais não a hostilizam, mas não conseguem tratá-la com mais entusiasmo que os adornos personalizados do ambiente familiar. Parece mais um troféu resultado da quase obrigação social de procriar. Pelo menos é essa a leitura que fiz dos fatos revelados.
E durante toda a trama a personagem se debate com a “doença” chamada depressão, buscando razões para viver ou morrer. Percebe-se claramente que durante suas várias tentativas de se tratar a única coisa que realmente surtia algum efeito eram as migalhas de afeto que tentava capturar no ambiente de tratamento.
A tentativa de seus pais de adotarem um comportamento amoroso no transcurso de sua “doença” não a tocava realmente, pois não havia consistência alguma. Não sabiam ser pais. Não compreendiam que sua filha se ressentia da falta de ter uma identidade para o mundo, de sentir que sua presença nele fazia sentido para alguém. Era um balão solto sem rumo, soçobrando sob os ventos gelados da indiferença.
Isso me fez, primeiro, repensar o conceito de doença, que realmente pode ocorrer, claro, mas creio não ser o caso. Essa desordem emocional de Helena me pareceu uma resposta saudável para uma falta imensa de aprendizado de dar e receber afeto. Ninguém pode substituir a figura dos pais ou primeiros cuidadores. E psiquiatra ou tratamento algum vai suprir isso.
Quando ingerimos uma comida estragada nosso estômago saudável dói e nos faz vomitar. Então, devemos deixar de ingerir comida estragada. Mas parece que se não podemos evitar tentamos eliminar a sensibilidade do estômago e fazê-lo aceitar essa comida estragada sem vomitar(ter crises).
E vamos receber tratamento porque nosso estômago será normalmente considerado doente, mas sabemos que sua resposta saudável é essa e não precisamos de remédios, mas de amor. O remédio é a negação da necessidade vital que não foi atendida, apenas isso. E nunca vai ser uma resposta adequada.
Tudo isso me faz agora reparar mais, muito mais, no afeto que posso destinar às pessoas. Creio que isso me fez mais consciente, mais humana e também mais feliz.
Incrível como nos lembramos de escritores que conseguem em sua obra, despretensiosamente, responder questões que sequer formulamos conscientemente e assim, dali para frente, nos ajudam a formatar de maneira indelével um estilo de vida renovado.
Obrigada, Tadeu Rodrigues! Você me tocou profundamente com sua “ENTRELAÇADAS”.

Mariza Figueiredo Martins

terça-feira, 28 de julho de 2015

Blog Hóspedes do Vento - Chico Lopes

Quem acompanha este blog, que está no ar há 05 anos, sabe do enorme apreço que tenho com contos e crônicas.

Por isso, com satisfação, apresento o blog do querido amigo "poçoscaldense" Chico Lopes: Hóspedes do Vento.

Chico mora atualmente em Brotas e é autor de dez livros, entre biografias, romance, contos, poesia, ensaios, memórias. Toda vez que leio seu traços, acredito cada vez mais na força da literatura, que me emociona e me faz querer ir além.

Quem quiser conhecer o blog é só clicar aqui.

                           
                          Hóspedes do Vento

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Entrelaçadas - trecho


Acreditar nas estrelas


E ela brindava


O poeta do medo


Faz um mal danado.


Por amar demais


Caro poema


Fora do ar


A fábrica de fazer nuvens

Autoria desconhecida


O carro, um pouco sujo, estava feliz. Era uma minivan preta lotada de adesivos de cachorrinhos e frases motivacionais.

Luísa e sua pequena filha Catarina pegavam estrada rumo à cidade vizinha. Iam visitar o zoológico municipal, passeio há tempos prometido por Luísa.

Catarina estava ansiosa. A tiracolo mantinha sua mochila cheia de guloseimas que ajudara a mãe preparar na noite passada. Cuidadosamente fizeram lanchinhos de presunto e queijo, separaram torradas com requeijão e fizeram dois tipos de suco: laranja e maracujá.

Catarina nunca havia ido ao zoológico e criara, com feliz apreensão, um fabuloso mundo de animais em sua cabeça. Imaginava-se em meio a elefantes, girafas, gorilas. Sem contar que, curiosa que era, não parava com as perguntas sobre coisas que via pela estrada. Luísa dava risada da filha sem que ela percebesse, divertindo-se com aquela alegria genuína.

- Por que tem vacas malhadas e vacas brancas? - Perguntou ao passar por um pasto bem cuidado.
- Porque elas nasceram assim. Puxaram pra mamãe e pro papai delas. Você não tem o cabelo crespo como o da mamãe?
- Aham.
- Então?
- Hum.

Catarina continuava atenta aos detalhes da viagem.

- Por que a polícia não prende os carros muito velhos? - Perguntou ao passar por um carro soltando mais fumaça e fazendo mais barulho do que deveria, sem contar o longo risco de óleo que seguia ferozmente o veículo.
- É mesmo, né filha? Um carro soltando óleo desse jeito não pode ficar sujando a estrada.
- Óleo é gasolina?
- Não. Óleo fica passando pelo carro para que as peças do motor funcionem bem.
- Tipo nosso sangue?
- Isso. Tipo sangue do carro.
- Hum.

Catarina levou as mãos à boca como se, de súbito, lembrasse do óbvio, mesmo sabendo a resposta.
- O papai, mãe! Esquecemos do papai!
Luísa riu e explicou pela milésima vez.
- Papai não veio porque está viajando a trabalho, lembra que já te falei?
- Mas hoje é fim de semana.
- Hoje não é fim de semana. Hoje é quarta-feira. Mas como estamos no meio de suas férias, meu patrão nos deu um dia de folga. Já te expliquei isso, querida.
- Hum.

Alguns quilômetros rodados e Luísa passou por uma gigantesca fábrica de papel que ficava à margem da rodovia. A fábrica funcionava a todo vapor e enormes torres liberavam uma quantidade infinita de fumaça branca. Da estrada dava para ver perfeitamente seu funcionamento.

Catarina olhou para as torres com os olhos vívidos e abismados.

- O que é aquilo mãe?
- Aquilo? - Luísa pensou por um tempo. - Aquilo é uma fábrica.
- Uma fábrica? E o que a fábrica faz?
- Aquela fábrica faz nuvens.

Catarina ficou olhando as torres expelindo fumaça, que se misturavam com as nuvens do céu, como se fossem uma só coisa. Olhou como se buscasse uma explicação mais detalhada daquilo.

Luísa percebeu seu devaneio e continuou:

- Repare como as nuvens saem da torre e vão pro céu.
Catarina pensou por um tempo.
- Mas não dá, mãe. Como que a nuvem daqui chega lá na nossa cidade?
- Ah, dá sim. As torres produzem nuvens o dia todo. E há outras fábricas de nuvens por aí.

Aquela explicação pareceu convencer sua filha.

Catarina estava maravilhada. Por algum momento parou de pensar nos animais do zoológico e ficou imaginando como seria trabalhar numa fábrica de nuvem. Ficou imaginando as pessoas da torre vestidas de brancos, dando risada, mexendo nos computadores etc.

- Lá eles fazem fumaça de trem também?
- Não. Nessa fábrica eles só fazem nuvens.
- Hum.

Os olhos de Catarina pulsavam. Conforme o carro foi passando pela fábrica, as torres foram ficando menores. Mas ainda de longe podia se ver as nuvens sendo fabricadas e bailando no céu azul. Catarina colou seu rosto no vidro do carro para que pudesse ver o máximo que dava as "nuvens" indo para o céu. Ficou afoita com aquilo e adormeceu. Só acordou no zoológico, encantada com o tamanho do portão de entrada. Maravilhada com aquele dia cheio de novidades. Agora sabia como as nuvens eram criadas. Sentia-se importante por isso. Olhou para o céu e viu algumas delas. Apertou forte a mão da mãe, como se agradece pela explicação e começou a cantarolar.

Luísa sabia que na pequena cabeça da filha, a fábrica de algodão fazia sentido. Não achou justo lhe contar a verdade. Sabia que a pequena Catarina teria muitos dias para viver a dura realidade e o modo com que ela se apresentaria.

- Olha mãe, outra fábrica de nuvem - falou Catarina apontando para um vendedor de algodão-doce.
- É mesmo filha.
- Vamos ver qual sabor ela tem?

E naquele dia a nuvem teve gosto de açúcar.

 

Ps*: baseado em fatos reais.

Tadeu Rodrigues
jul/15

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Um poema de Mia Couto


- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho - respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente...
- Sei prevenir-me.
- É porquê, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

Mia Couto​
in Venenos de Deus, Remédios do Diabo

terça-feira, 7 de julho de 2015

As Curvas

Silvana de Quadros

Sua mão
compõe o verso
do risco;
A cicatriz do traço. 
A elegância do ponto fraco. 
Sua mão 
faz-se face 
do imaginado 
mundo de lá.


Tadeu Rodrigues
jun/15


Ps: Poema que fiz pra capista do meu livro Entrelaçadas de presente de aniversário, a talentosa Silvana de Quadros.
Ps²: Um up date na postagem com a ilustração.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Kombi sem fim



Eu e ela compramos uma kombi. Era da cor azul claro.

Ela, na maestria de sua elegância natural, inerente à suavidade de sua voz, dirigia nosso estimado veículo misturando sua risada ao som do motor.

O primeiro ano foi tranquilo. Seguimos sem as paradas convencionais e nos adaptamos a voar no asfalto e nos gramados... voávamos no sol se pondo, nas pequenas discussões; nos conselhos ao pé do ouvido.

A kombi não parava nas fronteiras. Não hasteávamos bandeiras. Não entendíamos dialetos.

Mais alguns pares de anos e já tínhamos as crianças penduradas em nossos colos.

Sem qualquer idioma definido, cada um falava a língua que quisesse, com exceção do som. Esse era único; nos entendíamos nas melodias. Cada um tocava um instrumento. Era bonito de se ouvir. Balançávamos nas danças desconjuntadas e nos gritos uníssonos das letras inventadas. De improviso, vivíamos.

Transformamos a kombi em uma canção. Éramos notas solitárias na partitura da vida; nas claves do asfalto; nas pausas dos acostamentos.

Nossa vida era partir.
E na kombi não tínhamos fim.

Tadeu Rodrigues
jul/15

quarta-feira, 1 de julho de 2015