quinta-feira, 25 de junho de 2015

Implosões


O corpo (re)pousa


Mentiras


Velas


Um pouco de cada


É a forma bonita


Metade


Necessidades


Invasões


Eletricidade, verbos e afins


Arriscado


Aos Infinitos da Vida


Desencontros


Entre Acasos


Do que já foi dito.


Dos Confortos da Vida


Goumert


Durante


Das Miragens


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Maria aprendeu a apanhar

Alexandre Fernando da Silva


Maria, desde novinha, aprendeu a apanhar.
O primeiro tapa foi quando ela começou a falar. Falou errado, coitada. Tinha apenas um ano.
E Maria nunca mais falou.
A mão pesada do seu pai desceu feito um machado afiado lhe cortando a língua com seus próprios dentes. Ouviu-se em gritos a mudez de Maria.

Maria também apanhou quando caiu. Estava aprendendo a andar.
Outro tapa para lhe "ensinar" fez seu mundo desabar.
E Maria nunca mais andou.
O chute certeiro do seu pai tirou-lhe a capacidade de sentir o chão.
Perdeu a noção motora da vida. Até hoje podemos ouvir o seu arrastar.

Maria também apanhou quando foi pegar um biscoito.
Ela levantou demais a mão para apanhar a bolacha.
O estalar dilacerante das mãos do seu pai impediu que ela prosseguisse com o curso natural da sua fome.
E Maria nunca mais ergueu suas mãos para comer.
Ainda sinto seu estômago roncar.

Maria também apanhou quando sorriu a primeira vez.
E nem era um sorriso de alegria. Bastou mostrar os dentes para perder três dos da frente.
Os ossos do punho fechado do seu pai enfrentaram seu queixo como barreira.
E Maria não mais sorriu.
Sua barriga nunca doeu de tanto rir de uma graça da vida.

Maria também apanhou quando conheceu o seu par.
Muda, sem força nas mãos e sem caminhar, rastejante apanhava agora em casa.
E Maria nunca teve um lar.

Maria parece que é ninguém; mas Maria é todo mundo.

Essa é Maria,
sem lar, sem voz, sem fé;
um luto.

Tadeu Rodrigues
jun/15

segunda-feira, 15 de junho de 2015

O homem estava preso

O homem estava preso e não sei o que ele fez.
Ele estava preso, mas a sua identidade não.
Ele ainda caminhava do mesmo jeito, gostava das mesmas músicas, bebia o fraco café da prisão, andava a passos lentos pela cela diminuta e carregava algum sonho no olhar.
Ele estava preso por grades, mas voava alto por dentro.
Divagava sobre suas teses de inocência aos companheiros de pavilhão, encorajava as miragens de sua liberdade e ampliava as margens de sua pequenez.
Quando triste, maneava a cabeça para baixo e chorava. Aprendeu que ninguém se importa com lágrimas da prisão.
Rotineiramente, colocava as mãos para trás, sempre acuado, e esperava... ah, e como esperava...
Primeiro, esperava o café da manhã, depois o banho de sol, as revistas diárias, o almoço reduzido, a bolacha da tarde, as duas horas de televisão, a hora do sono; esperava dormir.
Dia a dia era a personificação da espera; da espera pelo dia que sairia dali.
Quando finalmente foi solto, já não se reconhecia; e não mais reconhecia a cidade. Tudo mudara.
As ruas foram asfaltadas, o sol brilhava ainda mais forte, os carros se arredondaram, as pessoas o ignoravam e sua família estava mais silente.
Conteve-se com o ócio, na sessão guardada aos sem esperanças pós-cárcere.
Seu andar continuou o mesmo, as mãos para trás em lamentos, também. O gosto pela música se manteve e as esperas... ah, as esperas...
Ainda se sentia preso. Esperava pelo dia que seria solto em sua mente. Tinha pesadelos com grades e não tinha mais vontade de ser livre.
O homem está preso e não sei o que ele fez.

Tadeu Rodrigues
jun/15