quarta-feira, 29 de abril de 2015

O homem que tinha hora para chorar

Diego Rodriguez


Era às 15 horas.
Às 15 horas ele choraria naquela tarde de terça-feira. Estava decidido.
Tão certo quanto a vontade que tinha por dias melhores.
Era a hora que teria - e somente ela - para chorar o que não chorou a vida toda.
O problema era que não tinha um motivo iminente.
Teria que se lembrar de todas as suas dores, uni-las ao peito, e chorar.
Sua maior curiosidade era como seria o gosto que a água saltante dos seus olhos teria.
Sentou-se à mesa de jantar, olhou os antigos móveis e suspirou.
Não precisou fechar os olhos para ver seu passado e sua vida resumida em cifrões.
Juntou tudo pra nada.
E por tudo também deixou os olhos marejarem e a pele arrepiar.
Lembrou-se de, mais cedo, colocar na porta de sua loja a placa informando o luto.
E foi se vendo triste, que se viu homem.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Sequer ela

UNA LAGRIMA Otros Lienzo Óleo

E se um dia for chorar 
Preste atenção no som das suas lágrimas. 
Pois, se nenhum barulho perceber, 
Nem a poesia vai entender você.

Tadeu Rodrigues
abr/15

terça-feira, 28 de abril de 2015

Das fantasias

Monet


O mundo real é uma grande ficção. 
A literatura apenas lhe coloca os duendes, os dragões
E os corações.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Ela se foi

Marília Nunes


- Pare de estalar os dedos - ela pediu.
Ele estava impaciente. Trazia consigo uma tatuagem de âncora no braço.
- Nada a ver sua tatuagem. Âncora significa estagnação, coisas presas e paradas. Gosto de movimento.
Ele a fitou como se fosse parte do vento que lhe tocava.
- Não acho que tenha razão. Âncora passa o ar de ser forte, algo robusto, determinado.
- Algo determinadamente parado.
- Ah, se cale.
Ele sabia que voltar atrás não era tão simples.
- Você pode ter escolhido por isso...
- Por isso?
- Pela âncora. Você pode ter escolhido por isso porque é assim que nos vê.
- Isso não tem nada a ver com você.
- Tudo tem.
- Não acho.
Ela tocou seu rosto fraternalmente.
- Acho que acabamos.
- Vai insistir no término?
- Não há outro jeito. Pensei muito a respeito.
Ele ficou, como se estacionar no mar fosse a solução.
Ela se foi feito vela, velejante pela brisa que soprava dentro dela.

Tadeu Rodrigues
abril/2015

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Jardinagem

Abdalieva Akzhan


Cheio de orgulho, caminho.
A estrada é sinuosa, há quem diga que a sua sinuosidade é pelo badalar do sino que a gente ouve quando parte.
Há quem diga também que a estrada tem fim.
O mundo das faces e das facetas, das lamúrias e das trombetas esportivas, pede, nunca declama;
sempre reclama,
e me perturba ouvir.
As vozes e os passos da terra caem em forma de chuva e se materializam em forma de saudade coberta por cheiro de roça.
O cheiro do campo da vida, que plantamos angústias, insônias e pecados.
Semeando um porém, acima de um talvez, estamos certos que à terra chegaremos sãos e calvos; sãos e pardos; sãos e alvos. Pelas cores, venci as batalhas da cidade cinza e do travesseiro cheio de sonho.
Até porque a pluma da ansiedade está encoberta pelo bocejo dos minutos que faltam.
E se nos faltam
Nos faltamos;
E lá permanecemos intactos, abaixo da terra, plantados no jardim dos dias.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Segredos e tijolos

Abdalieva Akzhan


Minhas grafites em seu muro, 
Segredos expostos ao mundo.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Ritmos certos

Abdalieva Akzhan


Amor, demasiado humano.

Tadeu Rodrigues
abr/15

As bocas

Lis


Meça suas poesias antes de falar comigo.

Tadeu Rodrigues
abr/15

sexta-feira, 24 de abril de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Parada Poética


Ontem rolou uma Parada Poética no Sesc Campinas e foi lindo demais.

Muita gente talentosa. Muito texto bom.

Quem quiser conhecer mais sobre o projeto, é só clicar aqui.

E quem quiser conhecer mais o trabalho do Renan Inquérito, um dos idealizadores e um poeta por excelência -  que está lançando álbum novo, inclusive: Corpo e Alma, só clicar aqui.

Valeu muito a pena!

Recitei esta poesia:

Poesia Marginal

Sou um sonhador periférico;
Recitando-me marginal,
a um passo do caos.

Com o dedo apontado para a lua;
Sou mais um dado nesta sua estatística crua.

Sempre valente;
Com a rima, a gente vem quente.

Sou mais um cão com pedaços de sarjeta.
Mais uma puta esperando por sua gorjeta.

Do outro lado, suave como ninguém;
Saber rimar ainda vai nos levar além.

Tadeu Rodrigues
abr/15

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma carta - Entrelaçadas

Dentre as inúmeras pessoas que me auxiliaram a entender o fascinante universo do tema suicídio, a Anna foi uma especial. Após algumas conversas, e a sua permissão para que eu pudesse ler sua monografia, consegui incrementar o final dos diálogos e dos últimos retoques aos personagens. 

Pedi a ela que analisasse o livro sob o prisma psicológico. E assim, foi com muita satisfação que recebi, hoje pela manhã, esta "carta", onde ela contou um pouco de sua experiência ao ler o livro Entrelaçadas.

Compartilho com vocês.

Obrigado, Anna.





Querido Tadeu Rodrigues,

Antes de começar esta pequena carta como irei chamar, gostaria de pedir desculpas por demorar um pouquinho para lhe escrever minha visão sobre seu livro. Primeiro nunca me pediram uma revisão de um livro da forma que me propôs, e claro, foi uma tarefa encantadora, desta forma tomei mais tempo para lê-lo. Como diz Nietzsche em um de seus livros “ler com dedos e olhos delicados”, e foi exatamente isso que tentei fazer um pouco mais.

“Entrelaçadas” é um livro primoroso e delicado. Sua escrita é fluída, contemporânea e de fácil entendimento. As personagens, cativantes, cada uma com seu detalhe peculiar, único e claro, a gente pode nos ver nelas em vários trechos, seja uma fala, um pensamento, ou em suas próprias personalidades. A forma com que tratou do suicídio também foi leve e respeitosa, deixando um tema que, na minha pobre visão, é um tabu na modernidade. Que causa espanto, medo, preconceito, há tantas coisas envolvidas com o tema que me é difícil relatar todas e não irei fazer isso, mas como diz o Stephen King “a morte é um segredo, o sepultamento um mistério”. O livro tem uma pitada de tudo, mistério, amizade, amor, artes e música. Muita boa música na verdade. Sobre os livros que a Helena gosta não irei debater é praticamente perfeito (quero uma amiga dessas por favor).

Também pude te encontrar em sua escrita, seja no gosto pela música, pinturas, livros nas personagens. O que eu adorei ver. Assim posso saber mais um pouquinho sobre você. Penso que talvez seu livro inspire outros a procurar sobre o tema, a falar sobre ele, a conhecer os motivos das pessoas que tentam ou tentaram o suicídio, como também, ao meu humilde ver, esperança para aqueles que tentaram ou pensam em tentar em algum momento que há de alguma forma tratamento, que você não está só. Isso é importante.

Também agradeço a oportunidade que o tema me proporcionou em conhecer você. Claro que o Celso Pattelli ajudou nisso também, talvez uma hora eu também o agradeça por isso. Por favor não pare de escrever!

Enfim, espero que goste desta carta, que ela seja pelo menos um pouquinho do que esperava...
Com carinho,

Anna

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Gênios presos em garrafas


http://imanmaleki.com/en/Galery/albome-ghadimi.jpg
Iman Maleki

Meus heróis 
na verdade
voam.
E me ensinam a voar.

Meus lençóis
na verdade
sonham.
E me ensinam a sonhar.

Meus papéis
na verdade
vivem.
E me ensinam a viver.

Tadeu Rodrigues
abr/15


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Percepções

Andrew Atroshenko

Percebi-me naquele soneto constante; 
declamado em calmaria urbana, 
a cheiro de álcool com algumas doses de vida.

Percebi-me sonolento à correria, 
Imerso em meus nostálgicos músculos
que outrora clamavam honrarias.

Percebi-me imoral, amoral, muito igual;
Era hora de me desconhecer.

Diferente, percebi-me em você.

Tadeu Rodrigues
Abr/15

Acalmar

Miró


A poesia é inimiga da perfeição.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Retrato e espelho

Pintura de Teresa Elliott


Escolher é olho no olho consigo.
E a solidão descansa nesse olhar.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Realidades

Pintura de Teresa Elliott


A arte ilimita a vida.

Tadeu Rodrigues
abr/15

O tempo e o amor

Artista desconhecido

- Os poetas já se cansaram de divagar sobre o tempo? - perguntou a senhora recostada no muro da praça.
- Acho que não.
- Provável que o tempo seja como o amor. Às vezes dói, às vezes nos salva, nos enlouquece, não nos deixa compreendê-lo, não se pode tocar, mas nos faz sorrir, nos faz descansar.
- Deve ser isso.
- Isso?
- O tempo é o amor revestido de outras letras.

Tadeu Rodrigues
abr/15

terça-feira, 14 de abril de 2015

Fofoca

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Di Cavalcanti

Quem planta fogo, colhe queimada.
E a fumaça está lá de intrusa.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Solto

http://www.ideafixa.com/wp-content/uploads/2013/08/the-starry-night-vincent-van-gogh-close-up-652x780.jpg
Van Gogh

Entregues aos gemidos das ruas,
às broncas da lua,
às carnes quentes
E cruas.

Tadeu Rodrigues
abr/15

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Ainda sobre Galeano

Deixe o Galeano falar (e sonhar).
Obrigado, poeta.





Tadeu Rodrigues
abr/15

Eduardo Galeano





Eis que hoje de manhã o mundo acorda com uma notícia triste, a morte de um querido escritor:

Eduardo Hughes Galeano

✪ 03-09-1940
✚ 13-04-2015

Barcos

http://spc.fotolog.com/photo/12/8/109/kitsune_tuna/1297715459091_f.jpg
Salvador Dalí



Estou na manhã dos seus acontecimentos. 
Acontece cedo, 
o que ontem vi, o que hoje vejo e o que hoje sei.
- Vamos à festa. Todo mundo vai. Precisamos dançar, beber e lembrar. 
"Nunca beber para esquecer", você sempre diz até acontecer.
Quero me lembrar do seu rosto e do seu cheiro. 
Lembrar da sua graça; minha santa piedade pela maldita distância.
A gente se acostuma com o mal feito, com a lua, com o fim do dia, com as cicatrizes.
Mas não vamos deixar como está, 
e se a maré nos levar,
será pra longe daqui, 
será para além do nosso mar particular.

Tadeu Rodrigues
abr/15

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Do verbo ser

http://2.bp.blogspot.com/-csmNSkEPx_I/TtrZDlbh1GI/AAAAAAAAAIA/U74Joj8s-wc/s1600/Elliott-Deliverance-36x36.jpg
Pintura de Teresa Elliott

 Não inteiros.
Somos um pouco de cada vez;
Somos um pouco de cada voz.

Tadeu Rodrigues
abr/15


Sufoco

Pintura de Steve Mills

Ter palavras sobre mim, 
faz com que eu não tenha fim.

Tadeu Rodrigues
mar/2008

Sabido

Pintura de Jason Graaf


Não sei poesia, 
ela quem me sabe.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Perecimento

Iman Maleki








Desgaste natural das coisas
do coração.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Lugares

Iman Maleki


O amor é uma vida inteira reduzida
a termos.
Não cabe em um cenário;
mas cabe em um aquário.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Latas

Keith Haring



Quanto tempo resta?
Quanto tempo é resto?

Tadeu Rodrigues
abr/15

...

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/7f/08/47/7f0847739de6a3aec06a591348b2d023.jpg
Iman Maleki

- Minha senhora, foram apenas três pontos.
- Mas é que o corte foi profundo.
Falavam sobre silêncios que cortam;
e reticências.

Tadeu Rodrigues
abr/15

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Paulo Freire

Paulo Freire - a importância de ler. Vídeo incrível que assisti no site www.contioutra.com

“Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”

Paulo Freire




Tadeu Rodrigues
abr/15

terça-feira, 7 de abril de 2015

Ponteiros

Edgar Duviver

Um mergulho vazio;
poeira apontando os ponteiros de tempo cheio;
que corria ao incerto, certo de casa.
Um só ponto (de vista)
Enciumando minhas vírgulas;
meus fracos anseios por tudo que é vago.
Tropeços e âmagos,
sabidos amantes da vida amada, 
que termina em tudo ou acaba em nada.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Engula o choro

Édouard Manet


- Não chore - ela disse.
E saí sentindo doer minhas lágrimas internas.
Aquelas que ficam presas entre os olhos e o coração.

Tadeu Rodrigues
abr/15

O grito

Munch







Eram vozes afinadas escondidas pelos cantos.

Tadeu Rodrigues
abr/15

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O pequeno diálogo no chão da fábrica

Iman Maleki

- A poesia fabrica a imortalidade de todos os poetas; até a dos que morrem de amores.
- E algum poeta não morre de amor?
- Alguns não. Alguns vivem dele.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Cera e fumaça

Iman Maleki

Quanto da reza cabe em uma vela?

Tadeu Rodrigues
abr/15

Pequeno mundo

Abbas Katouzian 

A triste história da ideia que não coube no mundo pequeno. 
Talvez Drummond não soubesse.

Tadeu Rodrigues
Abr/15

Sabores intermitentes

Abbas Katouzian




- Você falou algo sobre sabores. 
- Não. Eu disse: ao sabor do vento. 
- Mas qual sabor? 
- Sabor de final de história, com dois grãos de açúcar.

Tadeu Rodrigues
Abr/15

O cansaço e a sorte

Abbas Katouzian

Cansado de jurar ao momento 
Toda sorte do tempo.

Tadeu Rodrigues
abr/15

Era mentira

Abbas Katouzian


Era mentira
que a água acabou;
que a paixão ficou;
que a saudade cicatrizou.

(...)

É mentira
que o tempo não conta;
que a morte levanta;
que tristeza se espanta.

(...)

É mentira
que tudo é verdade;
que amar é alarde;
que você se foi tarde.


Tadeu Rodrigues
abr/15