quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Kombi sem fim



Eu e ela compramos uma kombi. Era da cor azul claro.

Ela, na maestria de sua elegância natural, inerente à suavidade de sua voz, dirigia nosso estimado veículo misturando sua risada ao som do motor.

O primeiro ano foi tranquilo. Seguimos sem as paradas convencionais e nos adaptamos a voar no asfalto e nos gramados... voávamos no sol se pondo, nas pequenas discussões; nos conselhos ao pé do ouvido.

A kombi não parava nas fronteiras. Não hasteávamos bandeiras. Não entendíamos dialetos.

Mais alguns pares de anos e já tínhamos as crianças penduradas em nossos colos.

Sem qualquer idioma definido, cada um falava a língua que quisesse, com exceção do som. Esse era único; nos entendíamos nas melodias. Cada um tocava um instrumento. Era bonito de se ouvir. Balançávamos nas danças desconjuntadas e nos gritos uníssonos das letras inventadas. De improviso, vivíamos.

Transformamos a kombi em uma canção. Éramos notas solitárias na partitura da vida; nas claves do asfalto; nas pausas dos acostamentos.

Nossa vida era partir.
E na kombi não tínhamos fim.

Tadeu Rodrigues
jul/15

Um comentário:

  1. Que coisa linda de ler!Adorei,Tadeu! Deu pra imaginar bem a cena!!! abraços,chica

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