segunda-feira, 20 de julho de 2015

A fábrica de fazer nuvens

Autoria desconhecida


O carro, um pouco sujo, estava feliz. Era uma minivan preta lotada de adesivos de cachorrinhos e frases motivacionais.

Luísa e sua pequena filha Catarina pegavam estrada rumo à cidade vizinha. Iam visitar o zoológico municipal, passeio há tempos prometido por Luísa.

Catarina estava ansiosa. A tiracolo mantinha sua mochila cheia de guloseimas que ajudara a mãe preparar na noite passada. Cuidadosamente fizeram lanchinhos de presunto e queijo, separaram torradas com requeijão e fizeram dois tipos de suco: laranja e maracujá.

Catarina nunca havia ido ao zoológico e criara, com feliz apreensão, um fabuloso mundo de animais em sua cabeça. Imaginava-se em meio a elefantes, girafas, gorilas. Sem contar que, curiosa que era, não parava com as perguntas sobre coisas que via pela estrada. Luísa dava risada da filha sem que ela percebesse, divertindo-se com aquela alegria genuína.

- Por que tem vacas malhadas e vacas brancas? - Perguntou ao passar por um pasto bem cuidado.
- Porque elas nasceram assim. Puxaram pra mamãe e pro papai delas. Você não tem o cabelo crespo como o da mamãe?
- Aham.
- Então?
- Hum.

Catarina continuava atenta aos detalhes da viagem.

- Por que a polícia não prende os carros muito velhos? - Perguntou ao passar por um carro soltando mais fumaça e fazendo mais barulho do que deveria, sem contar o longo risco de óleo que seguia ferozmente o veículo.
- É mesmo, né filha? Um carro soltando óleo desse jeito não pode ficar sujando a estrada.
- Óleo é gasolina?
- Não. Óleo fica passando pelo carro para que as peças do motor funcionem bem.
- Tipo nosso sangue?
- Isso. Tipo sangue do carro.
- Hum.

Catarina levou as mãos à boca como se, de súbito, lembrasse do óbvio, mesmo sabendo a resposta.
- O papai, mãe! Esquecemos do papai!
Luísa riu e explicou pela milésima vez.
- Papai não veio porque está viajando a trabalho, lembra que já te falei?
- Mas hoje é fim de semana.
- Hoje não é fim de semana. Hoje é quarta-feira. Mas como estamos no meio de suas férias, meu patrão nos deu um dia de folga. Já te expliquei isso, querida.
- Hum.

Alguns quilômetros rodados e Luísa passou por uma gigantesca fábrica de papel que ficava à margem da rodovia. A fábrica funcionava a todo vapor e enormes torres liberavam uma quantidade infinita de fumaça branca. Da estrada dava para ver perfeitamente seu funcionamento.

Catarina olhou para as torres com os olhos vívidos e abismados.

- O que é aquilo mãe?
- Aquilo? - Luísa pensou por um tempo. - Aquilo é uma fábrica.
- Uma fábrica? E o que a fábrica faz?
- Aquela fábrica faz nuvens.

Catarina ficou olhando as torres expelindo fumaça, que se misturavam com as nuvens do céu, como se fossem uma só coisa. Olhou como se buscasse uma explicação mais detalhada daquilo.

Luísa percebeu seu devaneio e continuou:

- Repare como as nuvens saem da torre e vão pro céu.
Catarina pensou por um tempo.
- Mas não dá, mãe. Como que a nuvem daqui chega lá na nossa cidade?
- Ah, dá sim. As torres produzem nuvens o dia todo. E há outras fábricas de nuvens por aí.

Aquela explicação pareceu convencer sua filha.

Catarina estava maravilhada. Por algum momento parou de pensar nos animais do zoológico e ficou imaginando como seria trabalhar numa fábrica de nuvem. Ficou imaginando as pessoas da torre vestidas de brancos, dando risada, mexendo nos computadores etc.

- Lá eles fazem fumaça de trem também?
- Não. Nessa fábrica eles só fazem nuvens.
- Hum.

Os olhos de Catarina pulsavam. Conforme o carro foi passando pela fábrica, as torres foram ficando menores. Mas ainda de longe podia se ver as nuvens sendo fabricadas e bailando no céu azul. Catarina colou seu rosto no vidro do carro para que pudesse ver o máximo que dava as "nuvens" indo para o céu. Ficou afoita com aquilo e adormeceu. Só acordou no zoológico, encantada com o tamanho do portão de entrada. Maravilhada com aquele dia cheio de novidades. Agora sabia como as nuvens eram criadas. Sentia-se importante por isso. Olhou para o céu e viu algumas delas. Apertou forte a mão da mãe, como se agradece pela explicação e começou a cantarolar.

Luísa sabia que na pequena cabeça da filha, a fábrica de algodão fazia sentido. Não achou justo lhe contar a verdade. Sabia que a pequena Catarina teria muitos dias para viver a dura realidade e o modo com que ela se apresentaria.

- Olha mãe, outra fábrica de nuvem - falou Catarina apontando para um vendedor de algodão-doce.
- É mesmo filha.
- Vamos ver qual sabor ela tem?

E naquele dia a nuvem teve gosto de açúcar.

 

Ps*: baseado em fatos reais.

Tadeu Rodrigues
jul/15

3 comentários:

  1. Adorei o conto,vc sempre me surpreende com os detalhes,que escrita linda :)

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  2. Escreva um livro de contos, por favor.

    Estela

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