segunda-feira, 15 de junho de 2015

O homem estava preso

O homem estava preso e não sei o que ele fez.
Ele estava preso, mas a sua identidade não.
Ele ainda caminhava do mesmo jeito, gostava das mesmas músicas, bebia o fraco café da prisão, andava a passos lentos pela cela diminuta e carregava algum sonho no olhar.
Ele estava preso por grades, mas voava alto por dentro.
Divagava sobre suas teses de inocência aos companheiros de pavilhão, encorajava as miragens de sua liberdade e ampliava as margens de sua pequenez.
Quando triste, maneava a cabeça para baixo e chorava. Aprendeu que ninguém se importa com lágrimas da prisão.
Rotineiramente, colocava as mãos para trás, sempre acuado, e esperava... ah, e como esperava...
Primeiro, esperava o café da manhã, depois o banho de sol, as revistas diárias, o almoço reduzido, a bolacha da tarde, as duas horas de televisão, a hora do sono; esperava dormir.
Dia a dia era a personificação da espera; da espera pelo dia que sairia dali.
Quando finalmente foi solto, já não se reconhecia; e não mais reconhecia a cidade. Tudo mudara.
As ruas foram asfaltadas, o sol brilhava ainda mais forte, os carros se arredondaram, as pessoas o ignoravam e sua família estava mais silente.
Conteve-se com o ócio, na sessão guardada aos sem esperanças pós-cárcere.
Seu andar continuou o mesmo, as mãos para trás em lamentos, também. O gosto pela música se manteve e as esperas... ah, as esperas...
Ainda se sentia preso. Esperava pelo dia que seria solto em sua mente. Tinha pesadelos com grades e não tinha mais vontade de ser livre.
O homem está preso e não sei o que ele fez.

Tadeu Rodrigues
jun/15

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