segunda-feira, 22 de junho de 2015

Maria aprendeu a apanhar

Alexandre Fernando da Silva


Maria, desde novinha, aprendeu a apanhar.
O primeiro tapa foi quando ela começou a falar. Falou errado, coitada. Tinha apenas um ano.
E Maria nunca mais falou.
A mão pesada do seu pai desceu feito um machado afiado lhe cortando a língua com seus próprios dentes. Ouviu-se em gritos a mudez de Maria.

Maria também apanhou quando caiu. Estava aprendendo a andar.
Outro tapa para lhe "ensinar" fez seu mundo desabar.
E Maria nunca mais andou.
O chute certeiro do seu pai tirou-lhe a capacidade de sentir o chão.
Perdeu a noção motora da vida. Até hoje podemos ouvir o seu arrastar.

Maria também apanhou quando foi pegar um biscoito.
Ela levantou demais a mão para apanhar a bolacha.
O estalar dilacerante das mãos do seu pai impediu que ela prosseguisse com o curso natural da sua fome.
E Maria nunca mais ergueu suas mãos para comer.
Ainda sinto seu estômago roncar.

Maria também apanhou quando sorriu a primeira vez.
E nem era um sorriso de alegria. Bastou mostrar os dentes para perder três dos da frente.
Os ossos do punho fechado do seu pai enfrentaram seu queixo como barreira.
E Maria não mais sorriu.
Sua barriga nunca doeu de tanto rir de uma graça da vida.

Maria também apanhou quando conheceu o seu par.
Muda, sem força nas mãos e sem caminhar, rastejante apanhava agora em casa.
E Maria nunca teve um lar.

Maria parece que é ninguém; mas Maria é todo mundo.

Essa é Maria,
sem lar, sem voz, sem fé;
um luto.

Tadeu Rodrigues
jun/15

3 comentários:

  1. Vc me fez chorar.
    pensando quantas marias estão por ai.

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  2. Triste demais.

    Abraços

    Si

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  3. Bom dia Tadeu.
    Posso utilizar o texto em minha tese? Escrevo sobre violência doméstica e fiquei muito emocionada com ele.
    Cito a fonte com os créditos.
    Obrigada.
    Betânia.

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