quarta-feira, 29 de abril de 2015

O homem que tinha hora para chorar

Diego Rodriguez


Era às 15 horas.
Às 15 horas ele choraria naquela tarde de terça-feira. Estava decidido.
Tão certo quanto a vontade que tinha por dias melhores.
Era a hora que teria - e somente ela - para chorar o que não chorou a vida toda.
O problema era que não tinha um motivo iminente.
Teria que se lembrar de todas as suas dores, uni-las ao peito, e chorar.
Sua maior curiosidade era como seria o gosto que a água saltante dos seus olhos teria.
Sentou-se à mesa de jantar, olhou os antigos móveis e suspirou.
Não precisou fechar os olhos para ver seu passado e sua vida resumida em cifrões.
Juntou tudo pra nada.
E por tudo também deixou os olhos marejarem e a pele arrepiar.
Lembrou-se de, mais cedo, colocar na porta de sua loja a placa informando o luto.
E foi se vendo triste, que se viu homem.

Tadeu Rodrigues
abr/15

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