quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O dia em que escolhi polenta frita


Eu sempre quis batatas. Ela, polenta acompanhada de um "tanto faz".
Tanto faz por tanto fez, escolhíamos a batata, sempre.
Talvez um viés machista cultural se encaixe aqui. Não sei bem.
E, além do vencido "tanto faz", ela finalizava a análise do cardápio dizendo: "escolha você, eu como tão pouquinho".
Eu a vencia.
Gostava daquele carinho e daquele olhar sobre quem ficaria mais satisfeito, afinal.
Com a fome apertando, deixar-me escolher as batatas soava mais carinhoso do que um "eu te amo".
Foi domingo à tarde, após uma dormida mais longa até às 16h que sentamos em um bar.
Ela, com um semblante sereno, chamou o garçom e sequer olhou o cardápio, sabia que eu optaria pelas batatas.
"Quero polenta frita, garçom" - eu disse, para a sua surpresa.
"Polenta!?"
"É."
Ela sorriu e me beijou. Entrelacei meus braços sobre seus ombros e ficamos enamorados em silêncio.
Não me importei com o gosto da polenta. Era até bom.
Mas gostei de ver o sorriso dela e o que aquela escolha causou.
Nunca mais pedi só batatas.
Agora éramos meia porção de batata, meia porção de polenta.
Estávamos fritos.

Tadeu Rodrigues
fev/2015

3 comentários:

  1. Que silêncio romanticamente saboroso!
    Sabe, eu já tive uma história com batatas.
    Mas a sua polenta é muito bem frita!

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  2. Sabores, saberes, sensibilidade
    Tanto no descrito, como.no escrito
    Passando
    Lendo não por leia de volta ou vindo ler de volta
    Leitura com prazer, indicada e agradecida
    Saio com algo mais

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