terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Difícil Fotografar o Silêncio - Manoel de Barros

Poema "Difícil fotografar o silêncio", de Manoel de Barros, declamado por Antônio Abujamra:



Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. 
Não se via ou ouvia um barulho, 
ninguém passava entre as casas. 
Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. 
Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. 
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. 
Preparei minha máquina de novo. 
Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. 
Fotografei o perfume. 
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. 
Fotografei o perdão. 
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. 
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. 
Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia 
de braços com maiakoviski – seu criador. 
Fotografei a nuvem de calça e o poeta. 
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal. 

Manoel de Barros. Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

4 comentários:

  1. Ah Tadeu! Como eu amo este poema.
    Muito bom esncontrá-lo aqui. Beijo!

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  2. Também adoro. É um dos melhores, em minha opinião!
    =)

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  3. Manoel é um gênio menino eterno, senhor passarinho
    Tantas pequenas grandes lições
    Olhar e sentir.fontanos

    Ele aqu, mais um motivo para eu passear pelos posts, compartilhar, seguir

    * Em fase de blog parado (o meu), vir aqui me sacudiu

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