quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Balanço Literário 2015

Vamos aos livros que li neste ano de 2015:


*Não contém spoiler.




1 - O Irmão Alemão - Chico Buarque. Comecei o ano lendo essa autobiografia quase ficção. E comecei o ano bem. Livro envolvente, do jeito que o Chico sabe abordar. Não é o melhor dele, ainda fico com Fazenda Modelo, mas é um livro muito bom.

2 - Adultérios - Woody Allen. Sou apaixonado pela simplicidade densa do Woody Allen. Ler seus contos me faz imaginar os filmes. União perfeita à minha modesta imaginação.

3 - O Pintassilgo - Donna Tartt. Fiquei curioso quando a este livro. Li sobre ele na Folha de São Paulo em uma matéria que citava Donna e seu Prêmio Pulitzer de melhor ficção. Fui atrás do livro reticente. Pra minha feliz surpresa, o livro me surpreendeu. Uma trama bem amarrada e com personagens muito fortes.

4 - Feliz ano Velho - Marcelo Rubens Paiva. Reli este livro com muito carinho. Sofri um acidente de carro também há alguns anos. Com mais sorte, fiquei sem sequelas; ao contrário do Marcelo. O livro mexeu comigo de um modo especial. Foi emocionante lê-lo, em que pese a imaturidade do escritor, ainda jovem, e o excesso de linguagem pejorativa.

5- O Aleph - Jorge Luis Borges. São pequenas histórias e todas geniais. Um dos melhores que li do gênero. Borges é o "pai" de uma leva de escritores atuais. Não tem como errar.

6 - A Teoria de Tudo: A Extraordinária História de Jane e Stephen Hawking - Jane Hawking. Como o próprio subtítulo diz, o livro, escrito por Jane, conta a sua história com Stephen. A obra virou um filme aclamado e popular. É uma bela história, sem dúvida, mas senti que faltou um pouco de cuidado na escrita.

7 - Um Pio de Coruja - Chico Lopes. Chico, amigo querido, foi muito feliz ao escrever esse livro e analisar com uma precisão técnica e minuciosa, com pitadas passionais, diversas obras literárias, colocando nos textos as suas visões e sentimentos. São ensaios que valem a pena serem lidos e serve como um bom manual da literatura.

8- O aprendiz de Assassino - Livro I - Robin Hobb. Ganhei o livro de aniversário e o li despretensiosamente. Adorei. É uma trama que flerta com a lealdade, ética e leis. Quero e vou ler as continuações.

9 - Ele está de Volta - Timur Vermes. A sinopse me encantou. Hitler acorda em um terreno baldio no ano de 2011. Atordoado, coloca a sua mente perspicaz para entender o que pode ter acontecido. É possível dar boas risadas lendo o livro, imaginando as cenas bizarras, como a que o ditador é visto como um ator maluco que imitava Hitler, mas sem deixar o tom triste que o discurso nazista carrega. Ouvi falar que vai virar filme. Aguardemos.

10 - Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos - Ignácio de Loyola Brandão. Livro infantil e muito bem escrito. Narra a relação do próprio Ignácio com seu avô. Lembrei muito do meu lendo a história. Ouvi o próprio Ignácio falar sobre o livro na Flipoços. Foi muito bom.

11 - A estrutura da bolha de sabão - Lygia Fagundes Telles. Livro de conto que me prendeu do início ao fim. Livro curtinho que se lê enquanto toma dois copos americanos de café. Li após ler o do Borges, e não tive nenhum choque enquanto a isso. Indico.

*Este ano li e conheci pessoalmente diversos poetas que escrevem o que chamam de Poesia Marginal. São livros que circulam pelos saraus e pelos projetos envolvendo educação e poesia. Tive um grande crescimento tendo acesso a essas histórias, versos e contos. Destaco o livro do Ciríaco, que falarei abaixo.

12 - Te pego lá fora - Rodrigo Ciríaco. Um livro visceral. Que nos dá um tapa na cara. São prosas que narram o cotidiano de escolas públicas e periferias. Há contos que me fizeram tremer. Outros que me fizeram chorar. Em meio ao mar de poesia, Ciríaco se destaca com sua prosa pesada e quente.

13 - Para Brisa - Ni Brisant. Livro muito sensível do Ni, que tive o prazer de conhecer nos saraus. Gosto do modo com que o ele aborda os temas, vez que tem uma pegada sentimental e romântica sobre diversas situações que passam batidas em nossa rotina. É a visão do poeta. O respiro.

14 - Meu Pequeno Dicionário - Ni Brisant. Dizem que somente somos livres quando inventamos palavras. O Ni foi além, criou significados para as palavras; fazendo com o que o leitor se sinta à vontade ao se deparar com respostas escondidas atrás das letras.

15 - Pó & Sia - Rodrigo Ciríaco. Livro modelo. Ciríaco fez um livro para se mexer, desmontar, ler em qualquer posição. É um livro show.

16 - Poucas Palavras - Renan Inquérito. Conheci o Renan em seu trabalho junto à Parada Poética, que é incrível. E lá também conheci o seu som; foi quando passei a ouvir com certa assiduidade o hip-hop. Poucas palavras é um livro bomba, onde os versos são jogados em nossos peitos sem misericórdia.

17 - Suspensivos - Bobby Baq. Um mini livro com poesias gigantes. O Bobby é um poeta querido e singular; uma pessoa da mais pura sensibilidade. Não vou me assustar se o ver despontando como poeta de ponta no país.

18 - Primeiro Corte - Anna Zêpa. Um livro interessante e profundo. Editado pelo selo Doburro, o livro é um presente. Suas poesias são duplicadas e podem ser destacadas. Anna é incrível e acho que deveria haver mais delas por aí.

19 - A Convivência dos Nossos Rastros - Anna Zêpa. Um livro-muro. Anna tem suas poesias espalhadas pela cidade e, em um compêndio incrível, reuniu seus poemas.

20 - Angu de Sangue - Marcelino Freire. Marcelino é a personificação da poesia. Ouvi-lo declamar é uma valsa aos ouvidos. Ou como ele mesmo me disse certa vez: na literatura podemos vencer sempre, botar o mal pra foder. Angu de Sangue deve ser o livro de cabeceira de quem quer ver como o mundo pode ser fantástico. Tive o prazer de estar com ele algumas vezes e esses encontros fazem a vida valer a pena.

21 - Escritório de Pensamentos - Mano Ril. Ril é da poesia marginal e consegue nos fazer pensar fora da caixa. Vale a leitura.

22- Pétalas de Rosa - Jefferson Santana. Jeff é um poeta sorridente que com maestria uniu seus versos em um livro sensível e articulado. Faz-nos acreditar na força da poesia.

23 - Felicidade demais - Alice Munro. A premiada Alice faz jus aos elogios que sempre recebe. Li o livro de uma só vez. Foi um fim de semana atípico e reflexivo. Personagens que se parecem com a gente; naqueles intervalos de sorrisos.

24 - Se eu ficar - Gayle Forman. Li este livro em uma viagem e "achei bonitinho". Tem um quê um pouco apelativo que envolve algo espiritual.

25 - Pra onde ela foi - Gayle Forman. É continuação do livro acima. Li de teima. Mantenho minha opinião sobre ser uma história "bonitinha".

26 - Quando eu fechar os olhos - Edney Silvestre. Um livro excepcional. O próprio Edney me sugeriu começar por ele, quando lhe questionei acerca de suas obras. Não consegui parar de ler um só segundo.

27 - Americanah - Chimamanda Ngozi Adichie. Um dos melhores romances que li este ano. Livro pra ser relido sempre. Sou fã da Chimamanda e o modo com que ela consegue levar sua ideologia para uma história é invejável.

28 - Meu Último Suspiro - Luiz Buñel. Buñel definiu 'Meu último suspiro' como um livro 'semibiográfico'. É foda. Que vida!

29 - Eternidade por um fio - Ken Follet. O último da trilogia do século. Quem acompanha o balanço literário do blog sabe o quanto esperei por essa obra. Não me decepcionou.

30 - A Insustentável Leveza - Milan Kundera. Livro publicado em 1984. Comprei em uma viagem para Curitiba como indicação da minha amiga Carol. Encantei-me. História que prende. Que bate. 

31 - Tratado sobre o coração das coisas ditas - Ni Brisant. Mais uma obra incrível do Ni. Livro de cabeceira que vale a pena ser lido e relido.

32 - Coroações, aurora de poemas - Débora Garcia. Débora é uma simpatia. Conheci-a no Sesc Campinas no projeto Margens, da querida Jéssica Balbino. Naquela madrugada mesmo comecei a ler o livro, e não parei.

33 - Quarto de Despejo - Carolina Maria de Jesus. Chorei durante toda a leitura. Do começo ao fim. O livro é de uma história real. É o diário de Carolina, que narra seu cotidiano, seus medos e suas aflições como residente na favela.

34 - O arroz de Palma - Francisco Azevedo. Francisco aborda o tema familiar de um modo ingênuo e romantizado. É um livro bonito, mas tem que gostar muito do estilo, pra não soar pedante.

35 - Diário de um presidente - Vol. 1. Fernando Henrique Cardoso. Ainda me perguntando porquê li essas mil páginas. Achei que fosse descobrir alguma faceta mais profunda do ex-presidente. Ledo engano.

36 - Ilusões da Alma - Eduardo Gianetti. Excelente. O Padre Fábio de Melo que me indicou como leitura. Como sempre, não me surpreendi com suas dicas. Gostei muito. Quero reler.

37 - O Lado Bom da Vida - Quick, Matthew. Mais um livro de viagem. A sinopse até que é legal. Mas a leitura é rasa.

38 - Quase, um livro para crianças - Daniel Viana. O Dani é um querido que a poesia colocou em minha vida de um jeito especial. Conheci a bela poesia, depois conheci o belo poeta. É um livro delicioso e, quase para crianças, faz-nos enxergar a pureza infantil da vida.

39 - Baseado Em Causos Reais - Daniel Viana. O projeto do Dani segue surpreendendo. Essa coletânea de causos torna a vida menos dolorida.

40 - Que eu era antes de Você? - Jojo Moyes. Neste livro conheci o projeto Dignitas. Fala sobre o suicídio assistido. É uma história muito triste e linda. Vai virar filme em 2016. Vale muito a leitura.

41 - Mulheres Cinzas:  As Areias do Imperador Vol. I - Mia Couto. Último livro que li este ano. Mia sempre me arranca suspiros. É um autor pra se degustar. A África e seus meandros sempre se apresentam fascinantes; familiar.

42 - O Estranho No Corredor - Chico Lopes. Romance do Chico vencedor do Jabuti como melhor romance. Não preciso dizer que é uma obra prima, certo? Chico tem um cuidado com a história; um capricho, que nos faz orgulhosos como leitor.

43 - Outro Cristianismo é Possível - Roger Lenaers. Uma nova visão sobre a religião. Sem levantar polêmica, é um livro forte pra quem gosta do tema.

44 - Alcoólicas - Hilda Hilst. Sem palavras pra Hilda. Sempre a leio e sempre a lerei.

45 - Os Componentes da Banda - Adélia Prado. Adélia me ensina a ser poeta. A cada livro seu, me descubro.

46 - Solte Os Cachorros - Adélia Prado. Repito o que disse acima.

47 - Poema Pássaro - Juliana Meira. Uma poetisa que não conhecia. Editado caprichosamente pela Patuá, o livro que prende e te faz sentir.

48 - Coletânea Drummond. É Drummond. 3 livros de coletânea lançado pela folha, se não me engano. Li em doses homeopáticas, como sempre faço com meu poeta favorito.

49 - Maria - Rodrigo Alvarez. Um livro reportagem que tenta desvendar jornalisticamente os passos de Maria. Não tem apelo religioso e Rodrigo foi muito feliz em sua abordagem. Gostei muito.

50 - Pode pá que é nóis que tá - Rodrigo Ciríaco. Ganhei este livro da Jéssica Balbino e li na mesma noite que ganhei. Impressionante a sensibilidade da obra.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sorrir

Esse mundo

Almas de lama

Rascunhos

Sono leve

Saber entristecer

A lua

Olhar Complicado

Nó na garganta

Ser. Estar.

Prepotência


Cedo

Hopper

Levantei cedo.
De mãos dadas com o novo dia, amanheci.
Como se o novo fosse um velho conhecido.
Como se o povo, ciente do meu caminho torto, fosse um rosto. 
Um certo caminho pouco. 
Trilhado pelas atitudes pretéritas do futuro quente servido com o pão da manhã. 
Sempre há tempo, insistente fim do dia.
Deito sobre suas regras e desperto um livro em branco. 
Uma página amarela gasta.
Um último suspiro.
Um primeiro choro.


Tadeu Rodrigues
nov/15

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Você que é poeta

Sobre som

Foto: Exposição União Soviética através da câmera

Me perguntam sobre o som.
Sobre o ruído provocado pelas calmarias;
Quando ainda namorávamos imprudentes nas santas romarias.
Me perguntam sobre o som dos sentidos,
e a certeza que temos dos gritos banidos.
Me perguntam sobre o som da raiva da floresta,
a relva ao último ativista que nos resta.
Me perguntam sobre o som...
E eu respondo:
- Som sobre som.


Tadeu Rodrigues 
Out/15

Recordar

Foto: Exposição União Soviética através da câmera

Recordo-me, com um sorriso, da vez que deixamos passar. 
Não havia mais degraus condizentes ao fim.
Existia o início, o começo e a distância;
que deixava as coisas menos nítidas. 
Era como se ela sempre soubesse quem eu sou. 
Não o eu recuperado e simpático às revelias da vida, 
mas o eu que chorava escondido, 
contando os tropeços e os passos de valsa 
dados como cúmplices à história que deu certo.
Somos uma história de amor pouco interpretada. 
Sentida por inteiro. 
Ano a ano. 
Dia a dia. 
Fim a fim.

Tadeu Rodrigues 
Nov/15

Limites

Foto: Tadeu Rodrigues

A margem
da caminhada 
É a bagagem.

Tadeu Rodrigues
nov/15

Com licença

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Liberdade?

Ponto de Referência


- Você sabe onde fica a Praça da Liberdade?
- Sei sim. É pertinho.
- Ótimo. É por aqui mesmo?
- É sim. Sabe a Lojas Americanas ali embaixo?
- Sei.
- Então vire nela e suba pela rua até o Mac Donalds. Quando avistar a loja Zara pegue à direita. Você vai ver um posto Shell bem na esquina. Siga reto pela viela até se deparar com o Burger King. Aí vire à esquerda e caminhe até uma lanchonete que tem um adesivo grande da Coca-Cola. Siga reto até ver o Subway. Vire à esquerda de novo e logo verá uma Casas Bahias enorme. Aí e só dar a volta na rotatória da frente e passar por trás do Magazine Luiza. Assim que chegar na C&A siga reto até o Habib's, que logo nos fundos já vai ver uma loja da Nike. Vá na direção dela e pronto, chegará na Praça da Liberdade.
- Poxa, muito obrigado.
- Não há de quê.
- Ah, e o mirante da praça é de fácil acesso?
- É sim. Mas é pago.
- Que pena.
- Mas é barato. E é só você comprar o bilhete em uma banquinha que fica ao lado direito do portão de entrada, perto da Arezzo.
- Obrigado. Deus lhe pague.


Tadeu Rodrigues
Out/15

Lições

A Grande Peça - 2ª edição



Está chegando a hora!

Preparativos finais da publicação da 2ª edição do livro A Grande Peça.

 A edição está ficando linda demais.

Reservas: in-box ou email para tadeufrodrigues@gmail.com

Acriançar

Sem razões

Academia Poços-caldense de letras

Caríssimos leitores,

fui diplomado com a cadeira número 06 da "Academia Poços-caldense de Letras".
Cadeira que pertenceu a Edmundo Gouveia Cardillo.
Agradeço a todos que lá estavam, em especial a presidente Regina Alves e os demais membros, que não têm medido esforços em levar a literatura à nossa cidade.
A noite foi linda e poética.
Espero poder contribuir e honrar a cadeira que me foi confiada.


Pés nus

Letra da pequena Maria Heloísa - minha sobrinha amada.

Mal conjugados

Somos cômodos
mal conjugados e,
moradas do cheiro,
fazemos do caminho
nosso meio.

Tadeu Rodrigues
out/15

Costuras

Sentia-se capaz de costurar o tempo em seus anseios.
E sentia medos.
Medos escondidos em sua consciência mais nobre, 
desdobrada no olhar de domingo daquele dia que não existe mais.
Capaz de trocar o dito pelo maldito, o toque pelo retoque, a chuva pela brisa.
E no caminho longo,
até mesmo capaz de ser santo.
Tal qual o do pau oco e o da oferenda rejeitada,
que volta com as ondas do ceticismo mal curado.
(...)
Costurava e costurava as suas casas, as suas asas;
até da coragem não entender mais nada.

Tadeu Rodrigues
out/15

Confortos e abraços

Ainda vou partir

Exposição "União Soviética através da câmera"
Ainda vou partir.
Só pra ensinar
ao tempo
O que é ter fim. 

Tadeu Rodrigues
out/15

E nada mais

Bienal Luz do Mundo - Museu Oscar Niemeyer
Leve
em seu peito
meu mundo
Imperfeito.

Tadeu Rodrigues
out/15

As pequenas

Foto: Tadeu Rodrigues - Sheridan´s

 Sofro de síndrome
de pequenas
ausências.

Tadeu Rodrigues
out/15

Solidão solitária

Exposição "União Soviética Através da Câmera"

Solidão solitária,
querida,
É um pedaço
generoso
Da vida.

Tadeu Rodrigues
out/15 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Carne de segunda

https://catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2014/05/Di_Cavalcanti_-_Baianas.jpg
Di Cavalcanti

Ainda de manhã a mãe preparava a comida do final de semana.

Havia tempos que a família não se reunia.

Finalmente todos juntos: pai, mãe, filhos, netos, cachorro, sobrinho.

No café da manhã, animado como sempre, conversavam sobre os últimos acontecimentos políticos.

Falavam sobre o sistema de cotas e sobre o desarmamento civil.

Os argumentos giravam em torno da oportunidade que deveria haver em uma política afirmativa, de inclusão, e a desnecessidade de se armar um cidadão.

A filha ainda leu em voz alta algumas notas de opinião do jornal da cidade. Teorias inteiras divididas em ilusões práticas por salvadores da pátria.

Também falaram sobre o filme "12 anos de escravidão" e a lamentável legitimidade das agressões aos escravos, que apanhavam não sem antes ouvirem da boca dos seus donos a interpretação particular da palavra sagrada acerca do castigo. Justificavam-se buscando algum perdão moral inconsciente - ou consciente - e desciam o chicote com o peso das mãos. Uma mão era usada para bater e a outra para carregar a leveza da culpa em joias, livros santos, cremes naturais. Havia até o patético e infeliz conceito de "dono bom". Aquele que não maltrata os escravos como os senhores da fazenda ao lado. A escravidão manchou nossa sociedade para sempre e jamais deverá ser esquecida. Há uma alta dívida social a ser paga.

- Mas esse filme já não passou faz tempo?
- Não tem muito tempo não. Concorreu ao Oscar do ano retrasado, eu acho.
- É de um livro, né?
- É sim. Parece que foi o próprio escravo que escreveu.
- Eles sofreram muito.
- O negro ainda sofre.
- Sofre.
- Dá uma agonia assistir. Duas horas de filme que parecem séculos de angústia.
- Quero assistir. Tem no Netflix?
- Não sei.
- Shiii.
- O que foi, mãe?
- A carne moída não vai dar.
- Eu vou ao açougue.

O filho trocou de roupa. Vestiu uma camiseta cuidadosamente branca, tal como a sua cor, um relógio mediano, calça de marca e um tênis da moda.

A fila do açougue estava grande. Logo atrás do garoto apareceu um homem baixo, negro, sorridente, vestido com roupas não tão novas e chinelos.

Trocaram um leve aceno com a cabeça, cúmplices da espera.

Quando da vez do filho, a atendente perguntou:

- O que vai ser?
- Quero 1 kg de carne moída.
- Qual carne o sr. quer?
- A maminha está magra?
- Está sim. A carne está boa.
- E o patinho?
- A maminha está melhor.
- Pode ser então.

Enquanto o garoto aguardava a mulher sorridente moer a carne, o segundo atendente falou em direção ao sujeito negro e baixo:

- O que vai ser?
- Também quero 1 kg de carne moída.
- Carne de segunda?
- Não não. Pode ser maminha também.

E assim se passaram 12 segundos de escravidão camuflada àquela sensala moderna.


Tadeu Rodrigues
out/15

*Baseado em fatos reais.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Amo-te perto

"Amo-te
Perto.
Como um segundo é 
Do outro 
Perto.
Como a palma da mão 
É do aplauso
Perto.
Como o constrangimento 
É da vaia
Perto.
Como o fique é
Do saia
Perto.
Como a distância
Não é da paciência
Perto.
Perto.
E nem de todo 
Certo."

Tadeu Rodrigues
out-15

Tinham-se

Entre viagens e crenças

Enquanto isso

Fôlego

(Auto)biografia

Entre Paula e Bebeto

E assim começa

Menino-sonho

Professor

*Arte da Silvana de Quadros

"Primeiro
o professor me ensinou
a voar. 
Depois me deus asas
ensinando-me
a escrever".

Tadeu Rodrigues.
out-15

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Resenha Entrelaçadas - Scribae

Foto Silvanna de Quadros

Resenha sobre meu livro Entrelaçadas, escrita pela Erika Marianno, que saiu no blog Scribae.

Quem quiser conhecer mais o trabalho deles, comandado pelo amigo Regivaldo, é só clicar aqui.

Segue um trecho da resenha:

"Entrelaçadas foi um livro que me de me despertou interesse do começo ao fim, mesmo com um assunto tão pesado como o suicídio, o autor soube exatamente como deixar a leitura leve, tanto as personagens principais como as secundárias são incríveis, todos tem papel importante na história, inclusive eu me identifiquei com alguns deles."

Para ler o texto todo, só clicar aqui.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Entre céus e sabores

Picasso

Minha mãe um dia me disse:
- Filho, venha ver o céu que tanto gosta.
O céu, naquela ocasião,
era minha mãe e meu pai
sentados na varanda aguardando a surpresa do tempo.
(...)
"O céu, minha mãe,
é aquele dia bonito que carregamos
dentro do peito.
Que, até mesmo quando nublado,
enche de esperança nosso peito acinzentado."
(...)
- Mãe, venha comigo ver o céu que tanto somos.

Tadeu Rodrigues
Set/15

Naquele novo


Foto: Tadeu Rodrigues

Naquele sonho novo
A sede do todo.

Tadeu Rodrigues
Barra Velha/CE
Set/15

Cais

Foto: Tadeu Rodrigues

E se estamos longe,
vejo uma ilusão completa
às escondidas 
com os nossos pecados 
mais íntimos.
[Mas]
Se num dia como hoje,
necessários um ao outro,
assim como sinto,
certo,
nosso encaixe abraçaria o mundo.
Tornando-nos meros coadjuvantes
Do protagonismo sincero 
Da poesia.
Do protagonismo sincero 
Dos becos.
Do protagonismo sincero
Do amor.
Nós,
Protagonistas clandestinos;
Coadjuvantes principais
Do nosso cais.

Tadeu Rodrigues
Jericoara/CE

Do povo


Foto: Tadeu Rodrigues

Um mito em minha tribo.
Semente, desatino e, do mais, 
vitrines comerciais
expondo porcamente 
nossos ais.
Aí, disse o poeta do mar,
Vão-se os sapatos
Ficam os pés 
[descalços];
Vão-se os barcos
Ficam os mares
[E a tempestade];
Vão-se as pessoas
Ficam as memórias 
[E a saudade].
E assim,
dentro de mim,
as imagens formam 
versos sem fim.

Tadeu Rodrigues
Canoa Quebrada/CE

Pedaços de fé

Foto: Tadeu Rodrigues


Pelas secas, 
a imagem do que bem podia ser santo.
Um santo de palha, 
rodeado de poeira fina, 
que ouve o gemido verdadeiro fugir do peito 
e chegar em mantra na boca e nos olhos. 
E quando nos olhos, 
lágrima vira, 
e transformada, 
toca o solo e vira barro, 
e do barro, 
casa.
Um pedaço de Deus 
naquelas bandas, 
à fé dos pedaços de homens.

Tadeu Rodrigues
Barra Velha/CE

Terras Secas

*Baseado em terras secas reais.

Foto: Tadeu Rodrigues

- Tem mar aqui não?
- Tem não. Por quê?
- Ôxi, porque tem que ter. Tá vendo esse espaço aí não?
- Deixe de ser besta, homem. Isso é só terra seca branca.
- Parece mais areia de praia.
- E desde quando nós temos praia no sertão?
- Mas tinha que ter.
- Aqui do céu não cai água em nenhuma horinha.
- Cai não? E como é que forma aquela pocinha ali.
- Aquilo é água imaginada. Num tem nada ali não. Dizem que é trapaça de alguma alma inventada.

Tadeu Rodrigues
Em Jericoacara-CE
Set/15

A vida e sua falta de jeito

Autoria desconhecida

Nos desajeitos da vida
engendro uma parte celeste,
que nua, como veio ao meu lado,
sente-se à vontade para chorar
e sentir gratidão pelo amor recém-chegado.
Ciente de que nosso dia,
tal como a certeza do sol demasiado e a rachadura do chão,
chegaria em todas as suas estações.
Esquentando o olhar,
na neve fora de época de todo resto do mundo
- atemporal,
esfriando os nossos medos
e as nossas incertezas.
Nos desajeitos da vida
Nos ajeitamos.

Tadeu Rodrigues
set/15

Cá estou

Há os que gritam