segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Trova

Pintura de Ruben Belloso

Sedentos por vozes, 
por vezes, 
por trovas.

Tadeu Francisco
set/14

Suspenso

Andrew Salgado

A visão já não me obedece.
Estamos na velha batalha de ser.
Qual é aquela figura disfarçada de pano?
Estamos espadas e antigas armaduras.
Quem é o nobre cavaleiro montado naquele tronco?
Estamos jardins suspensos e paraísos desérticos.

Ora, o ar pode ser finito, mas só se você quiser.


Tadeu Francisco
set/14

Daqui - novo dia

Andrew Salgado

Escrevo daqui,
Entre as miragens,
Como se a letra fosse 
Um mar de nada
E o começo de tudo.


Tadeu Francisco
set/14

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Crônica Eleitoreira - Nobre filho da puta



Interrompemos nossa programação normal. Pode ser só uma visita.

 
Nobre filho da puta, a que devo a honra de sua visita?
Já não temos mais comida, mas a água mineral é farta.
Limpe os pés antes de entrar na sala, pois os donos não gostam que sujem o tapete.
O sofá é de madeira, porém aconchegante. 

(...)
 
Fale mais sobre a mesma coisa de ontem, talvez possamos manter tudo como está, de um modo diferente.
Só não desonre minha saúde e minha educação, são as coisas que me restam.
Vamos, nobre filho da puta. O que exatamente você deseja? Não tenho tanto tempo assim.
É ouvido que você quer? Pra ser sincero não te ouço tanto, falta-me tato.
Precisa de alguém com mais sentido?
 
(...)
 
Pelo menos fique em silêncio enquanto lhe falo sobre a intimidade da minha família.
O Aparecido morreu, mas não sem antes engravidar a Vera.
Os três filhos de Maria foram batizado só agora. Que Deus tenha compaixão.
 
(...)
 
Pode ir agora, nobre filho da puta.
Amanhã lhe espero, quero aproveitar sua presença que insiste em me dizer que é gratuita.

Tadeu Rodrigues
set/14

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Berenice e suas raras visitas - Crônica da vida real

Modigliani

- Cadê a Berenice?
- Não sei. Faz tempo que não a vejo.
- Já olhou na sacada?
- Já.
- Já bateu em seu quarto?
- Não tem ninguém lá. A porta está aberta.
- Olhou embaixo da cama?
- Sim - respondeu com as mãos nas costas.
 

O diálogo se seguiu por uma hora, até que ela chegou.
 

- Berenice, estávamos te procurando...
- Eu sei, vô.
- Você não pode sumir assim.
- Desculpa, vó.
- Que isso não se repita.
- Tudo bem. Vou tomar mais cuidado. Agora preciso mesmo ir.
 

(...)
 

- Cadê Berenice?
- Não sei. Faz tempo que não a vejo.

Tadeu Francisco
Set/14

Das coisas que gosto e pouco sei

Van Gogh

Eu gosto de gente simples.
De entender o pouco, carente do relativo muito.
Da marca suada na testa, do tempo menino que resta.
Sei muito pouco sobre os rostos, mas neles encontro moradas.



Eu gosto dos sabores simples.
De entender o sal, carente do relativo doce.
Da marca suada nas panelas, do tempo do forno que resta.
Sei muito pouco sobre os pratos, mas neles encontro moradas.



Eu gosto das viagens simples.
De entender a distância, carente do relativo curto.
Da marca suada na estrada, do tempo veloz que termina.
Sei muito pouco sobre o asfalto, mas nele encontro moradas.

Tadeu Francisco
Set/14

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

De cor

Diego Gravinese

Sei de cor as suas falhas salteadas...

Tadeu Francisco 
set/14

O poeta é rei

Salvador Dalí





Em terra de poesia, 
quem tem o céu é rei.

Tadeu Francisco
set/14

A brisa e o pássaro

O Enigma - Salvador Dalí



Cada vento 
em sua 
devida asa.

Tadeu Francisco
Set/14

Rastro

pintura Giorgio de Chirico

Para pegar as poucas malas 
e saudar o rastro;
Vejo além dos bancos das praças, 
Vejo cansaço. 

Tadeu Francisco
set/14

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Eduarda e o livro - uma leitura crônica

Pintura de Andrew Atroshenko

Eduarda assinou o livro com gosto, expondo o seu íntimo universo composto por prateleiras.

Ela sabia que se ele lesse aquelas palavras estaria livre; não precisaria explicar. Os livros explicariam por ela, e talvez a explicassem. 

Precisaria ir mais fundo.

Com a capa fechada, partiu calmamente.

Pelas ruas o sereno da madrugada brigava com sua pele quente.

Chegou na casa dele e se abaixou. Ninguém poderia vê-la.

O grande portão branco da frente estava aberto. Ela temeu por algum cachorro, mas não ouviu latidos. Caminhou por duas eternidades pelo caminho de grama que ligava a rua à porta da casa.

O que o livro tinha a dizer senão letras já criadas?

Eduarda pensou em tocar campainha. "Melhor não".

Deixou o livro sobre o tapete e partiu tão sorrateira quanto chegou.

Antes de amanhecer ela já estava na rodoviária voltando para sua cidadezinha natal, desconhecida para ele. Nunca falaram sobre isso.

Não deixou seu nome completo e sequer endereço ou telefone. Apenas seu primeiro nome e o clamor para que lesse.

Jamais saberemos se ele o recebeu, se o leu e o que sentiu.

Eduarda desaprendeu a voltar.

Tadeu Francisco
set/14

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Crônica da despedida - um drama

Autoria desconhecida

Precisei escrever isto antes de partir. Partirei depois de amanhã, ao anoitecer.
 
Talvez leia essas palavras quando já não puder falar mais comigo.
 
Deixo meus documentos, algumas lágrimas e meu pouco dinheiro.
 
Parto sem rosto e sem nome.
 
Quem se importa?
 
Você não acredita em destino? Pois bem, deixe que ele faça o seu papel e diga se devo ou não ir.
 
De toda forma, se está lendo estas palavras, é porque o destino falhou miseravelmente.
 
Não voltarei. Dói-me dizer. A sinceridade que posso deixar contigo é que me consola.
 
Lembra daquela árvore do jardim que eu lhe disse que plantei com nosso avô? Então, é mentira. Foi o avô do vizinho que a plantou. Nosso avô odiava árvores. Sei que você era nova e jamais saberia disso. Ah, ele odiava crianças também.
 
Sabe a guerra que o pai foi defender em nome das crianças famintas? Também é mentira. Ele morreu de cirrose de tanto beber.
 
Não sei se vale a pena continuar... terei que entrar em terrenos áridos da sexualidade da mamãe.
 
A minha ida também poderia estar envolta por fantasias, mas melhor não.
 
Sem mais mentiras.
 
Vou porque sigo cansado. Queria te levar comigo, mas não dá.
 
Talvez eu viva como indigente ou de bicos nada honestos por aí.
 
Cuide de nossa casa, é o que lhe resta. Mande pintar o portão, pois a ferrugem está corajosa. Mande limpar o quintal, o mato traz bichos.
 
Dê de beber aos cachorros.
E cuide das verdades da nossa família.

Tadeu Rodrigues
Set/14

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Crônica da geleia de morango, e outras coisas do bem

Picasso

Teresa, no alto de seus seis anos, desceu as escadas antes das 6h30. Seus pais já estavam tomando café.
 

Sua mãe sorridente lhe serviu biscoito doce. Seu pai fazia caretas enquanto lia o jornal.
 

Teresa passou as pequenas mãos nos olhos e mastigou devagar.
 

O pai demorou para notar sua presença e, quando o fez, beijou-a na testa em um sinal simpático de bom dia.
 

Ele lia, em voz alta, o caderno cultural, que exaltava trabalhos sociais de uma trupe circense por todo o mundo.
 

A pequena Teresa, mesmo sem entender, deduziu que aquilo era algo bom.
 

- Termine seu café para irmos à escola.
 

Teresa limpou os olhos novamente e esqueceu de ser criança. Mas não poderia se esquecer de ir ao inglês, espanhol, aula de dança, natação, sapateado, ginástica olímpica e tênis.
 

Seu pai continuou lendo a notícia em voz alta para a mãe, e Teresa continuou confusa com aquele recital matutino.

- É bom saber que neste exato momento há pessoas fazendo a diferença no mundo.
 

- Que isto nos sirva de exemplo.

Teresa olhou para eles fitando a lógica filantrópica que pairava no ar.
 

- Suba para se arrumar, filha, antes que seu pai fique bravo. Seu uniforme está na gaveta.
 

Ela olhou para o pai que sequer moveu a cabeça.
 

- Hoje eu queria levar geleia de morango para comer no recreio.
 

- Tudo bem - falou a mãe com as mãos em seus cabelos. - Pode pegar no armário.
 

Quando Teresa se levantou, a mãe ainda a abordou, talvez motivada pela notícia do caderno cultural:
 

- Lembre-se sempre de fazer o bem, querida - disse lhe dando alguns tapinhas nas costas.
 

Teresa não entendeu o que fazer o bem tinha a ver com morangos. 

Naquela manhã ela só queria geleia.

Tadeu Rodrigues

Set/14