sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Crônica do Eliseu, o normal

Modigliani

Eliseu era mais um na multidão. Como ninguém, sabia ser normal.

Era uma pessoa normal quando acordava, quando ia dormir e quando conversava com os outros.

Era normal quando falava sobre política, sobre música e literatura.

Normal.

Normal quando sorria em seus aniversários - mais de 80 - e quando agradecia aos agrados.

Era normal quando elogiava a comida do seu restaurante preferido e quando deixava cair o talher no chão.

Normal quando perdia a paciência no trânsito e quando se emocionava vendo um filme de amor.

Normal.

Tinha as respostas normais para as perguntas normais.

Era bom ser normal no mundo do Eliseu. 

Eliseu não chateava ninguém e contava piadas normais.

Mas um dia Eliseu morreu.

Foi um velório normal, com lágrimas reais - e normais.

"Aqui jaz Eliseu, 
tão normal quanto eu."


Tadeu Rodrigues 
Ago/14

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Crônica da menina feia

Pintura de Vanessa Lima

Quando eu era criança, meu pai sempre me perguntava sobre as minhas namoradinhas. E ele sempre se lembrava do nome das garotas mais feias e chatas da escola, com exceção da Ana Lúcia, que era feia e legal. 

Eu gostava dela; eu e mais ninguém.

Os garotos não se exibiam para Ana Lúcia. Garotos não se exibem para mulheres feias. 

Eu me exibia, em vão. Tudo bem que eu não tinha tantos talentos.

Ana Lúcia era tímida. Eu mal conseguia me aproximar dela. Vivia se escondendo, fugindo de mim. 

Eu em um canto e ela em outro, sempre.

Foi meu grande amor. E assim permaneceu por anos, em silêncio, ano a ano; classe a classe, até terminarmos o colegial. 

Ela nunca soube.

Vi seus seios crescerem, seu corpo formar, sua voz suavizar.

Continuava feia, e me evitando, ainda assim. Já eu, continuava a amando.

As lágrimas secaram com o vento do tempo, e cresci.

Na nossa festa de 10 anos pós-escola ela estava lá. Tínhamos 27.

Nossa turma cresceu e mal reconheci meus colegas.

Ana Lúcia estava esbelta e linda como nunca.

Os meninos esnobadores de antes agora a cortejavam. Ela sorria bem menos tímida.

Descobri que ela era formada e já atuava como médica.

Quando me viu, correu ao meu encontro. Abraçamo-nos sorridentes.

- Ana Lúcia, você está... você está linda.

Ela agradeceu e ergueu a aliança nos dedos.

- E casada!

Algumas bebidas após criei coragem para me declarar, era algo que eu precisava dizer.

- Eu te amei durante o período todo da escola.
- Eu sabia.
- Você sabia?
- Sim.
- Então por que me evitava?

Ela sorriu sem jeito, deixando sua graça me invadir como em tempos mágicos da escola.

- Eu tinha um pouco de vergonha... você era muito feio.


Tadeu Rodrigues
Agosto de 2014

Dentre outras coisas

Naif Aracy



Amar, 
dentre outras coisas, 
para que viver não seja pouco.

Tadeu Francisco
ago/14

Um conto nada filosófico

Autoria desconhecida

Confundiu Nietzsche com um espirro. 
Foi mais feliz assim. 

Tadeu Francisco
ago/14

E essa fé

Pintura de Francisco de Assis Córdula

Linda a fé que tem cheiro de gente

Tadeu Francisco 
ago/14

Diminuir

Iman Maleki

Ela costumava ser artista quando criança. 
Cresceu e não ficou maior. 
E quando a lágrima voltou... 
bom, ela soube se apequenar.

Tadeu Francisco
ago/14

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Cívico

Augusto Ferrer-Dalmau

A história é um conto de fardas.

Tadeu Francisco
ago/14

Da terra

Andrew Atroshenko

 O amor move entranhas,
A fé dança às montanhas.

Tadeu Francisco
ago/14

Sós

Pintura Andrew Atroshenko

Eu chamava de caminho
O que ela entendia
por solidão.

Tadeu Francisco
ago/14

Também é

Autoria desconhecida

A vida também é o que sonhamos na fila do banco...

Tadeu Francisco
ago/14

E um dia...

Pintura Eterno sonhador





E um dia serei poeta.
Terei sonhos no lápis e mais de um coração.
Serei compositor de vento,
E com ele ventarei... 
até não me restar razão.

Tadeu Francisco
ago/14

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Marcos Cheres

Este ano a Ong Expressão Livre de Monte Sião/MG promoveu o 13º Festival de música.

Quem acompanha a ONG sabe do esforço que foi e é manter um festival com qualidade por tanto tempo.

Já adianto os parabéns à equipe e desejo todo sucesso do mundo. Eles merecem!

Quem quiser conhecer mais o trabalho da ong é só clicar aqui.

Há um troféu chamado Marcos Cheres em homenagem a um grande amigo nosso, que foi fundamental em energia para que o festival acontecesse.

Os mais novos não se lembram dele. O presidente da ONG e grande amigo, Reginaldo, me procurou e pediu para que eu escrevesse uma carta apresentando Marcos à cidade e aos músicos que lá estavam.



Escrevi o seguinte:

Talvez apenas os mais antigos da Ong Expressão Livre se lembrarão do Marcos. E acredito que seja nossa missão, enquanto memórias vivas, não deixarmos que seus ensinamentos e luta pela vida sejam apagados das lembranças do povo de Monte Sião.

É sempre difícil falar do Marcos, pois uns dizem não ser justo honrarmos alguém que tirou a própria vida. Mas sabemos que não era a vida que ele queria tirar, mas sim suas dores.

A arte anda de mãos dadas com as dores. Os compositores aqui presente sabem bem disso. 

Compomos o amor não querido, as despedidas, as solidões. O artista quando não tem lágrima, inventa. Quando não chora por si, chora pelos outros. Toma como seu os cortes da vida e lamenta em melodia as cicatrizes.

As dores do artista Marcos, são um pouco as nossas.

Assim que ele morreu, tocamos neste palco a música Lanterna dos Afogados. E na hora do seu solo, a música acabou. Tenho certeza que as notas de sua guitarra ainda ecoam em nossa cabeça.

Ele foi nossa lanterna. E ele gostava de viver.

Marcos lutou como poucos para se livrar do vício das drogas. E ele envolveu todo mundo nesta batalha em remotos tempos de Pastoral da Juventude. Antes dele, erámos apenas teoria, e ele veio com a prática. A prática do que é ver um amigo cair. A prática do que é ver um amigo se levantar, dar a volta por cima e bradar ao mundo seus testemunhos. Não vejo Marcos como uma pessoa derrotada, mas o vejo como um lutador, e lutou enquanto pôde. E mais que isso, nos ensinou a sermos vencedores.

É com alegria que devemos lembrar dele. E tenho certeza que, onde quer que ele esteja, está feliz por estar imortalizado em um troféu de um festival de música que ele tanto gostava.

Tantos anos se passaram. Tanta coisa aconteceu.

É... descanse em paz, Marcos, mas nunca deixe de dançar conosco o som que te movia.

Tadeu Rodrigues


Crônica de segunda - I

O dia de Estela


100 anos e mais alguns dias.

Ela acordou carregando o mundo sobre as costas, ou o que sobrou dele.

Seus olhos castanhos, que outrora fisgaram os mais disputados homens, carregavam a cor do esquecimento em uma cadeira de balanço largada ao sol.

Estela sabia que sua vida ainda tinha fôlego e que seus anos vividos não seriam capazes de lhe virar as costas.

Levantou-se e escovou os dentes. Suas mãos fracas ainda a obedeciam.

Ligou para os dois filhos, benzeu a foto do falecido e acendeu a vela para todos os santos;  nessa altura da vida não podia escolher um só.

Chegou na cozinha e ferveu a água para o café. Abriu a porta que fazia frente para o quintal e olhou para cima tentando entender aquele dia nublado. O tempo não lhe tirou a capacidade de ver figuras nas nuvens.

Seu passarinho, Bob, cantou com força de dentro da gaiola. Ela o fitou. Estavam juntos havia 4 anos.

Aproximou-se e brincou com ele, que não fugia mais, deixava-se sentir o afago terno em suas penas.

Em um momento de ousadia, abriu a gaiola para que Bob voasse. Ele não voou. Ela deixou a portinha aberta. E nada. O pássaro continuou no fundo da gaiola.

Fez o almoço individual e assistiu a reprise da novela. Assistira a versão original e as duas cópias dos anos posteriores.

À noite assistiu a notícia e limpou o sangue jorrado em seus ouvidos pelo belo apresentador carrancudo. 

Ela se banhava dos perigos do dia cantarolando sua canção favorita. A mesma música que sua mãe cantava todas as noites enquanto costurava no quartinho dos fundos.

Antes de se recolher, voltou até a gaiola, encarou o pássaro obediente e sorriu, agradecida por ele ter ficado.

Era bom ter algo que podia voar ao seu lado. Só assim poderia bater suas próprias asas.

E ainda havia tempo.

Tadeu Francisco
ago/14