sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Perda

O ar se foi, 
junto, 
o seu par. 
Pareados no tempo; 
encontrados no sopro, 
no relento. 
O ar dele, 
a vida dela. 

Tadeu Francisco
(em algum momento de 2011)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sua cor

Matisse

Eu fitei a esperança 
quando acertei qual era 
A sua cor favorita. 
Era preto. 
Preto-esperança.

Tadeu Francisco
jan/14

Cercas

Matisse

O vendaval 
que nos cerca 
Cabe em um soluço.

Tadeu Francisco
jan/14

Tudo que vai

Henri Matisse




Sentada no primeiro degrau da escada, 
o mundo passou diante dos seus olhos. 
Ela precisou subir. 
Era tarde.

Tadeu Francisco
jan/14

Pedra

Matisse




Nego-me três vezes, 
E traio os meus erros.

Tadeu Francisco
jan/14

Muito

Renoir




E de tanto te amar para sempre 
Me enchi de infinitos.

Tadeu Francisco
jan/14

Ofuscado

Edward Hopper



- Inunda-nos, 
marejados, 
mares-olhares.

Tadeu Francisco 
Jan/14

Pele

Edward Hopper

...enquanto observo 
a pele se render 
Ao fôlego 
que me esconde...

Tadeu Francisco 
jan/14

A melodia

Picasso

A partitura 
guarda 
Os sóis.

Tadeu Francisco
jan/14

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Crônica quase real - o diário de casa IV

Vestes


Um menino senta ao meu lado e me olha de relance. Talvez meu vestido vermelho com bolinhas brancas tenha lhe despertado interesse.

Eu estava lendo um conto despretensioso de Poe. Se é que é possível falar em despretensão de Poe.

Paro com a leitura para observá-lo. Ele está curioso por algo, mas tímido o suficiente para se manter no lugar.

- É pra escola? - ele finalmente cria coragem para perguntar.

Acho graça, pois já tenho 40 anos.

- Não. É para mim mesmo - respondo acenando com o livro.

O garotinho, no auge dos seus 10 anos, não aceita muito a minha resposta.

- Por que está lendo se não é para a escola?

- Porque eu gosto de ler histórias.

- Pra quê?

Com um toque infeliz de cena mórbida, noto que ele não vê sentido em fazer algo por fazer.

Olho para ele.

- Na verdade eu estou lendo porque eu não sou deste mundo.

- Não?

- Não. Os livros são os meus portais. Quando os abro, volto para a minha terra natal, que fica bem longe daqui.

- Você é um ET?

- Sou - olho para ele sem intimidá-lo. - Você quer experimentar? Pode conhecer a minha casa.

Ele me fita ainda mais desconfiado.

- Eu posso ler pra você um pouco, se quiser - insisto.

Ele concorda. Abro o início do conto e respiro fundo para começar a história. Não dá tempo. Uma voz forte me interrompe. Um adulto o pega forte pelos braços.

- Ei, vamos embora, querido. Estamos atrasados para a escola.

Ele sai com o que penso ser sua mãe. Não nos despedimos. Ao longe ainda posso ouvir um cochicho:

- Já falei que não é pra você falar com estranhos?

Tadeu Francisco
Jan/14