terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O presente - Crônica de terça

O Sonho, Pablo Picasso

Prometeram-lhe algo especial. Ficou com aquilo na cabeça, imaginando o que seria.
 

Algo especial por quê? Não fizera nada demais.
 

Disseram-lhe que ser quem era bastava.
 

Tinha os olhos grandes e parados, não se moviam com a velocidade dos pensamentos oportunos ao sonhador infiel que era. Infiel porque sonhava seus desejos, mas os apagava quando do cair da noite. Iam-se com a claridade do dia e mergulhavam na escuridão.
 

Mas então, o que de especial merecia?
 

Chegou no horário marcado de banho tomado e roupas limpas. Sentou-se no banco combinado. Coçou a palma da mão esquerda e lembrou de sua saudosa mãe dizendo ser isso sinal de dinheiro. Bem que precisava de alguns trocados.
 

Ela chegou pelas escadas e trazia consigo um pacote embrulhado meticulosamente. Ele a observou em cada detalhe e a desenhou em memórias; precisaria daquilo para o sonho noturno diário.
 

- Oi.
- Oi.
- O que trouxe pra mim?
 

Ela o olhou e lhe estendeu as mãos, empurrando o embrulho.
 

Ele o pegou desconfiado e abriu o pacote lentamente. Ela desviou o olhar. Deixou-se aérea e incerta em um dueto de mistério. Olhar e pacote.
 

Antes de abrir o embrulho por completo, ele o chacoalhou.
 

- Não! - ela disse nervosa.
 

Ouviu-se pedaços de coisas se quebrando. Ela começou a chorar e foi embora com as mãos no rosto. Ele pensou em ir atrás, mas desistiu. Voltou-se ao embrulho e terminou de abri-lo.
 

Eram apenas cacos. Não sabia ao certo o que eram e sequer o que formavam.
 

No interior da caixa havia um cartão:
 

"Fiz pra você".
 

Ele tentou formar algo com o que caiu, como um quebra-cabeça desajustado. Foi em vão. Nenhuma forma. Nenhuma pista. Apenas o cartão e o rosto em lágrimas.
 

Ele se sentiu especial por alguns minutos.

Tadeu Rodrigues
nov/14

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