segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Crônica de segunda - o último som



Aprendi a tocar violão ainda jovem. Ensinaram-me os acordes, não a música. Foi ruim prensar os dedos contra o aço resistente daquela caixa de madeira. Mas o som  se calejou em minha pele e logo me fez esquecer a dor.

Assim, meu som calejado, mais do que técnica, resguardou-se em uma experiência quase-alma. Não compreendia os ateus que se formavam nas academias de arte. A música era minha religião e meu Deus, com todos os seus pecados e infernos.

O segundo passo da minha seita intimista foi sair de mim. E assim fiz quando compus minha primeira canção; acabara de fazer 78 anos. É, demorou um bocado.

Minha fonte da juventude, quase seca, foi umedecida pelo tempo que esqueceu de acontecer. O acorde me lembrou que ser músico, assim como ser poeta, é fácil quando se é jovem. O desafio é compor após os 70, olhar para o muro gelado da vida e dele extrair notas.

Tudo bem que a velhice dispensa malícia, é o bônus que o caminho nos dá por sermos velhos.

Sei que logo morrerei, mas morrerei imortal; como uma nota de guerra na imprensa; como o impensado término da família real; como eu querendo ser som, querendo ser você.

Minha letra falava sobre amor, e sem ele a música não tinha razão de ser. Condição sem a qual a arte não se movimenta. E se me movo, mesmo que manco pelos ossos doídos, é porque você ainda me faz amar.

Acho que não comporei mais.

Minha música reacendeu o fim.

Tadeu Rodrigues
10-11-2014

3 comentários:

  1. Um acorde perfeito essa tua crônica, Tadeu! Parabéns!

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    1. Valeu pelo comentário "sonoro". Que bom que gostou! =)

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  2. Sabe que logo morrerá, imortalizado pelo amor que perdurará — em música — traduzindo a essência do que foi o seu viver. Maravilhoso texto...nunca tinha vindo aqui, voltarei outras vezes. ;)

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