quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Eduarda e o livro - uma leitura crônica

Pintura de Andrew Atroshenko

Eduarda assinou o livro com gosto, expondo o seu íntimo universo composto por prateleiras.

Ela sabia que se ele lesse aquelas palavras estaria livre; não precisaria explicar. Os livros explicariam por ela, e talvez a explicassem. 

Precisaria ir mais fundo.

Com a capa fechada, partiu calmamente.

Pelas ruas o sereno da madrugada brigava com sua pele quente.

Chegou na casa dele e se abaixou. Ninguém poderia vê-la.

O grande portão branco da frente estava aberto. Ela temeu por algum cachorro, mas não ouviu latidos. Caminhou por duas eternidades pelo caminho de grama que ligava a rua à porta da casa.

O que o livro tinha a dizer senão letras já criadas?

Eduarda pensou em tocar campainha. "Melhor não".

Deixou o livro sobre o tapete e partiu tão sorrateira quanto chegou.

Antes de amanhecer ela já estava na rodoviária voltando para sua cidadezinha natal, desconhecida para ele. Nunca falaram sobre isso.

Não deixou seu nome completo e sequer endereço ou telefone. Apenas seu primeiro nome e o clamor para que lesse.

Jamais saberemos se ele o recebeu, se o leu e o que sentiu.

Eduarda desaprendeu a voltar.

Tadeu Francisco
set/14

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