segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Crônica da geleia de morango, e outras coisas do bem

Picasso

Teresa, no alto de seus seis anos, desceu as escadas antes das 6h30. Seus pais já estavam tomando café.
 

Sua mãe sorridente lhe serviu biscoito doce. Seu pai fazia caretas enquanto lia o jornal.
 

Teresa passou as pequenas mãos nos olhos e mastigou devagar.
 

O pai demorou para notar sua presença e, quando o fez, beijou-a na testa em um sinal simpático de bom dia.
 

Ele lia, em voz alta, o caderno cultural, que exaltava trabalhos sociais de uma trupe circense por todo o mundo.
 

A pequena Teresa, mesmo sem entender, deduziu que aquilo era algo bom.
 

- Termine seu café para irmos à escola.
 

Teresa limpou os olhos novamente e esqueceu de ser criança. Mas não poderia se esquecer de ir ao inglês, espanhol, aula de dança, natação, sapateado, ginástica olímpica e tênis.
 

Seu pai continuou lendo a notícia em voz alta para a mãe, e Teresa continuou confusa com aquele recital matutino.

- É bom saber que neste exato momento há pessoas fazendo a diferença no mundo.
 

- Que isto nos sirva de exemplo.

Teresa olhou para eles fitando a lógica filantrópica que pairava no ar.
 

- Suba para se arrumar, filha, antes que seu pai fique bravo. Seu uniforme está na gaveta.
 

Ela olhou para o pai que sequer moveu a cabeça.
 

- Hoje eu queria levar geleia de morango para comer no recreio.
 

- Tudo bem - falou a mãe com as mãos em seus cabelos. - Pode pegar no armário.
 

Quando Teresa se levantou, a mãe ainda a abordou, talvez motivada pela notícia do caderno cultural:
 

- Lembre-se sempre de fazer o bem, querida - disse lhe dando alguns tapinhas nas costas.
 

Teresa não entendeu o que fazer o bem tinha a ver com morangos. 

Naquela manhã ela só queria geleia.

Tadeu Rodrigues

Set/14

Um comentário:

  1. Muito boa crônica.
    Os pais falam sobre o bem mas não ensinam os filhos como fazer. Lógico que eles não vão entender nada e nem o por quê fazer.
    Parabéns.

    Ítalo

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