terça-feira, 2 de setembro de 2014

Crônica da despedida - um drama

Autoria desconhecida

Precisei escrever isto antes de partir. Partirei depois de amanhã, ao anoitecer.
 
Talvez leia essas palavras quando já não puder falar mais comigo.
 
Deixo meus documentos, algumas lágrimas e meu pouco dinheiro.
 
Parto sem rosto e sem nome.
 
Quem se importa?
 
Você não acredita em destino? Pois bem, deixe que ele faça o seu papel e diga se devo ou não ir.
 
De toda forma, se está lendo estas palavras, é porque o destino falhou miseravelmente.
 
Não voltarei. Dói-me dizer. A sinceridade que posso deixar contigo é que me consola.
 
Lembra daquela árvore do jardim que eu lhe disse que plantei com nosso avô? Então, é mentira. Foi o avô do vizinho que a plantou. Nosso avô odiava árvores. Sei que você era nova e jamais saberia disso. Ah, ele odiava crianças também.
 
Sabe a guerra que o pai foi defender em nome das crianças famintas? Também é mentira. Ele morreu de cirrose de tanto beber.
 
Não sei se vale a pena continuar... terei que entrar em terrenos áridos da sexualidade da mamãe.
 
A minha ida também poderia estar envolta por fantasias, mas melhor não.
 
Sem mais mentiras.
 
Vou porque sigo cansado. Queria te levar comigo, mas não dá.
 
Talvez eu viva como indigente ou de bicos nada honestos por aí.
 
Cuide de nossa casa, é o que lhe resta. Mande pintar o portão, pois a ferrugem está corajosa. Mande limpar o quintal, o mato traz bichos.
 
Dê de beber aos cachorros.
E cuide das verdades da nossa família.

Tadeu Rodrigues
Set/14

2 comentários:

  1. Muita tristeza que me fez pensar.
    Parabéns pelas crônicas. Uma melhor do que a outra.

    ResponderExcluir