quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Crônica da menina feia

Pintura de Vanessa Lima

Quando eu era criança, meu pai sempre me perguntava sobre as minhas namoradinhas. E ele sempre se lembrava do nome das garotas mais feias e chatas da escola, com exceção da Ana Lúcia, que era feia e legal. 

Eu gostava dela; eu e mais ninguém.

Os garotos não se exibiam para Ana Lúcia. Garotos não se exibem para mulheres feias. 

Eu me exibia, em vão. Tudo bem que eu não tinha tantos talentos.

Ana Lúcia era tímida. Eu mal conseguia me aproximar dela. Vivia se escondendo, fugindo de mim. 

Eu em um canto e ela em outro, sempre.

Foi meu grande amor. E assim permaneceu por anos, em silêncio, ano a ano; classe a classe, até terminarmos o colegial. 

Ela nunca soube.

Vi seus seios crescerem, seu corpo formar, sua voz suavizar.

Continuava feia, e me evitando, ainda assim. Já eu, continuava a amando.

As lágrimas secaram com o vento do tempo, e cresci.

Na nossa festa de 10 anos pós-escola ela estava lá. Tínhamos 27.

Nossa turma cresceu e mal reconheci meus colegas.

Ana Lúcia estava esbelta e linda como nunca.

Os meninos esnobadores de antes agora a cortejavam. Ela sorria bem menos tímida.

Descobri que ela era formada e já atuava como médica.

Quando me viu, correu ao meu encontro. Abraçamo-nos sorridentes.

- Ana Lúcia, você está... você está linda.

Ela agradeceu e ergueu a aliança nos dedos.

- E casada!

Algumas bebidas após criei coragem para me declarar, era algo que eu precisava dizer.

- Eu te amei durante o período todo da escola.
- Eu sabia.
- Você sabia?
- Sim.
- Então por que me evitava?

Ela sorriu sem jeito, deixando sua graça me invadir como em tempos mágicos da escola.

- Eu tinha um pouco de vergonha... você era muito feio.


Tadeu Rodrigues
Agosto de 2014

4 comentários:

  1. Ótima!
    Essas pequenas surpresas da vida.

    No início eu me identifiquei com a situação e a personagem na época do colégio.

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  2. Achei que a cronica tivesse um final feliz, mas como sempre o Tadeu surpreende. rsss Roldão

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  3. Que crônica!! Viajei aqui imaginando.
    Bela.

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