quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Crônica quase real - o diário de casa IV

Vestes


Um menino senta ao meu lado e me olha de relance. Talvez meu vestido vermelho com bolinhas brancas tenha lhe despertado interesse.

Eu estava lendo um conto despretensioso de Poe. Se é que é possível falar em despretensão de Poe.

Paro com a leitura para observá-lo. Ele está curioso por algo, mas tímido o suficiente para se manter no lugar.

- É pra escola? - ele finalmente cria coragem para perguntar.

Acho graça, pois já tenho 40 anos.

- Não. É para mim mesmo - respondo acenando com o livro.

O garotinho, no auge dos seus 10 anos, não aceita muito a minha resposta.

- Por que está lendo se não é para a escola?

- Porque eu gosto de ler histórias.

- Pra quê?

Com um toque infeliz de cena mórbida, noto que ele não vê sentido em fazer algo por fazer.

Olho para ele.

- Na verdade eu estou lendo porque eu não sou deste mundo.

- Não?

- Não. Os livros são os meus portais. Quando os abro, volto para a minha terra natal, que fica bem longe daqui.

- Você é um ET?

- Sou - olho para ele sem intimidá-lo. - Você quer experimentar? Pode conhecer a minha casa.

Ele me fita ainda mais desconfiado.

- Eu posso ler pra você um pouco, se quiser - insisto.

Ele concorda. Abro o início do conto e respiro fundo para começar a história. Não dá tempo. Uma voz forte me interrompe. Um adulto o pega forte pelos braços.

- Ei, vamos embora, querido. Estamos atrasados para a escola.

Ele sai com o que penso ser sua mãe. Não nos despedimos. Ao longe ainda posso ouvir um cochicho:

- Já falei que não é pra você falar com estranhos?

Tadeu Francisco
Jan/14

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