segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Há final

Picasso 

Há final, saudoso ano. Há. Quer você queira, quer não.
A mesa pode estar farta, a louça lavada, a sala varrida,
a toalha perfumada, as frutas frescas, a avó sorridente,
a vida reclamada, o dinheiro curto, o calor insuportável;
Mas há.
São tantos os finais que desconheço os (re)começos.
Talvez um bocejar, talvez uma revoada, talvez uma brisa mais fria.
E nos reerguemos no talvez.
Talvez valha a pena, talvez não.
Talvez sejamos novos, talvez os mesmos velhos.
É só mais um ano no calendário ou só mais um ano a menos de vida?
Talvez vejamos o ano novo agarrados ao ano velho.
Talvez brindemos à nova virada com as antigas taças compradas pelo tempo.
No fim, estamos quase novos, quase inteiros, quase poetas..
Afinal, não sei, ainda quero festejar.


Tadeu Rodrigues
Dez/14

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O presente - Crônica de terça

O Sonho, Pablo Picasso

Prometeram-lhe algo especial. Ficou com aquilo na cabeça, imaginando o que seria.
 

Algo especial por quê? Não fizera nada demais.
 

Disseram-lhe que ser quem era bastava.
 

Tinha os olhos grandes e parados, não se moviam com a velocidade dos pensamentos oportunos ao sonhador infiel que era. Infiel porque sonhava seus desejos, mas os apagava quando do cair da noite. Iam-se com a claridade do dia e mergulhavam na escuridão.
 

Mas então, o que de especial merecia?
 

Chegou no horário marcado de banho tomado e roupas limpas. Sentou-se no banco combinado. Coçou a palma da mão esquerda e lembrou de sua saudosa mãe dizendo ser isso sinal de dinheiro. Bem que precisava de alguns trocados.
 

Ela chegou pelas escadas e trazia consigo um pacote embrulhado meticulosamente. Ele a observou em cada detalhe e a desenhou em memórias; precisaria daquilo para o sonho noturno diário.
 

- Oi.
- Oi.
- O que trouxe pra mim?
 

Ela o olhou e lhe estendeu as mãos, empurrando o embrulho.
 

Ele o pegou desconfiado e abriu o pacote lentamente. Ela desviou o olhar. Deixou-se aérea e incerta em um dueto de mistério. Olhar e pacote.
 

Antes de abrir o embrulho por completo, ele o chacoalhou.
 

- Não! - ela disse nervosa.
 

Ouviu-se pedaços de coisas se quebrando. Ela começou a chorar e foi embora com as mãos no rosto. Ele pensou em ir atrás, mas desistiu. Voltou-se ao embrulho e terminou de abri-lo.
 

Eram apenas cacos. Não sabia ao certo o que eram e sequer o que formavam.
 

No interior da caixa havia um cartão:
 

"Fiz pra você".
 

Ele tentou formar algo com o que caiu, como um quebra-cabeça desajustado. Foi em vão. Nenhuma forma. Nenhuma pista. Apenas o cartão e o rosto em lágrimas.
 

Ele se sentiu especial por alguns minutos.

Tadeu Rodrigues
nov/14

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Balanço Literário de 2014



Vamos ao balanço literário dos livros que li de dezembro/2013 a novembro/2014.

Os livros estão na sequência de leitura.

Não contém spoilers.

1- Jogos Vorazes, Suzanne Collins - Despretensiosamente peguei o livro para ler (acho que pelos comentários a respeito, enfim, pela modinha mesmo). Gostei muito do enredo e de como a história se desenvolveu. É uma trama teen, mas que merece respeito. Gostei bastante, em especial do tom crítico que se assume à sociedade do espetáculo.

2 - Em Chamas, Suzanne Collins - Na sequência iniciei a leitura do em Chamas. Percebi um amadurecimento dos personagens e do modo cativante com que a protagonista Katniss consegue ser uma heroína pura, com suas falhas, inquietudes e que coloca suas dores acima de qualquer romance.

3 - Esperança, Suzanne Collins - Também na sequência li Esperança. Contrariando a lógica de trilogias, consegue ser o melhor dos três. A discussão política ganha força e a guerra, sendo real, é travada; demonstrando a grande evolução da autora junto com a trama.

Ps: sobre o fato de a trilogia ser um plágio de uma obra chamada Battle Royale, li artigos contra e a favor. A autora diz que foi acaso.

4 - Morte Súbita - J.K Rowlings - Nunca li Harry Potter. E essa autora me chamou atenção quando li a respeito do seu pseudônimo revelado (clique aqui). Falaram-me que era um romance policial legal e tal. Enfim, achei fraco e cansativo. Não me envolvi. Acho que Harry Potter deu mais certo.

5 - Alta Finança - Ken Follett - um dos primeiros livros do meu escritor favorito. Ken demonstrou porque sempre foi considerado um bom escritor. Suas histórias são fantásticas e conseguem me envolver de uma maneira sem igual. Escrevo isto em janeiro, ou seja, é provável que em novembro eu já tenha lido o último da trilogia do século. Estou ansioso. (up date: ainda não li)

6 - Do Desejo - Hilda Hilst - reli esse livro pela milionésima vez. É meu xodó e fica ao lado dos livros do poeta Manoel de Barros em minha estante.

7 - Cidade de Papel, John Green - não gostei, mas não tiro o mérito do John em ser bom no que faz e fiel ao seu público alvo. É uma leitura bem juvenil, beirando ao infantil.

8 - On the Road, Jack Kerouac - Li esse livro com quatorze anos. Precisei reler aos trinta para muita coisa fazer sentido. Na estrada retrata algo que vai além da literatura. Ultrapassa a barreira da rebeldia e é o melhor manual beat que há. Sobre este livro falaria posts e mais posts, dias e mais dias. Um dos melhores que li na minha vida.

9 - Livro Sobre Nada, Manoel de Barros - Clássico livro do querido poeta Manoel de Barros. Li-o umas quatro vezes este ano. É de poesias curtas e tem poucas páginas. Infelizmente o nobre poeta se foi, mas deixou muito de si nas vielas poéticas da vida.

10 - Vida,  Paulo Leminski - Três curtas biografias reunidas em um só livro. Bashô, Trotski e Jesus. Leminski não fez relatos biográficos, mais do que isso, explicou o sentimento, o que sabia de cada um e sua relação com eles. É uma bio apaixonada e parcial, feita por um escritor forte e sensível. Livro especial.

11 - Olga, Fernando Morais - Já havia visto o filme (que não gostei tanto) e decidi ler o livro. Não queria que minha má impressão fosse vencida. Acertei. O livro Olga é excelente e mostra os meandros da política de resistência brasileira. Gosto de saber o cotidiano e os entraves que grandes líderes travaram consigo e com demais autoridades. Vale muito a leitura.

12 - Amor em tempos do cólera,  Gabriel Garcia Marquez - O melhor do Gabo que li até hoje. Ele conseguiu passar para o papel toda a verdadeira loucura e sanidade insana do amor; que compreende espera, idealizações e respeito. É incrível como o livro termina.

13 - Bagagem,  Adélia Prado - Adélia está entre os meus favoritos. O que me encanta nela é sua simplicidade e, Bagagem, é um livro simples e gigante. Quem lê-lo entenderá.

14 - Da Minha Terra à Terra - biografia do Sebastião Salgado, por Isabelle Francq - Sempre gostei do Sebastião Salgado e de suas fotos. A bio foi bem escrita, mas funciona mais como um roteiro do que uma história de vida propriamente dita. É bem curtinho, o que impede qualquer aprofundamento maior sobre a vida do fotógrafo.

15 - O Ladrão Do Tempo - John Boyne - O dia que ninguém morreu nas "Intermitências da Morte" do Saramago até pode ter sido usado como inspiração. Mas neste livro apenas o personagem principal não morre. Passa a conviver com sua infinitude na expectativa de um dia ela acabar. Entre as incertezas, aprendeu a domar os certos anos sem envelhecimento, o que lhe possibilitou lidar bem com sentimentos, profissões e maturidade. Gostei muito.

16 - O incrível homem que encolheu,  Richard Burton Matheson - É do mesmo autor de "Amor Além da Vida". Um homem com uma rara doença começa a encolher. É uma novela muito bem articulada e emocionante. Conforme vamos encolhendo com o protagonista, vamos mergulhando em seus conflitos familiares, seus complexos de inferioridade e de impotência. E quando tudo parece perdido, um mundo se abre. Há o filme, se não me engano filmado no final da década de 50, mas não o encontro. Inclusive, se alguém o tiver e quiser me passar, aceito de bom grado.

17 - Trem Noturno para Lisboa,  Pascal Mercier, pseudônimo literário do suíço Peter Bieri - De tanto ouvir falar do filme, decidi ler o livro (como quase sempre faço). Não me arrependi. O escritor, além de nos colocar no centro do que ele julga ser Lisboa, nos coloca na cabeça do professor personagem principal da trama fantasticamente. Vale a observação de um professor português ao amigo Juliano Zappia: "É a Lisboa contada por um suíço".

18 - A Invenção das Asas, Sue Monk Kidd- Trata sobre a escravidão sob diversas óticas. Os capítulos se alternam entre a narrativa de Sarah, menina de família rica escravocrata, e Encrenca, escrava que foi dada de presente a Sarah aos 11 anos. Gostei da narrativa e do modo com que a escritora apresentou o livro, com algumas ressalvas. Livro fácil de se ler e muito envolvente. Quando eu for falar sobre escravidão aos meus filhos, com certeza lerei este livro a eles.

19 - 35 noites de paixão, Dalton Trevisan - Uma excelente coletânea de contos. Livro curto que narra de forma muito divertida e oportuna o cotidiano de casais, homens e mulheres.

20 - O silêncio das Montanhas - Kaled Hosseini. Do mesmo autor de "O caçador de Pipas". Não chega a ser um primor, mas o modo com que a história se desenvolve entre as poeiras familiares e seus conflitos é impressionantemente verdadeira.

21 - Walden, ou a vida nos bosques -  Henry Thoreau. Quem me conhece sabe que Thoureau é meu amuleto. É um livro de libertação. A dele e a minha.

22 - Biografia do Stephen King - Coração Assombrado, Lisa Rogak. Livro muito bom. Mal parecer não-ficção. Stephen aparece como um escritor compulsivo e que se vê preso em seus medos e suas fantasias. Sua esposa é peça chave à sua vida. É um livro para ser relido.

23 - A Livraria 24 horas do Mr. Penumbra, Robin Sloan. É um livro legalzinho. Uma livraria 24 horas que tem como público pessoas estranhas e misteriosas. Acho que faltou aprofundar mais no enredo, e não atropelar tanto como o autor fez.

24 - Memórias de minhas putas tristes - Gabriel García Marquez. Uma novela bem contada do Gabo. É bom ler um livro com um carinho especial pelo autor. Não é o melhor dele, em minha opinião, mas é ele. É um livro despido de máscaras e mostra, ou tenta mostrar, um amor puro em meio a um cenário improvável.

25 - Orfandades -  Fábio de Mello. Conheci o padre Fábio de Mello pelo twitter. Começamos a conversar e ele passou a ser uma figura literária terna e inteligente. Nunca havia lido nada dele e ele me sugeriu começar por esse. Achava que ele apenas escrevia livros religiosos (que não gosto tanto). As histórias são unidas por grande sensibilidade, assim como tenho percebido na sutileza e carinho que o Fábio tem com as palavras.

26 - Na Sala Escura - Chico Lopes. Um excelente manual para quem curte bons filmes. O Chico é um escritor por excelência e cuidadoso. Disseca a arte (qualquer uma delas) com um olhar aguçado e curioso.

27 - O Oceano no fim do caminho - Neil Gaiman. A história poderia ser melhor trabalhada. Faltou profundidade nos personagens e no roteiro como um todo.

28 - A casa do céu, Amanda Lindhout e Sara Corbett. O livro é tão bom que me deu ressaca literária. É um livro forte, triste e, infelizmente, verdadeiro. A vida de Amanda merece tempos e tempos de reflexão. Seja a fome, a desigualdade, a profissão. Seja por pura e simplesmente o amor pela estrada. Esse livro mudou minha forma de lidar com pensamentos inquietantes.

29 - Carrie, a estranha, Stephen King. Não é o tipo de tema que me atrai. Mas Stephen sabe me prender. Ainda mais com esse livro. Lendo sua biografia, pude saber como foi escrito e em qual momento. Soou-me mais familiar em forma.

30 - O livro das ignorãças, Manoel de Barros. Se você não tem hábito de ler poesia, comece por esse livro. É como um sopro de paz dentro da gente.

31 - 1Q84, Murakami. Demorei para ler esse romance. Não me conformo. Demorei muito para conhecer o autor. É singelo, direto, simples e muito perspicaz. Um dos enredos do ano. É o primeiro da trilogia.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Crônica de segunda - o último som



Aprendi a tocar violão ainda jovem. Ensinaram-me os acordes, não a música. Foi ruim prensar os dedos contra o aço resistente daquela caixa de madeira. Mas o som  se calejou em minha pele e logo me fez esquecer a dor.

Assim, meu som calejado, mais do que técnica, resguardou-se em uma experiência quase-alma. Não compreendia os ateus que se formavam nas academias de arte. A música era minha religião e meu Deus, com todos os seus pecados e infernos.

O segundo passo da minha seita intimista foi sair de mim. E assim fiz quando compus minha primeira canção; acabara de fazer 78 anos. É, demorou um bocado.

Minha fonte da juventude, quase seca, foi umedecida pelo tempo que esqueceu de acontecer. O acorde me lembrou que ser músico, assim como ser poeta, é fácil quando se é jovem. O desafio é compor após os 70, olhar para o muro gelado da vida e dele extrair notas.

Tudo bem que a velhice dispensa malícia, é o bônus que o caminho nos dá por sermos velhos.

Sei que logo morrerei, mas morrerei imortal; como uma nota de guerra na imprensa; como o impensado término da família real; como eu querendo ser som, querendo ser você.

Minha letra falava sobre amor, e sem ele a música não tinha razão de ser. Condição sem a qual a arte não se movimenta. E se me movo, mesmo que manco pelos ossos doídos, é porque você ainda me faz amar.

Acho que não comporei mais.

Minha música reacendeu o fim.

Tadeu Rodrigues
10-11-2014

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Rubor e rumor - sobre céus alaranjados

A amiga Silvana Quadros ilustrou incrivelmente bem uma poesia minha. Recebi com muito carinho essa homenagem. Ela conseguiu captar bem a essência dos versos de forma sensível e charmosa.

Silvana trabalha com 'Motion graphics'. Pra quem não sabe (eu não sabia) nada mais é do que, segundo ela, o grafismo em movimento, imagens temporizadas em textos, fotos, ilustrações. Quem quiser conhecer mais seu trabalho, só clicar aqui, ou contatá-la através do asilvanaq@gmail.com Vale a pena!

Clique na imagem para ampliá-la.



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O cheiro

Autoria desconhecida

Guardava o pecado 
em seu maior frasco de perfume. 
Uma gota por dia. 
Cheirava a perfeição.

Tadeu Francisco
out/14

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Trova

Pintura de Ruben Belloso

Sedentos por vozes, 
por vezes, 
por trovas.

Tadeu Francisco
set/14

Suspenso

Andrew Salgado

A visão já não me obedece.
Estamos na velha batalha de ser.
Qual é aquela figura disfarçada de pano?
Estamos espadas e antigas armaduras.
Quem é o nobre cavaleiro montado naquele tronco?
Estamos jardins suspensos e paraísos desérticos.

Ora, o ar pode ser finito, mas só se você quiser.


Tadeu Francisco
set/14

Daqui - novo dia

Andrew Salgado

Escrevo daqui,
Entre as miragens,
Como se a letra fosse 
Um mar de nada
E o começo de tudo.


Tadeu Francisco
set/14

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Crônica Eleitoreira - Nobre filho da puta



Interrompemos nossa programação normal. Pode ser só uma visita.

 
Nobre filho da puta, a que devo a honra de sua visita?
Já não temos mais comida, mas a água mineral é farta.
Limpe os pés antes de entrar na sala, pois os donos não gostam que sujem o tapete.
O sofá é de madeira, porém aconchegante. 

(...)
 
Fale mais sobre a mesma coisa de ontem, talvez possamos manter tudo como está, de um modo diferente.
Só não desonre minha saúde e minha educação, são as coisas que me restam.
Vamos, nobre filho da puta. O que exatamente você deseja? Não tenho tanto tempo assim.
É ouvido que você quer? Pra ser sincero não te ouço tanto, falta-me tato.
Precisa de alguém com mais sentido?
 
(...)
 
Pelo menos fique em silêncio enquanto lhe falo sobre a intimidade da minha família.
O Aparecido morreu, mas não sem antes engravidar a Vera.
Os três filhos de Maria foram batizado só agora. Que Deus tenha compaixão.
 
(...)
 
Pode ir agora, nobre filho da puta.
Amanhã lhe espero, quero aproveitar sua presença que insiste em me dizer que é gratuita.

Tadeu Rodrigues
set/14

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Berenice e suas raras visitas - Crônica da vida real

Modigliani

- Cadê a Berenice?
- Não sei. Faz tempo que não a vejo.
- Já olhou na sacada?
- Já.
- Já bateu em seu quarto?
- Não tem ninguém lá. A porta está aberta.
- Olhou embaixo da cama?
- Sim - respondeu com as mãos nas costas.
 

O diálogo se seguiu por uma hora, até que ela chegou.
 

- Berenice, estávamos te procurando...
- Eu sei, vô.
- Você não pode sumir assim.
- Desculpa, vó.
- Que isso não se repita.
- Tudo bem. Vou tomar mais cuidado. Agora preciso mesmo ir.
 

(...)
 

- Cadê Berenice?
- Não sei. Faz tempo que não a vejo.

Tadeu Francisco
Set/14

Das coisas que gosto e pouco sei

Van Gogh

Eu gosto de gente simples.
De entender o pouco, carente do relativo muito.
Da marca suada na testa, do tempo menino que resta.
Sei muito pouco sobre os rostos, mas neles encontro moradas.



Eu gosto dos sabores simples.
De entender o sal, carente do relativo doce.
Da marca suada nas panelas, do tempo do forno que resta.
Sei muito pouco sobre os pratos, mas neles encontro moradas.



Eu gosto das viagens simples.
De entender a distância, carente do relativo curto.
Da marca suada na estrada, do tempo veloz que termina.
Sei muito pouco sobre o asfalto, mas nele encontro moradas.

Tadeu Francisco
Set/14

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

De cor

Diego Gravinese

Sei de cor as suas falhas salteadas...

Tadeu Francisco 
set/14

O poeta é rei

Salvador Dalí





Em terra de poesia, 
quem tem o céu é rei.

Tadeu Francisco
set/14

A brisa e o pássaro

O Enigma - Salvador Dalí



Cada vento 
em sua 
devida asa.

Tadeu Francisco
Set/14

Rastro

pintura Giorgio de Chirico

Para pegar as poucas malas 
e saudar o rastro;
Vejo além dos bancos das praças, 
Vejo cansaço. 

Tadeu Francisco
set/14

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Eduarda e o livro - uma leitura crônica

Pintura de Andrew Atroshenko

Eduarda assinou o livro com gosto, expondo o seu íntimo universo composto por prateleiras.

Ela sabia que se ele lesse aquelas palavras estaria livre; não precisaria explicar. Os livros explicariam por ela, e talvez a explicassem. 

Precisaria ir mais fundo.

Com a capa fechada, partiu calmamente.

Pelas ruas o sereno da madrugada brigava com sua pele quente.

Chegou na casa dele e se abaixou. Ninguém poderia vê-la.

O grande portão branco da frente estava aberto. Ela temeu por algum cachorro, mas não ouviu latidos. Caminhou por duas eternidades pelo caminho de grama que ligava a rua à porta da casa.

O que o livro tinha a dizer senão letras já criadas?

Eduarda pensou em tocar campainha. "Melhor não".

Deixou o livro sobre o tapete e partiu tão sorrateira quanto chegou.

Antes de amanhecer ela já estava na rodoviária voltando para sua cidadezinha natal, desconhecida para ele. Nunca falaram sobre isso.

Não deixou seu nome completo e sequer endereço ou telefone. Apenas seu primeiro nome e o clamor para que lesse.

Jamais saberemos se ele o recebeu, se o leu e o que sentiu.

Eduarda desaprendeu a voltar.

Tadeu Francisco
set/14

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Crônica da despedida - um drama

Autoria desconhecida

Precisei escrever isto antes de partir. Partirei depois de amanhã, ao anoitecer.
 
Talvez leia essas palavras quando já não puder falar mais comigo.
 
Deixo meus documentos, algumas lágrimas e meu pouco dinheiro.
 
Parto sem rosto e sem nome.
 
Quem se importa?
 
Você não acredita em destino? Pois bem, deixe que ele faça o seu papel e diga se devo ou não ir.
 
De toda forma, se está lendo estas palavras, é porque o destino falhou miseravelmente.
 
Não voltarei. Dói-me dizer. A sinceridade que posso deixar contigo é que me consola.
 
Lembra daquela árvore do jardim que eu lhe disse que plantei com nosso avô? Então, é mentira. Foi o avô do vizinho que a plantou. Nosso avô odiava árvores. Sei que você era nova e jamais saberia disso. Ah, ele odiava crianças também.
 
Sabe a guerra que o pai foi defender em nome das crianças famintas? Também é mentira. Ele morreu de cirrose de tanto beber.
 
Não sei se vale a pena continuar... terei que entrar em terrenos áridos da sexualidade da mamãe.
 
A minha ida também poderia estar envolta por fantasias, mas melhor não.
 
Sem mais mentiras.
 
Vou porque sigo cansado. Queria te levar comigo, mas não dá.
 
Talvez eu viva como indigente ou de bicos nada honestos por aí.
 
Cuide de nossa casa, é o que lhe resta. Mande pintar o portão, pois a ferrugem está corajosa. Mande limpar o quintal, o mato traz bichos.
 
Dê de beber aos cachorros.
E cuide das verdades da nossa família.

Tadeu Rodrigues
Set/14

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Crônica da geleia de morango, e outras coisas do bem

Picasso

Teresa, no alto de seus seis anos, desceu as escadas antes das 6h30. Seus pais já estavam tomando café.
 

Sua mãe sorridente lhe serviu biscoito doce. Seu pai fazia caretas enquanto lia o jornal.
 

Teresa passou as pequenas mãos nos olhos e mastigou devagar.
 

O pai demorou para notar sua presença e, quando o fez, beijou-a na testa em um sinal simpático de bom dia.
 

Ele lia, em voz alta, o caderno cultural, que exaltava trabalhos sociais de uma trupe circense por todo o mundo.
 

A pequena Teresa, mesmo sem entender, deduziu que aquilo era algo bom.
 

- Termine seu café para irmos à escola.
 

Teresa limpou os olhos novamente e esqueceu de ser criança. Mas não poderia se esquecer de ir ao inglês, espanhol, aula de dança, natação, sapateado, ginástica olímpica e tênis.
 

Seu pai continuou lendo a notícia em voz alta para a mãe, e Teresa continuou confusa com aquele recital matutino.

- É bom saber que neste exato momento há pessoas fazendo a diferença no mundo.
 

- Que isto nos sirva de exemplo.

Teresa olhou para eles fitando a lógica filantrópica que pairava no ar.
 

- Suba para se arrumar, filha, antes que seu pai fique bravo. Seu uniforme está na gaveta.
 

Ela olhou para o pai que sequer moveu a cabeça.
 

- Hoje eu queria levar geleia de morango para comer no recreio.
 

- Tudo bem - falou a mãe com as mãos em seus cabelos. - Pode pegar no armário.
 

Quando Teresa se levantou, a mãe ainda a abordou, talvez motivada pela notícia do caderno cultural:
 

- Lembre-se sempre de fazer o bem, querida - disse lhe dando alguns tapinhas nas costas.
 

Teresa não entendeu o que fazer o bem tinha a ver com morangos. 

Naquela manhã ela só queria geleia.

Tadeu Rodrigues

Set/14

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Crônica do Eliseu, o normal

Modigliani

Eliseu era mais um na multidão. Como ninguém, sabia ser normal.

Era uma pessoa normal quando acordava, quando ia dormir e quando conversava com os outros.

Era normal quando falava sobre política, sobre música e literatura.

Normal.

Normal quando sorria em seus aniversários - mais de 80 - e quando agradecia aos agrados.

Era normal quando elogiava a comida do seu restaurante preferido e quando deixava cair o talher no chão.

Normal quando perdia a paciência no trânsito e quando se emocionava vendo um filme de amor.

Normal.

Tinha as respostas normais para as perguntas normais.

Era bom ser normal no mundo do Eliseu. 

Eliseu não chateava ninguém e contava piadas normais.

Mas um dia Eliseu morreu.

Foi um velório normal, com lágrimas reais - e normais.

"Aqui jaz Eliseu, 
tão normal quanto eu."


Tadeu Rodrigues 
Ago/14