quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Andar - um conto

Pintura de Kang Kang-Hoon
Se você chegou até aqui, é porque quer saber a minha história. Oportunismo, o meu, começar a frase assim. Que seja.

Sente-se. Não é nada demais, ela é curta e sem emoção. Só não quero que se canse.

Tudo começou quando resolvi me mudar. Arrumei minhas poucas coisas e peguei todo o dinheiro que tinha, pouco mais de cinquenta conto.

Precisei de uma bebida antes da noite entrar. Meu corpo agradeceu. O bar estava sujo e o violeiro esmiuçava uma canção feita pra mim. Não tinha letra. Eu estava ali, e foi bom ser acorde por um segundo. 

O meu segredo entrou pela porta à meia-noite. Ela vestia uma camiseta amarela e um jeans. Se ela era todo o meu segredo, seus olhos me eram perguntas. Veio até mim e se curvou. O álcool percorreu meu sangue rapidamente. Fechei os olhos (posso sentir o seu cheiro até agora). 

O meu segredo deve ter algum nome bonito. Não sei qual. Prefiro imaginá-lo. Seus cabelos longos e o seu jovem rosto etílico, ousavam fazer parte de minha memória. E eles venceram. 

Não se levante ainda, estou terminando.

Eu quis guardá-la, e não dividi-la. De nada adiantou. Ela entrou pelo balcão e abriu a pequena porta que ficava nos fundos. Antes de fechá-la, me olhou. Seus dedos me chamaram e fiquei hipnotizado. Seria comigo? Convencido que sim, dei mais um gole; o último.

A porta era a entrada para um caminho longo, de chão de terra. Jamais imaginei que existiria uma estrada assim atrás daquele porco bar. Não havia sinal do meu segredo, tampouco de qualquer resposta. 

Pintura de Van Gogh
Criei coragem e entrei. Fechei a porta e ela sumiu. Estava solitário em um campo verde e longo, com uma estrada tímida cortando cuidadosamente suas folhas. Olhei para cima e senti sono. A luz do sol não me deixaria dormir. Sim, já era dia. Pelo menos naquele lado.

Distanciei do meu segredo, mas não corri. Fui andando.

No fim da estrada, uma mesa entalhada em um tronco guardava um papel e um lápis. Não havia ninguém, apenas o silêncio e a luz do dia. No canto da mesa natural, uma placa indicava: escreva sua história.

Assim que sentei, fui para outro lugar, dessa vez mais sombrio.

E aqui estou, escrevendo a minha história e esperando que alguém a leia, e me tire daqui.

Tadeu Francisco
ago/13

7 comentários:

  1. Não posso te tirar daqui, mas posso ficar para te fazer companhia.

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  2. Respostas
    1. Dizem que toda poesia tem um pouco do autor, e todo autor tem um pouco da poesia. =D

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  3. Eu posso te tirar daí. Vem comigo? ;)

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  4. Uma das coisas mais profundas que li.

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