segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Um fim de ano

Meu natal tem gosto de ano novo, bem temperado com os devaneios familiares e com a nostalgia de todos os abraços do mundo que nos cabem à ceia.

Um post vago pode bem retratar minhas angústias. Elas voaram entre sonhos e perspectivas diante do que passou.
 

Somos novos de novo. Mais um novo recheado de velho.
 

Não estou falando sobre consciência ou sobre reflexão de fim de ano. Falo sobre o verde de plástico da árvore natalina, que só assim suporta o nosso calor tropical e foge do ártico. Falo sobre o menino do bairro que espera a bondade passageira travestida de bola de futebol; dessas bondades de consciência que nos assolam em épocas festivas.

Durmo sabendo que o novo me despertará, e assim fará amanhã e depois de amanhã, e depois... e depois de ontem, e hoje... (e depois de hoje?)
 

Fui as pessoas que couberam em mim, as que sabem os meus segredos sujos e as que acreditam em minhas qualidades (quais?).

Fui às pessoas e elas vieram a mim. Sutilmente, como essa crase desavisada, que retira a minha transformação e me coloca em uma via  expressa.


No final do ano apenas me permito escrever no passado, beliscando o presente.

Tadeu Francisco
Dez/13

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ana Lúcia

Pintura de Geraldo Lancerdine

Chamo-me Ana Lúcia e aprendi que a vida atravessa a rua sem olhar para os lados, e sequer espera por isso.

Já eu, espero para acordar, espero para viver.
 
Entre tantas, minha saia é a mais desbotada e a mais antiga; perdoe-me se ela lhe causa espirros e tédio.

Minha mãe me chamava de Aninha e, antes de morrer, prometeu-me uma boa vida. Prometeu o que não podia cumprir.

Esperei tanto que a vida me acontecesse, que ela sequer passou, ao contrário do tempo, que, galopante em meus devaneios, me fez rugas.

Sou ainda o que resta da Lúcia sem qualquer Ana.
 
Ainda espero pelo fim dos meus dias, e espero que venha acompanhado de um bonito pôr-do-sol.

Tadeu Francisco
Dez/13

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Etilicamente poético

Pintura de Van Gogh


Duas prateleiras 
disputam a posse do Bukowski, 
Um bar entre elas 
Põe tudo a perder.

Tadeu Francisco
nov/13

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

As cores do mundo

Arte de Jerry LoFaro


O que acha que eu espero enquanto conto o número de cores que há no mundo?

Se prefere o cinza apático em tempos históricos, onde a história colonizava com armas de fogo quem lutava munido apenas com pedras, o que posso fazer?

Ainda prefiro contar as cores do mundo, onde me encontro na cor do asfalto, do verde escasso e da pele do casal entrelaçado.

Sobre as tonalidades, confundo-as com as da música, tons sobre tons, cores sobre sons.

A nossa cor é distante e pode ser vista do espaço, em um azul-céu.

Estamos fadados ao começo, naquele papel branco esperando a obra-prima.

Tadeu Francisco

nov/13


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Balanço literário 2013

Vamos ao balanço literário dos livros que li neste ano de 2013.

Muitas pessoas pediram que eu desse nota aos livros. Não acho isso legal, nem proveitoso. O que é bom pra mim pode não ser pro outro. Livro é como vinho, o bom é o que você gosta. Além do que, quantificar arte, gerar uma competição, pra mim, é desnecessário (em mea-culpa, já faço isso de dar notas no Skoob). Arte é sentimento e sentimento é algo íntimo; de cada um.

Aviso também que não comento sobre a história da obra, logo, não dou spoiler.

Bom, vamos lá (os livros não estão na sequência de leitura):

1 - Rimbaud na África - Os Últimos Anos de um Poeta no Exílio, de Charles Nicholl (li no final de 2012): Uma biografia dos anos do poeta na África. Livro muito bom, sensível e detalhista - mesmo que presunçoso em acertar os detalhes, como o próprio autor diz. Sugiro, caso não tenha lido nada de Rimbaud, não começar a entendê-lo por essa obra.

2 - O Caso Laura, de André Vianco: Um policial com um enredo bem romanceado. Gosto muito de leitura policial clássica, e o estilo de escrita do Vianco não é o tipo que me atrai. O que não retira seus créditos, pois, hoje, é um dos escritores mais vendidos sobre o tema.

3 - A Montanha e o Rio,  de Da Chen: Livro sensível e envolvente. Mistura história real chinesa e ficção. Uma disputa de famílias envolta em poder e dinheiro. Às vezes me sugere algo parecido com o estilo do Ken Follett. É um livro muito bom.

4 - O Cliente, de John Grisham: Quem acompanha o blog sabe o quanto gosto do John. É um escritor que me surpreende a cada livro, mas o hábito de lê-lo, me fez ficar exigente com as suas obras, talvez, por isso, tenha esperado mais dele neste livro. O início do livro, também, me fez esperar mais, porque é excelente!

5 - Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão: Terminei esse livro e pensei: como um cara desse não é o maior best seller do Brasil? É um livro intenso e com uma história incrível. Não posso falar muito sem estragar a história.

6 - O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: Oscar escreve como se vivesse em 2013. É impressionante como seu linguajar é desenvolto e de fácil compreensão (talvez pela tradução boa que tive acesso). Trata de temas pesados através de diálogos bem construídos entre seus personagens. É um clássico que deve ser lido, e eu só o fiz este ano. Assim como fiz com Dom Quixote, do Cervantes, em 2012.

7 - Mulheres, de Charles Bukowski: Bukowski sendo Bukowski. Ácido e com uma sujeira precisa entre cenários e personagens, como tudo dele. Gosto do modo displicente que as frases são apresentadas, bem como a estrutura. Muito bom livro e, pessoalmente, gostei mais deste do que Factótum, que também gostei demais.

8 - O último Jurado, de John Grisham: Segundo livro do John que li esse ano. Tenho sido muito crítico com relação a ele. Acho que vou dar um tempo dos seus livros, pois o li muito, para ver se desintoxico um pouco.

9 - O Diário de Anne Frank, de Anne Frank - org. de Otto Von Frank: Outro clássico que ainda não havia lido. Li com um nó na garganta do início ao fim. A sensibilidade da garota sobre as coisas profundas da vida, e também as banais (as implicações que tem com a mãe), sem saber de seu final trágico, me fez sentir mal. Foi um livro dolorido de se ler.

10 - Dom Casmurro, de Machado de Assis - Versão HQ: Comprei esse livro na FLIPoços. É uma edição para colecionadores e o seu acabamento é perfeito. Um livro que vou guardar com carinho. Ver a história de Machado em quadrinhos foi uma experiência divertida. Lerei para os meus filhos sem as devidas censuras.

11 - Primeiras Palavras, poesias - Rafael Brandão: Conheci o Rafael na FLIPoços e ele faz parte dos meus conhecimentos literários desse ano. Seu livro, apesar de breve, é profundo e ele brinca com as palavras, deixando-as divertidas e reflexivas. Vale cada segundo da leitura.

12 - Apologia do Inesperado, poesias - Lucas Israel Rocha. Dividi espaço com o Lucas também na FLIPoços, quando nos conhecemos. O livro  me foi a surpresa poética do ano. Poeta maduro e que não deixa para trás nenhum grande nome. Li o livro dele em uma sentada, com uma garrafa de café ao lado. Se não bastasse, compartilhamos a mesma posição política, o que nos dá margens para sempre estarmos ligados de alguma forma.

13 - Os Pilares da Terra, de Ken Follett: Excelente livro. Ken nos prende do início ao fim em suas obras. Mas, confesso, que ainda fico com o enredo da Trilogia o Século, que aguardo ansioso o lançamento da última obra, que será em 2014.

John Green - Conheci os livros do John Green após muita insistência de alguns amigos leitores. John escreve bem e não se preocupa muito com a estética gramatical, sem deixar de ser compreendido, o que admiro. É um best-seller. Confesso que gostei de alguns e outros não tanto. Ele sabe prender e a história sempre tem o enredo bom. Como comecei lendo um que curti, prossegui a leitura. Li cada livro (não na sequencia) em dois, três dias. Os que li e não gostei, foi pela temática infantilizada, às vezes exagerada. Assim, concluo que os livros do John, ao que ele se propõe, são bons, emotivos e ajuda uma turma nova na literatura a se interessar pelo gênero. Mérito dele.

Vamos aos livros de sua autoria (do 14 ao 17):

14 - A Culpa é Das Estrelas - O melhor do John na minha opinião, que está sendo adaptado ao cinema. Usando de muito clichê sem transformar isso em algo ruim, conseguiu me fazer sentir a história e viver a angústia dos personagens (que não foram poucas).

15 - Quem é você, Alasca? - Livro bom e triste. Li sem muita pretensão e gostei.

16 - O teorema Katherine - O mais fraco do John, na minha opinião. Livro de férias.

17 - Will & Will - Um livro sútil, que usou de um tema polêmico para dar normalidade à trama.  É escrito em co-autoria com David Levithan.

18 - 1808 - Laurentino Gomes - o professor de história que eu queria ter para sempre. É o primeiro da trilogia, que conta de maneira divertida e envolvente a história política do nosso país. Lerei os outros, com certeza.

19 - O Clube do Filme - David Gilmour - Tirar um filho da escola e educá-lo apenas com filmes. Essa foi a ideia do David quando decidiu escrever esse livro. Vou colar aqui a análise que fiz ao Skoob na época em que o li: "A proposta do livro é boa. O enredo tinha tudo para ser bom. Mas achei um livro fraco. Parece uma relação de pessoas mimadas em relação à vida. Não vi profundidade e nada de emocionante. De qualquer forma, dá pra aprender superficialmente sobre filmes ou pelo menos despertar a curiosidade a respeito de alguns deles."

20 - A Pianista - Machado de Assis - Genial, como quase tudo que li do Machado. Li em uma tarde. O livro é curto e direto, com um romance desvirtuado, mas sincero.

21 - A Sangue-frio - Trumam Capote: Sem palavras. O primeiro livro do Capote que li. Na sequência assisti o filme e um documentário a respeito. Uma trama real que nos deixa emocionalmente envolvido com os personagens. Capote conta a história de um assassinato e, para isso, conta a história de dois homicidas. Faz um vasto trabalho de campo. Um romance jornalístico. Boatos dizem que ele se envolveu amorosamente com um dos dois assassinos. Como ouvi esse boato antes de ler, tive mesmo a impressão fraterna entre eles.

22 - O Grande Gatsby, do F. Scott Fitzgerald: Romance forte e crítico. A quantidade de informação nas cenas é abafada pela trama. Excelente livro que leria novamente. O filme é fraco, achei.

23 - O homem que matou Getúlio Vargas: Biografia de um caça-ditador. Divertido como o Xangô, ou seja, um dos melhores do Jô Soares. Bem melhor que as Esganadas e o Assassinato na ABL.

24 - Asfalto - Sérgio Bernardo. O Sérgio é um poeta completo da maior grandeza. O conheci no twitter e logo notei a sua sensibilidade. Trocamos livros e passamos a nos falar com certa frequência. Ele sempre me ensina, sem querer, a humildade e a sensibilidade da poesia. Lendo seu livro não consegui identificar nenhuma influência direta, o que lhe dá singularidade. Vale muito a leitura. Li e, em um mês, o reli.

25 - Pra Ser Sincero - Humberto Gessinger. Autobiografia do vocalista e fundador da banda Engenheiros do Hawaii. Li esse livro por acaso, e agradeço por ter desbravado a história desse que, para mim, é um dos grandes nomes da música brasileira. Quem me segue por aqui, sabe que curto biografias e essa me fez um preso-leitor com maestria.

26 - Cartas da Prisão - Frei Betto. Ele é pra mim um dos maiores pensadores vivos. Gosto do modo com que aborda temas polêmicos e enfrenta alguns assuntos tão árduos à igreja. Lendo Cartas, pude notar um pouco da origem dos seus pensamentos e ideologia.

27 - Simone de Beauvoir - Por Claude Francis e Fernande Gontier. A primeira coisa que li da Simone, e, com certeza, a primeira de muitas. Inteligente e humana, é assim que resumo Simone de Beauvoir após lê-la. Uma leitura inquieta que me fez querer mais causas à minha vida.

28 - Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Marquez: Gabo me prendeu e não foi pouco. Mergulhei na vida dos personagens e nos cenários em realismo fantástico. Ele transforma uma simples morte em um vendaval de flores, um simples vidente, em um palhaço cantor. Fecho a lista dos livros lidos agradecendo a vida por ter podido ler este livro.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A ampulheta em dó

Pintura de Salvador Dalí

Vou lhe tocar com a força de uma cantiga. 
Dar-lhe refrões eternos  e ternos
Até sua dança me invadir
passo a passo...
nota a nota...
tom a tom...
em meus ouvidos;
Fazer-me versos sinceros,
por isso não perfeitos.

Tadeu Francisco
nov/13


Demasia

Pintura de Rick Farrell

A saudade
é um 
exagero.

Tadeu Francisco
nov/13

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

"A Grande Peça" Esgotado!



Pessoal, é com lamento e alegria que comunico que a modesta 1ª edição do meu romance  A Grande Peça está esgotada.

Quero agradecer a todos que leram, indicaram, deram-me força e apoio.

O caminho literário é árduo, mas devagar se chega em cada sonho e em cada lar.

É com enorme prazer que guardo cada depoimento, cada abraço e cada testemunho de leitura. 

A escrita dói ao escritor, porque ele escreve não somente sobre as suas dores, mas também sobre as dores dos outros.

Espero que em breve eu possa trazer notícias boas sobre a 2ª edição.

Maiores informações serão dadas no site do livro, aqui no blog e na fanpage!

Tadeu Francisco
Out/13

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Obras - Adriano Bueno

Conheci o Adriano há muitos anos, em tempos áureos de uma banda que tínhamos em Monte Sião.

As coisas boas da vida ficam na memória.

Recentemente tivemos em Monte Sião e dividimos um espaço, ele com seus quadros, eu com meu livro.

Sou suspeito para falar, mas a arte dele é sensível e intensa; como um artista por excelência.

Adriano sempre se mostrou talentoso para a música e para o desenho.

Depois que optou por estudar arte e fazer dela a sua profissão, não parou mais.

Hoje pode nos brindar com maestria o seu talento. Vamos às obras:

* clique na imagem para ampliar














Tadeu Francisco
Out/13

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Torre de Papel

Pintura de Henrik Aarrestad Uldalen





Um poema em cada língua, 
e todos se entendem.

Tadeu Francisco
out/13

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Crônica quase real - o diário de casa III

Os transeuntes


Pintura de Lisa Fittipaldi

A vida me parece como uma confusa e harmônica trilha sonora.

Trancar-me em um fone de ouvido enquanto ouço algo que me faz viajar entre o céu e o inferno; entre o certo e o errado; entre o beijo e o queijo (só para rimar, como um tradicional mineiro), torna-me, em sensações, mais importante quando o faço olhando as pessoas pelas ruas. 

Experimente. Imagine as pessoas vivendo em um videoclipe enquanto você passeia a esmo pelas calçadas com um fone de ouvido, o melhor filme se roteirizará.

Somos uma fraude, um engano... uma vida.

E se assim penso, qual é o tamanho da fraude que caiu estranhamente na calçada enquanto passeava com seu cachorro? E a mulher que derramou sorvete na cabeça do nenê que carregava em seu colo? E o "eu te amo" dito por um bêbado ajoelhado pedindo perdão à esposa? E os etecéteras?

Fraude por fraude, fico com a que crio; com a que me tira do chão.

Tadeu Francisco
out/13

Reflexo - os olhos

pintura de Andrei Markin



Os olhos
Uns dos outros
Deveriam se olhar
As pessoas.

(Leia na ordem que quiser).


Tadeu Francisco 
out/13

Dia do Nosso Senhor

Pintura de José Ferraz de Almeida Júnior




Tropeço todo dia;
Todo dia trôpego;
Que é o dia do Nosso Senhor;
Da nossa dor;
Do nosso torpor.
 
Tadeu Francisco
out/13

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Crônica quase real - o diário de casa II

O Leitor

Pintura de José Ferraz de Almeida Júnior

Minha história como leitor.

Nunca chegarei a conclusão nenhuma enquanto estiver lendo algum livro. 

Explico: o livro, para mim, é um grande embaralhar de ideias. Consigo dar risada de uma crise política se estiver lendo uma comédia; e chorar assistindo propaganda de bancos se estiver lendo um romance.

Nada me atrapalha. Só gosto de uma boa história; e de voar em pensamentos.

Leio em lugares não tão comuns, como padarias, filas, açougues, carros, restaurantes etc. Algumas pessoas me veem lendo nesses lugares e discursam:

- Ah, eu também adoro ler. É bom, né?

Eu sempre concordo, com um sorriso, antes de parar minha leitura e perder o fio da meada da história. As pessoas têm a louca mania de achar que quem está lendo não está ocupado, chegam e falam. Mas não me importo, na verdade. 

Não vejo pessoas lendo na mesma proporção que ouço frases adoradoras da leitura.

Certa vez lia em uma fila de banco, quando chegou um conhecido.

- Tadeu! Lendo um livrinho aí, né?! Sabia que o sonho da minha vida é ler livros?

Acho que na hora não entendi ao certo e minha cara de paisagem ante àquela confissão pode ter soado arrogante. 

Tudo bem que houve um exagero em sua frase e uma inversão racional da intenção entre a hipérbole - talvez sincera - e o sonho. 

Decerto ele queria gostar de ler. 

(Decerto as pessoas gostariam de gostar de ler.)

Agora, se isso é deveras o sonho da vida dele, a humanidade está indo bem.

Sobre isso, não chegarei a nenhuma conclusão, pois, no momento, estou lendo algo sem importância, acho que um livro sobre finanças.

Tadeu Francisco
out/13

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Uma foto

Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

* Clique na imagem para ampliar.





Tadeu Francisco
out/13

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Crônica quase real - o diário de casa I



Âncora


Hoje pela manhã assistia ao telejornal quando a sorridente moça, jornalista âncora, anunciou a matéria:


- Uma jogada publicitária impressionante, falsos submarinos emergem da terra em meio ao centro de uma rua movimentada da cidade. Curiosos ficaram espantados e admirados com o ocorrido, até que foi anunciado pela empresa, uma seguradora, que tudo não passou de uma grande brincadeira. As ruas foram limpas e nenhum dano foi causado à cidade.

Após a curiosa reportagem, a câmera cortou para o outro âncora, que, sério, anunciou uma matéria política: 

- O senador Fulano surpreendeu a todos no congresso, votando contra o seu próprio partido, o que gerou uma crise interna. 

Como piadinha, o âncora arrematou: 

- Esse submarino também está emergindo.

Aí a bela âncora, levemente desinformada, entrando no jogo humorístico, arrematou: 

- Só que no caso dele, o submarino está afundando.

Evidente que ela não se tocou que o fato de um submarino afundar é algo bom, o que contrariava a má notícia política.

O âncora até tentou consertar o vacilo da colega:

- Digo emergir porque o submarino perde seu ponto de equilíbrio, mas agora vamos falar sobre futebol.

Tadeu Francisco
out/13

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Uma foto

Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre e Che Guevara.

* Clique na imagem para ampliar



Tadeu Francisco
set/13

Ignácio de Loyola Brandão e Abujamra.

O grande Ignácio de Loyola Brandão e o "provocativo" Abujamra.

Só a aprender.




Tadeu Francisco
set/13

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Vou

Pintura de Ruben Belloso




Nunca sei o que fazer, 
Então continuo.

Tadeu Francisco
ago/13

A noite passada

Pintura de Ruben Belloso
Essa noite quis escrever algo especial.
Pensei em como seria se fosse a minha última madrugada.
O que eu gostaria que lessem sobre mim?
Queria algo longe de uma frase comum a ser estampada em minha lápide. Não teve jeito, cheguei a um clichê.
Não algo como "carpe diem", ou como "viva o hoje como se fosse o último dia de sua vida".
Cheguei ao clichê máximo da vida, à excelência dos clichês:
A de que não seria aquela a minha última noite, e nem aqueles meus últimos versos. É assim com todos os dias que precedem a morte.
Já com sono, tentei duas rimas.
A primeira rimou as minhas pontes.
A outra, os  meus amores.
Em um segundo o sono acometeu-me e deixou-me menos poeta.
Não que o ser humano por si só não seja poeta, porque acho que o é. Qualquer um. Basta ter pensado em sua própria vida por um segundo.
O sono deixou-me menos poeta consciente.
Amanheci.
E hoje, neste dia, quero escrever algo especial.

Tadeu Francisco
ago/13

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Andar - um conto

Pintura de Kang Kang-Hoon
Se você chegou até aqui, é porque quer saber a minha história. Oportunismo, o meu, começar a frase assim. Que seja.

Sente-se. Não é nada demais, ela é curta e sem emoção. Só não quero que se canse.

Tudo começou quando resolvi me mudar. Arrumei minhas poucas coisas e peguei todo o dinheiro que tinha, pouco mais de cinquenta conto.

Precisei de uma bebida antes da noite entrar. Meu corpo agradeceu. O bar estava sujo e o violeiro esmiuçava uma canção feita pra mim. Não tinha letra. Eu estava ali, e foi bom ser acorde por um segundo. 

O meu segredo entrou pela porta à meia-noite. Ela vestia uma camiseta amarela e um jeans. Se ela era todo o meu segredo, seus olhos me eram perguntas. Veio até mim e se curvou. O álcool percorreu meu sangue rapidamente. Fechei os olhos (posso sentir o seu cheiro até agora). 

O meu segredo deve ter algum nome bonito. Não sei qual. Prefiro imaginá-lo. Seus cabelos longos e o seu jovem rosto etílico, ousavam fazer parte de minha memória. E eles venceram. 

Não se levante ainda, estou terminando.

Eu quis guardá-la, e não dividi-la. De nada adiantou. Ela entrou pelo balcão e abriu a pequena porta que ficava nos fundos. Antes de fechá-la, me olhou. Seus dedos me chamaram e fiquei hipnotizado. Seria comigo? Convencido que sim, dei mais um gole; o último.

A porta era a entrada para um caminho longo, de chão de terra. Jamais imaginei que existiria uma estrada assim atrás daquele porco bar. Não havia sinal do meu segredo, tampouco de qualquer resposta. 

Pintura de Van Gogh
Criei coragem e entrei. Fechei a porta e ela sumiu. Estava solitário em um campo verde e longo, com uma estrada tímida cortando cuidadosamente suas folhas. Olhei para cima e senti sono. A luz do sol não me deixaria dormir. Sim, já era dia. Pelo menos naquele lado.

Distanciei do meu segredo, mas não corri. Fui andando.

No fim da estrada, uma mesa entalhada em um tronco guardava um papel e um lápis. Não havia ninguém, apenas o silêncio e a luz do dia. No canto da mesa natural, uma placa indicava: escreva sua história.

Assim que sentei, fui para outro lugar, dessa vez mais sombrio.

E aqui estou, escrevendo a minha história e esperando que alguém a leia, e me tire daqui.

Tadeu Francisco
ago/13

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Utopia e ficção

Trabalho em progresso de  Yigal Ozeri




Heterônimo,
do meu subconsciente,
O nome.

Tadeu Francisco
ago/13

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Inspiração - os muros da vida

Pintura de Yigal Ozeri



Sei que algo vai mudar
Quando vejo amor
Em todo lugar.

Tadeu Francisco
Ago/13

Procura-se a razão

Pintura de Henrik Aarrestad Uldalen

Permita-me invadir sua calmaria,
ainda que manso,
Perturbar sua alegria.
Solte-me em diálogos, 
pois assim sei me prender.
Tens a chave da razão
Que me afasta de você.

Tadeu Francisco
ago/13



Febre

Pintura de Henrik Aarrestad Uldalen



Não há luz.
Há o meu escuro
No seu.


Tadeu Francisco
abr/13

Sinceridade

PIntura de Henrik Aarrestad Uldalen


Meu nome se confunde com as folhas que caem no quintal de sua casa.
Confunde-se com o cheiro de sua sala e do seu cabelo molhado.
São sílabas trocadas, quase um sussurro (ou um gemido)
[ciladas],
Que repousam sobre nossos lábios e precedem o toque dos gostos.
Meu nome se confunde com o seu.

Tadeu Francisco
ago/13

Há de chegar

Pintura de Gottfried Helnwein

Vai chegar o tempo 
Em que sua palavra 
Será meu acalento.

Tadeu Francisco
mai/13

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Mais da metade

Pintura de Gottfried Helnwein

A gosto de Deus
Do seu, do meu.
Ao sabor do vento,
Da brisa rasteira,
Da chuva certeira.
(...)
Nossa tempestade pecadora
Ao desgosto de Deus.

Tadeu Francisco
ago/13

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A guerra

Andrew Wyeth



Levo em meu cantil
suas lágrimas.

Tadeu Francisco
jul/13

A janela em retalhos

andrew wyeth



Foto e imagem. 
História e fato. 
Suspiro e fôlego. 
Olhar e olhos.
Somos todos.
Fomos.

Tadeu Francisco
jul/13

Cortinas


Les Demoiselles d'Avignon - Picasso


Tiro sua roupa 
como se fosse a última peça, 
O último ato.

Tadeu Francisco
jul/13

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Um dedo de prosa

Sempre quero começar uma conversa com um olhar.
Quando não é possível, arrisco um sorriso.
(...)
Enfim, temos um dedo de prosa;
mas não falo sobre mim, ou sobre coisas que faço.
(...)
Falo sobre o que sinto, que não reflete minha carne.
Falo sobre o plano de não se ter limites.
(...)
Precisamos dormir,
talvez após um olhar.

Tadeu Francisco
jul/13

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Sinceramente

Não sinto as palavras como queridas lembranças.
 
Sinto-as como sintomas; como feridas.
 
Se me machucam por vezes, devo lhe esclarecer que é porque sei mais do que deveria saber.
 
Se me são filhas bastardas, oro a Deus pelo descaso, pela indiferença paralela à minha dor.
 
Queria parar aqui e lapidar os meus rascunhos, mas não posso.
 
Sou uma frase inacabada, presunçosamente imperfeita.
 
Deixarei a maresia da vida como lembrança, talvez uma singela moldura pendurada na parede.
 
Dar-lhe-ei um pouco de tinta e o resto do grafite.
 
Assim, vejo-lhe em meus muros, com pregos lhe cortando; mais cortes do que o necessário; jorrando um sangue mais claro.
 
Não lhe entregarei um texto sem desfecho. Serei seu ponto final e sua amargura.
 
Seria este um final feliz? Acredito que não.

Cobrir-me-ei com a realidade e irei para o leito da vida aguardar a correnteza.
 
E quando ela chegar, sinceramente, fugirei com força; nadarei contra, para um dia, quem sabe, ser alguém de verdade.

Tadeu Francisco
jun/13

terça-feira, 28 de maio de 2013

Aqui

Pintura de Cândido Portinari


Ela me deu seu diário. 
A capa estava velha, gasta.
Assim como as letras.
Só assim ela soube dizer o quanto me amava. 
Hoje eu a leio. 
Longe.

Tadeu Francisco
maio/13