quinta-feira, 29 de março de 2012

quarta-feira, 28 de março de 2012

Crônica VII - #DesarquivandoBR


Em memórias - diálogo 



Minhas mãos nuas amarradas, suadas em sangue. O estampido chegava aos meus ouvidos entre choro e riso. Não consigo lhe descrever com exatidão todos os estalos, ora do coturno marchador, ora do meu peito com seu coração surrado.

Não vi ao certo quem caminhava de um lado para o outro à minha frente, "maldita venda". Mas pelo andar, sabia quem era, e lembro-me do seu rosto perfeitamente, cada pedaço de pele...

Eu estava trancado ali há alguns dias. Sentia sede e fome. Meus lamentos eram preenchidos com pancadas. Exalei meu desespero com muitos soluços, que me tornaram digno de pena... "Soluços são engraçados quando aos montes; o meu não era".

Perdoe-me se estou sendo reticente. É a parte romanceada do que foi minha vida. Preciso contar o resto:

Naquele início de semana, não deveria ter falado tanto. Não sei o motivo do tamanho erro que me custou a vida. E pelo jeito, errei feio. Éramos bandeiras e brados, reuniões e ideais. Outrora preso em mim, senti-me liberto ao não concordar com aquela maré demagoga do pseudo discurso contratual entre a moral e o bem comum. "Libertei-me ao não concordar, e não vou me importar com as dores de agora".

"A verdade triunfará", como minha falecida mãe ensinou. Acreditava nisso.

E após dias de abandono completo, ainda amarrado, meus ouvidos voltaram a ouvir algo depois daquele silêncio gritante de tensão e medo. Senti uma luz entrando pela fresta da minha venda; e não era nenhum salvador.  Percebi depois que eram várias pessoas, e não apenas uma. Cuspiam ordens e trejeitos de respeito. Meu pulso doía muito. Senti o sangue escorrer e lambuzar a parte de trás do meu corpo. Eles queriam nomes e eu os tinha. "Não disse uma palavra, jamais diria". Não proponho complô às custas de uma mísera pensão e um nome de guerra. Não queria nome de generais em praças públicas, misturando tais às brincadeiras infantis. Queria minha voz e meu jogo de cintura, queria minha bola e minha cachaça branca, queria meu gingado e meu jeito de fazer política, queria tolerância... "Eu só queria um colo, mesmo me sentindo mais fraco por isso".

A hora havia chegado. Soltaram meus pulsos. Fomos a uma sala ainda menor. Falaram que eu seria julgado. Porém não houve defesa e sequer um banco duro. Fiquei de pé. Senti uma pancada forte na nuca, caí sem sentido. A venda se soltou e vi uma pessoa escondida na pequena janela na parte de cima da sala, ela tinha uma câmera e registrava tudo. Os generais não desconfiaram e continuaram com as pancadas. Senti alguns ossos se quebrando e já não diferenciava realidade de delírio.

Naquela saleta, dando um ar de tribunal, os milicos aprenderam bem a coisa toda. A lei superava qualquer outro direito humano, pois a recitavam antes de cada pancada como se fosse um musical.

Desfalecido, caí no chão gelado. Não demorou muito para o meu falecimento. Alguns minutos.

Não contem com a riqueza de detalhes o que se passa a partir daqui, pois não sou mais vida, apenas memórias ao vento. Alguns dizem que ainda não morri, por isso consigo lembrar tudo. Outros dizem que somente irei morrer de fato quando todos se forem. "Mas quando? Que todos?"

A minha esperança estava naquela máquina utilizada pela pessoa que a tudo registrou. Não sei quem era aquele bom corpo, mas sei que o prenderam dias depois. Estava morto e, provavelmente, em memórias, assim como eu.

Felizmente a câmera foi parar em boas mãos, em algum porão secreto que os meus ainda preservaram. Confiaram em um dos nossos para uma boa revelação das fotos. "Susto e surpresa..." As fotos registraram meu corpo morto e alguns militares fardados e eretos. Porém, nas imagens, os milicos não tinham rostos, somente os quepes, que flutuavam sobre seus pescoços. Não foi possível identificar ninguém. Atribuíram o feito a um feitiço. Mas bem sei que não é feitiço algum. Sei quem é cada pessoa que ali estava. Pena que sou só memória esgotada.

O que nosso Supremo visionário sabe de lei, eu sei de dor; e me custou muito sangue e uma barrada ideologia. Sei da importância de cada palavra que proferi àqueles infelizes. Era meu jeito de tentar vencer.

Passei a ser apenas papel. E, olhando aos céus, até onde meus cabelos ateus permitiram, soprei aos ventos e à minha nova religião delirante:

 -  Senhor Julgador, não os perdoe, eles sabem o que fazem!

Tadeu Francisco
Mar/12


Este texto faz parte da 5ª Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR

Mais informações:



Nublado

Obra de Pablo Picasso

- Dia sonolento, 
Seja meu bocejo 
e minha dose de certeza.

Tadeu Francisco
mar/12

Maiêutica

Pintura de Andrew Vicari

Nascer
Do
Só.

Tadeu Francisco
mar/12

terça-feira, 27 de março de 2012

Minha fonte

Pintura de Jacek Yerka

Aspiro-lhe. 
Haja ar, querida!

Tadeu Francisco
mar/12

Lu (a) cidez

Pintura de Jacek Yerka

O poeta dormiu cedo, 
recolheu as árvores,
Duas bocas, um olhar,
E nunca mais acordou.

Tadeu Francisco
mar/12

Atraso

"Carlos Drummond" - Obra de Dirceu Veiga

Meu café
Não rima.

Tadeu Francisco
mar/12

Noite Salgada

A Fuga para o Egito (1609) de Adam Elsheimer

Noite, o que lhe consome?
Um próximo, um sobre, um nome.

Tadeu Francisco
mar/12

segunda-feira, 26 de março de 2012

Sintoma e percepção

Obra de Nina Pandolfo

No canto do olho
Ouvi suas lágrimas.

Tadeu Francisco
mar/12

Placebo

Mais uma "pintura viva" de Alexa Meade


A poesia não cura nada.
Quando descobri, era tarde.
Morri de febre... ardendo.

Tadeu Francisco
mar/12

Lar salgado

Pintura de Alberto Sughi

Um quarto do tempo
montado em desordem;
Um quarto da casa.

Tadeu Francisco
mar/12

quinta-feira, 22 de março de 2012

Submissão

Pintura de Antônio Gonzalez

Há mando
Em todo lugar.

Tadeu Francisco
mar/12

Sua volta

Pintura de Bryan Larsen

Você veio de lá.
Não a reconheci,
estava mais magra e pálida...
E lá fez sol o ano inteiro.

Tadeu Francisco
mar/12

quarta-feira, 21 de março de 2012

A mentira e a batina

Christiano Cruz - Senhoras à mesa do café, 1919.

Dez contos
e um vigário barato.

Tadeu Francisco
mar/12

Ribalta

O Bosque - Pintura de João Bastos

Um pouco rústico para os padrões.
Chorava no início da peça e morria no fim...
todas as vezes.

Tadeu Francisco
mar/12

Sufoco - sobre veneno

Pintura de Diego Gravinese

Respirei seu ar cênico.

Tadeu Francisco
mar/12

terça-feira, 20 de março de 2012

O jazz vencido pela chuva

Dizzy Gillespie

Trompetes, lágrimas; 
E dois baixos.

Tadeu Francisco
mar/12

Sais II

Obra de Pedro Alexandrino

Escorri à sua boca
uma gota de lamento,
um salgado a mais na pele,
um refúgio desatento.

Tadeu Francisco
mar/12

segunda-feira, 19 de março de 2012

Aviso

Pessoal,

Desde ontem  não estou conseguindo postar as pinturas no blog, mas já estou resolvendo.
Espero que amanhã volte ao normal.
Enquanto isso, continuo atualizando sem as imagens.

Valeu,

Tadeu Francisco

Passado e tormenta


Hoje em dia
Um sorriso
bastaria.

Tadeu Francisco
mar/12

Norte e sul - sobre distância



Alameda do tempo.
Uma, duas, três fugas.
Um mero andante,
Cantante chorante.

Tadeu Francisco
mar/12

Acadêmico



A academia 
O deixou forte,
Letrado.

Tadeu Francisco
mar/12

Vários

Sou tantos,
e poucos me completam.

Tadeu Francisco
mar/12

sexta-feira, 16 de março de 2012

Cama e companhia


Não sei se é febre ou encanto
Realeza ou morbidez.
Fresco leite ou destreza
curta estrada ou palidez.
Sei do nosso canto,
ar de antigo porão;
Sei das noites sinceras,
lenta vastidão.

Tadeu Francisco
mar/12

quinta-feira, 15 de março de 2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

Quando falei à loucura

Pintura de Madre Isabel Guerra

In-sanidade,
lá de dentro.

Tadeu Francisco
mar/12

Árduo tempo

pinturas hiper-realistas de fotografias de dupla exposição de Pakayla Biehn

Dez serviços. 
E o dia foi cheio.

Tadeu Francisco
mar/12

Hora H, não há

Pintura de Ana Rosmaninho

Há nos anos, 
horas.
Há gás.

Tadeu Francisco
mar/12

terça-feira, 13 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

Entre sede e força

Pintura Kevin Peterson


dente
Com 
sentido.

Tadeu Francisco
mar/12

Cem noites

Obra de Picasso

Cem sonos
Qual quer?

Tadeu Franciso
mar/12

Chegando

Obra de Raimundo Cela

Quando 
o fôlego
é pouco
O bom senso 
silencia-nos
aos berros.

Tadeu Francisco
mar/12

Meu papel

Rodolfo Mesquita

Deixe-me
sobre suas dores;
E com o sabor amargo
de escrevê-las
sobre seus amores.

Tadeu Francisco
mar/12

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pequeno

Obra clássica de E. Munch

Um pedaço de papo,
pequeno engasgo,
embargo.
A voz orada no salão,
voraz.
Menos vida
Menos paz.

Tadeu Francisco
mar/12

*Já usei essa obra do Munch aqui no blog, mas somente ela serviria para esse lamento.

terça-feira, 6 de março de 2012

O lado escuro

Obra de Salvador Dali

Resto de giz,
Pó.


O que me foi história
percorrido em suas mãos.


Morri marcado
em um quadro negro.


Tadeu Francisco
mar/12

Feições da fome

Família - Tarsila do Amaral

Eram muitas
as bocas.
Tantos pés para correr,
tantas barrigas para se fazer cócegas.
Não conseguia dar a atenção merecida
Sequer sentar no quintal.
A água nunca fervia.
A tristeza imperava.
Éramos fome,
E eu queria ser fonte.

Tadeu Francisco
mar/12

Música composta

Obra - Música barroca

Sem o seu som
Sou menos canção.

Tadeu Francisco
mar/12

Cama e passagem

Obra de Frida Khalo - O Hospital Henry Ford, ou Cama Voadora (1932)

Por todos os sonos perdidos: 
A cama dura,
O amor não
(dura).

Tadeu Francisco
mar/12

segunda-feira, 5 de março de 2012

O velho e o filho

O Monge II, 154,5 x 160 cm, oil on canvas

Foi quando meu velho bocejou.
Sonolento, disse que gostava das demolições internas,
pois elas mediam sua capacidade de reconstrução.
Era só um muro de tijolo, ele e eu.
Um cenário pobre, mas rico, sabe?

Tadeu Francisco
mar/12

Aos poucos

Obra de Sandhi

Quando 
Aquele 
Pedaço
Te faz
Inteiro.

Tadeu Francisco
mar/12

sábado, 3 de março de 2012

sexta-feira, 2 de março de 2012

(Auto) vigilância

Obra Sentinela do Sonho - Catarina Borges

Sem ti,
Nela.

Tadeu Francisco
mar/12

A manhã

Obra de Tarsila do Amaral

A manhã chegou tarde
Chegou hoje.

Tadeu Francisco
mar/12

Licença poética

The Bagpiper, 1624

Póétêro da gaitada de fólê
Embrame os corações dissimulados.

Tadeu Francisco
mar/12

Quando almocei só - um monólogo

Obra de Dove - Red sun.

- Quando pus a mesa, 
sofri,
Tereza.

Tadeu Francisco
mar/12

Um conto e uma cobra

Van Gogh - "Arles - Dois Amantes" (fragmento rejeitado pelo pintor).

Ele sabia ser pente,
E envenenava a cabeça delas
com seu corte preciso.

Tadeu Francisco
mar/12

quinta-feira, 1 de março de 2012

2 x 2


Levanta-me 
No momento da queda.
Respira-me 
No momento do fôlego. 
Faz-me nobre em fantasias,
em um simples tempo de ser homem,
quando a chuva cai e seca o menino...

Tadeu Francisco
mar/12

*Ps: Poesia em homenagem à minha companheira, amiga, amante. A pessoa que sabe estar ao meu lado do jeito mais puro e verdadeiro: Mariana. Quatro anos juntos. É só o começo. Te amo.