segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

(De) lírio


Pintura de Artur Cruzeiro Seixas

De lírio é a cor do meu travesseiro surrado, que guardo no saguão cor de alecrim. Era o meu cheiro e minha fantasia. Meu espaço. Meus cacos. Tudo que dali saía me diminuía. Bolsas velhas e poeira das casas compunham aquele espaço insano e esperado. Aliás, todos os dias eu queria estar ali, mesmo que sentado no pufe do meu avô, que tanto me lembra velório.
 
O local, que outrora abrigou adornos para cavalos, me servia de companhia. Ficava no quintal esquecido daquele estranho sítio urbano. Se muitos pés passaram por aquelas madeiras, já não sei; mas sei de alguns que cravaram, pois judiaram dos tocos e quebraram alguns pregos enferrujados da porta de entrada.

De lírio aquele aroma. Ainda não esqueço tão fácil.

Desajeitava-me para dormir, posto que toda velharia, posta desordenadamente, refletia minha ânsia de ser parte daquele ambiente. Acordava com uma dor que se esculpia nas prateleiras desertas e saudosas de clássicos literários. Tantos nomes se repousaram. Ouço de longe Dostoiévski brigando com Oscar Wilde, em um duelo eterno de personagens fortes. Monteiro Lobato dando seu sítio para não entrar em uma viagem estrangeira.

Insistem em chamar as coisas que passam pela minha cabeça de relíquia. Todavia as tenho como objetos, passando longe da minha psique.

Era um simples mapa da minha infância e do que me foi tudo. Era um simples mapa do meu coração; que foge da razão; ginga com a lógica e mergulha em um infinito esquecido nas rodas de oração. Se é um delírio completo, deixo ao leitor. É parte de mim que pulsa naquele lugar. Tem cor de lírio e forma de sangue: o meu.


*Ps: Prosa publicada originalmente em novembro de 2011, no blog Noites de Outros Dias.

Tadeu Francisco
Nov/11

4 comentários:

  1. Você consegue descrever um lugar, uma lembrança, uma situação com poesia.. adoro teus textos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Poxa, valeu mesmo, de coração. Acho que muito se extrai do cheiro, memória e nostalgia; quando sinceros. =)

      Excluir
  2. Oi Tadeu!
    Que lindo seu texto!
    E você mencionou Monteiro Lobato, quantas saudades de minha infância, pena que hoje muitas das nossas crianças são privadas de uma adrenalina tão gostosa e inesquecível quando se ouvia a palavra "cuca", que o grande Monteiro Lobato criou tão somente pra nos assustar! rsrsrrs
    Que lindo você, é Mineiro de corpo e alma, tem um corpo cheio de marcas de uma infância feliz e uma alma de sonhador, de gente do campo, de gente simples, quanta beleza no seu texto, amei de verdade, e digo sempre pra todos que em Minas é assim: "Quanto menor a casinha mais sincero é o BOM DIA." E você só prova isso com seu texto. Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que memórias, literatura e Minas Gerais me acompanharão para sempre. Valeu pelas belas palavras. Casas devem ser sinceras para serem lares. =)

      Excluir