terça-feira, 5 de junho de 2012

Sobre ser poeta - Clarice Lispector


Fico um pouco reticente ao falar sobre Clarice Lispector, pois ela, apesar do tempo passado - às vezes incompreendida -, tornou um tipo de escritora da moda. Não que isso seja um problema, pelo contrário, quando se populariza grandes escritores devemos ficar felizes. 

Porém, receio um pouco da distorção que frases isoladas podem gerar em um contexto, de caírem em um lugar comum. É engraçado, pois quando pergunto sobre ela, muitos leitores dizem adorá-la sem ter lido qualquer livro seu, a conhecem apenas de frases colocadas à deriva pela rede. E isso sim acho frágil para um bom entendimento e compreensão da profundidade de Clarice, que, como ela mesma disse, foi julgada como hermética. 

Ao que me parece, Clarice era de fibra e possuía uma personalidade franca e determinada, além de ser apaixonada pela escrita e criação.

Assim como fiz com Saramago, aqui no blog, deixar a própria Clarice falar sobre ela e sobre seus pensamentos é a melhor forma de entendê-la. Publico, então, uma entrevista concedida ao programa Panorama Especial e transmitida pela TV Cultura em 1977, ao jornalista Júlio Lerner.

Um trecho da entrevista que me chamou a atenção foi esse:

CL: - Sei lá, eu tô meio cansada de mim mesma. 
JL: - Mas você não nasce e se renova a cada trabalho novo? 
CL: - Bom, agora eu morri, vamos ver se eu renasço de novo, por enquanto eu estou morta.




Entrevista indicada pela amiga e escritora Leila Krüger.

Tadeu Francisco
jun/12

6 comentários:

  1. Escrever é um tipo de salvação.
    Beijos!

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  2. Entrevista fantástica, Tadeu! Gostei também de suas considerações sobre as pessoas que conhecem a autora a conta-gotas. Ótima postagem! Abraço!

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  3. Ela descreve muito bem esse inconstante oficio.
    Parabéns meu velho.

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  4. Valeu pelos comentários, pessoal!

    Clarice é show! E coloca de uma forma muito singular seu processo de criação.

    Abraçoss

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  5. Ler Clarice é ler o mundo existencialista do universo filosófico... Ler Clarice é ler sua vida. Clarice não é uma leitura fácil, Clarice é o muito dela misturo com universo metafísico,ontagônico, enfim, ela é simplesmente Clarice. Quando se fala da "dama da literatura" as palavras acabam. Só sei que sua literatura felizmente ou infelizmente não é para todos. Tadeu obrigado por nos brindar com essa grande literata...

    Fr. Fellipe Toledo, OSA.

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  6. Clarice Lispector, minha
    São três horas da manhã. Há cerca de meia hora tive um impulso: precisava fazer café. Foi inescrutável. Meu corpo e meu cérebro clamavam por café. Senti-lo entrar nas células e tornar o planeta mais inteligente. Café faz isso comigo. Sinto-me muito mais atenta às nuances cotidianas do viver.

    Não demorou para compreender quem era que realmente pedia café. Era você. Era você que me obrigava a sentar agora e vociferar o que eu ainda não sei exatamente. É seu aniversário e seu direito. Já bebi tanto das suas palavras!

    Começo pelo que mais me perturba, antes de elogiar. Pois prefiro as más notícias, primeiro. Será que consigo também é assim?

    Irrita-me profundamente o fato de você não saber ser escritora. Juro, muitas vezes pensei que apenas um fingimento muito bem ensaiado era capaz de aveludar tamanha modéstia. Depois, lendo, relendo, decifrando, enervo-me mais. Você está sendo sincera e tímida ao assumir que escrever é maldição.

    Tenho inveja da sua máquina de escrever. Queria tanto esfolar meus dedos entre as teclas, sangrá-los em versos. Rasgar o papel. Passar a limpo. Rabiscar com a grafia menor margens, esquinas de frase. Ver nascer epifanias translúcidas em um fim de tarde nublado. A escrita virtual não é meramente mais sóbria. É mais comedida, mais burocrática. Deslustre.

    Contudo, posso ofertar-lhe alguns ensinamentos que absorvi. Você é a minha grande vereda literária. E eu tenho imensos ciúmes da sua popularidade entre as pessoas. Detesto ver seu lirismo aprisionado à saliva de outros leitores. Não suporto conceber que há outros livros por aí, que não seja o meu “A Descoberta do Mundo” – embora tenha absoluta convicção de que não há outro tão surrado, tão vivido e tão amado como o meu. Em frangalhos de tanto uso.

    Eu fui salva e submersa por sua loucura. O mundo pode me agasalhar, só porque existiu a sua poesia nas minhas mãos. Certa vez, indignada com a genialidade do “apurar a pureza”, peguei um giz branco – porque a pureza é inexorável giz e inevitavelmente branca – e escrevi na lousa: apurar a pureza clandestina. Isso virou título de texto meu. Mas você, naquele minúsculo parágrafo, na página perdida no meio do livro, você evitou a minha morte. E não conto o porquê, ficará eternamente guardado nas entrelinhas.

    Fico feliz que você tenha morrido. As pessoas escrevem muito mal, amada Clarice. Hoje, todos se sentem dignos de autoria. Quando a leio – enganando a mim: somente eu a possuo – penso sempre nisso. Ainda bem que o universo a impediu de presenciar os horrores pseudoliterários que nos cercam.

    Muito obrigada por compartilhar seus pecados comigo. E por ter escrito a maior história de suspense de todos os tempos: “A princesa – Noveleta”.

    Agradeço-lhe também por desengradar os pudores e as muralhas do pensamento. Pelo exaspero em devorar detalhes. A maestria em repetir as mesmas palavras, dando-lhes infindáveis possibilidades. Pela vida às mesquinhezas austeras. Você transfez meu estrabismo em envernizada visão periférica.

    Minha alma também teve problemas com enxertos. E a sua poderosa literatura foi alicerce para encerrar as rejeições. Ao mesmo tempo, quantas peles me foram arrancadas dos lábios, graças a você?

    No entanto, houve um grande incômodo no nosso encontro. Quando a vi na televisão fiquei mortalmente compadecida da sua fragilidade. Desliguei a lembrança. A sua voz, Clarice, reside única dentro dos meus olhos e não posso ferir minha imaginação com a realidade.

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