segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Paridade - quando ouvi vozes

Obra de David Hockney

- É até você entender 
que ele também tem sua cor favorita,
a bolacha que gosta,
o estilo devoto.
Era a sua consciência falando.

Tadeu Francisco
out/11

Sobre ser poeta - Voltaire

Provocação. Talvez essa palavra seja a que mais me atraiu às obras do Iluminista  Voltaire (séc. XVIII). Tudo que li de sua autoria  me soou provocativo. Com o uso demasiado de frases de impacto e uma forma clara de expor suas ideias e questionamentos, Voltaire logo seduziu inúmeros leitores.
 
Um ponto que merece destaque é a sua veia política. Ativista e extremamente vivo para questões de controle social, ele soube utilizar da escrita para  levantar questionamentos acirrados e inflamados, fazendo toda uma geração pensar e criticar instituições, associações, a igreja e as normas que pudessem atentar, mesmo que de leve, à liberdade, sempre com o uso da razão.
 
 Às vezes percebe-se um Voltaire visionário, outras, aberto aos diálogos e radicalmente contra o Estado absolutista e a nobreza. Os seus textos constróem severas críticas à igreja, o que lhe rendeu fama e notoriedade. Alguns relatos dão conta de que ele teria se convertido antes de morrer, em 1778.
 
Longe de aprofundar aqui qualquer discussão a respeito, Voltaire possuía um carisma próprio e inteligente. Fica evidente que ele ia contra o controle absoluto da igreja, contra os dogmas impostos e contra seu poder rico e territorial; o que não reflete a discussão em torno da fé e de Deus propriamente, tal como fazia Nietzsche.

Esse envolvimento político falastrão e provocativo, custou algumas prisões e um exílio. Era a favor de que todos os prisioneiros fossem submetidos a um processo justo, e não colocado nas prisões sem direito de defesa, como acontecia. Requeria um estímulo maior à ciência e à razão humana. Não era aceito e compreendido pelos poderosos.

Sua obra é envolvente. Dentre elas, escritas no período de 1718 à 1779, destaco "Édipo", "História de Charles XII", "Cartas Filósoficas", "Elementos da Filosofia de Newton", "A princesa da Babilônia", "Breves contos I, II e III", "O filósofo Ignorante" etc.

Dos contos, gosto muito de "O Carregador Caolho" e "O sonho de Platão"; que, apesar de serem demasiadamente curtos, são extremamente ricos. Voltaire reflete em histórias, com diálogos fortes, toda sua ideia filosófica. Basta começar a ler para entender o contexto vivido e sua sagacidade. Caso alguém queria os e-books, tenho três coletâneas de contos e a obra "A princesa de Babilônia", basta me enviar o email com o pedido clicando aqui.

O vídeo abaixo foi extraído do programa Provocações (nome oportuno ao filósofo), produzido pela TV Cultura, onde Abujamra declama Voltaire:



Tadeu Francisco
out/11

domingo, 30 de outubro de 2011

Quando chorei junto de ti

"Mujer Desnuda" - Pablo Picasso


Minha
dor
advém

das
coisas
mais
simples,

e
da
sua
dor.

Tadeu Francisco
out/11

sábado, 29 de outubro de 2011

Pequena cidade - quando me fechei

"Moça à janela" - Salvador Dali

Uma simples janela aberta,
numa simples pequena rua,
ofertando-me o pão quente;
minha alegria fria.

Tadeu Francisco
out/11

Doce e feroz

Obra em aquarela "Léo Fudido" de Artur Rios
Fé amolada,
dente de pedra,
pouco sisudo,
pintado em aquarela.

Tadeu Francisco
out/11

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Seu reinado

Obra "O bobo da corte"
Rei do norte,
do discurso profundo,
dos pseudos santos.

Rei da falsa morte,
torne-me seu corte,
seu bobo.



Tadeu Francisco
out/11

Indefinição

Obra "A louca" - Alonzo Coelho
Se dúbio
for,
sou eu.

Tadeu Francisco
out/11

Páginas

"O Poeta Pobre" pintura de Carl Spitzweg

Os livros
em uma

palavra;

em um

ponto
que nos atende;
 
ardente zelo,
o de não saber
o que foi escrito
em cada final.
Tadeu Francisco
out/11

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Exprimir - o artista

Evandro Cardoso. Rel. de "O Grito"

Pouca voz na boca
é boa a voz que soa.
Expresse a prateleira:
obra prima, 
obra pai,
obra mãe...
obra inteira.

Tadeu Francisco
out/11

Suicida - um arrependimento

Pablo Picasso - "Blue period"

Pouco aguentava.

E quando dormi
pensando em morrer

acordei
vida.

Tadeu Francisco
out/11

O vô João

"O menino com pássaro" - Cândido Portinari

Uma pena.

Minha pose,
minha careta,
minha história.

O divertido se foi...
quando ele se foi.

Tadeu Francisco
out/11

Gritos e tapas

Obra "Cachorro" - Picasso

Late
tanto
quanto
bate.

Tadeu Francisco
out/11

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Quando parei de chorar


Das lembranças que vocês vão querer
tenho muitas.
E dessas, tenho o resto que me consome:
o que me flagrou dormindo;
o que me flagrou sonhando.

Tadeu Francisco
out/11

*Ps: obra de autoria desconhecida.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Inconsciência - quando quis fugir

Obra de Sergey Ryzhov
Fora
daqui;

fora
de mim.

Tadeu Francisco
out/11

Sobre ser poeta - Arthur Conan Doyle


Arthur Conan Doyle foi o responsável pela minha paixão ao estilo literário policial. Ele se eternizou na alma de seu mais famoso personagem, Sherlock Holmes. Lendo as aventuras investigativas de Sherlock, facilmente percebi a eficiência do seu criador ao compô-lo. Arthur conseguiu trabalhar em cima de teses  dedutivas e detalhes que enriqueceram o personagem a ponto de toda uma geração sonhar em ser alguém tão genial e expert quanto Sherlock. A fama lhe rendeu o título da nobreza inglesa "sir".

Médico, escocês, Arthur foi um escritor abrangente e não teve somente o personagem Sherlock inscrito em seu currículo. Suas obras envolvem histórias de  ficção científica, novelas históricas, peças e romances, poesias e obras de não-ficção. Dentre essas destacamos "O Mundo Perdido", "Quando o mundo gritou," "Spiritualism and Rationalism", "A terra da neblina", "Our African Winter" etc.

Comecei a ler Sherlock ainda na infância e o fato de o detetive ser extremamente detalhista e bom nas suas deduções, me enchia de vontade e esperança de um  dia conseguir olhar uma pessoa e em poucos segundos descrever a sua vida.
Watson, companheiro de Sherlock, é outro personagem interessante, profundo e às vezes cômico. Um "casamento" que se estendeu por diversos anos (Sherlock foi criado em 1887 e teve sua última história - na obra "Últimos casos de Sherlock" - escrita em 1917). Dentre as histórias de Sherlock, destaco  "Signo dos quatro", "Um estudo em vermelho", e as três obras recheadas de contos: as aventuras, as memórias e a volta de Sherlock Holmes.

Também é interessante notar a influência de Edgar Alan Poe nas obras de Arthur. Poe, gênio da história bem traçada e densa, sem dúvida alguma influenciou Arthur na elaboração do Sherlock. Quem quiser conferir, aconselho a leitura conjunta entre um e outro. Acho boa a ligação que dá para notar entre eles.

Dentre os materiais que guardo para publicar no blog, uma entrevista datada por volta de 1927 (três anos antes de sua morte) me chamou muita atenção, pois, ao que tudo indica, foi a única aparição  de Arthur em vídeo. Na entrevista, Arthur Conan Doyle narra um pouco o processo de criação de Holmes e fala sobre espiritualidade. Infelizmente não consegui encontrar a entrevista legendada. A qualidade da gravação não é boa, dada à antiguidade da mesma, mas serve como um registro histórico que quero compartilhar com vocês. O amigo Juliano Vieira Zappia está em processo de legenda do vídeo e, assim que estiver pronto, atualizo o post com elas. Logo abaixo, segue uma prévia do trecho já transcrito.

Não quero estender muito a apresentação sobre a escrita de Arthur, pois o próprio fala a respeito, o que dispensa qualquer comentário:

 
"Preciso falar uma ou duas palavras apenas para testar minha voz, entendo. Há duas coisas que as pessoas sempre querem me perguntar. Uma delas é como eu comecei a escrever as histórias de Sherlock Holmes. E a outra é sobre como comecei a ter experiências psíquicas e a ter tanto interesse nessa questão. Bem, primeiramente, sobre as histórias de Sherlock Holmes, isso aconteceu da seguinte forma: (XXX), um jovem médico na época... Eu tive treinamento científico e lia ocasionalmente histórias de detetives, mas todas me aborreciam porque eram antiquadas. Os detetives sempre chegavam a seus resultados por mero acaso ou sorte; ou ainda inexplicavelmente. Como ele chegou lá? Ele chegou lá, mas nunca deu nenhuma explicação sobre como conseguiu. E eu não via isso como se fosse um jogo. Para mim, ele deveria ter a obrigação de demonstrar por quais razões chegou às suas conclusões. Eu comecei a pensar sobre isso, e sobre aplicar o método científico no trabalho de investigação. E eu tinha, quando era estudante, um velho professor, seu nome era Bell, com um poder de dedução extraordinário. Ele olhava para o paciente, dificilmente deixava o paciente abrir a boca, e fazia o diagnóstico da doença do paciente e, muitas vezes, também da nacionalidade, ocupação e outros pontos inteiramente pelo seu poder de observação. Naturalmente pensei comigo mesmo, se um cientista como Bell entrasse para o ramo de detetives ele não faria essas coisas por acaso, ele as construiria cientificamente. Então, tendo concebido essa linha de pensamento, vocês podem imaginar que eu tinha uma nova ideia de detetive, uma em que me interessava trabalhar. Eu pensei em algumas centenas de escapatórias, pode-se dizer algumas centenas de táticas pelas quais ele poderia construir suas conclusões, e comecei a escrever histórias nessa linha. No começo achei que elas atraíram pouca, bem pouca atenção, mas com o tempo, quando comecei os contos (aventuras curtas) um após o outro, saindo mês após mês na Revista Strand, as pessoas começaram a perceber que elas eram diferentes das velhas histórias de detetive, que havia algo ali que era novo. Elas começaram a comprar a revista, e... o seu "crossboard" (famoso quebra-cabeça da época, 1926). Então posso dizer que ambos andamos juntos e, a partir de então, Sherlock Holmes realmente "criou raízes". Eu escrevi mais sobre ele do que pretendia, mas minhas mãos estavam sendo forçadas pelos amigos que continuamente queriam saber mais. E assim foi esse crescimento monstruoso que simplesmente veio de uma semente tão pequena. O curioso é que muitas pessoas ao redor do mundo provavelmente estão convencidas de que ele é realmente um ser humano vivo. Recebo cartas endereçadas a ele, cartas pedindo seu autógrafo. Recebo cartas para seu amigo estúpido, Watson. Até mesmo de damas dizendo que gostariam de ser sua governanta. Uma outra, que ouviu que ele estava ocupado criando abelhas, escreveu que era uma expert no trabalho de segregar a rainha, seja lá o que isso signifique, e assim seria predestinada a ser a governanta de Sherlock Holmes. Não sei se há algo mais a dizer sobre ele.

(Segunda Parte)

Legenda: Juliano Vieira Zappia"

Tadeu Francisco 
out/11

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Aviso

Caríssimos leitores,

não estou conseguindo colocar o vídeo no post da série "Sobre ser poeta". Estou tentando há um bom tempo e infelizmente não consegui (ainda). Acabei de tentar me comunicar com o Blogger para ver do que se trata.

Logo os posts voltarão ao normal, assim espero.

Enquanto isso, podem ler, reler, conhecer o blog, os posts mais antigos e a própria série "Sobre ser poeta", que cada sexta-feira vem com alguma novidade. Vocês podem ver os nomes já apresentados clicando aqui.

Obrigado pela compreensão de todos.


Tadeu Francisco

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

De rua

Henrique Pousão "O Mendigo Lapita"
Terrestre
sem terra.

Tadeu Francisco
out/11

Encordoar

Obra "Violão de uma nota só", 2006.

Venha comigo
ouvir toda canção.
Deixe-me ser suas cordas,
seu perfeito violão.

Tadeu Francisco
out/11

Dois seres

Obra "Casal de namorados" - Portugal
A sua sutileza
tendo certa beleza
quando se aproxima de mim,
xucro.

Tadeu Francisco
out/11

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Distribuição - uma ordem

Obra de Eriberto Chagas
- O leite
dos gigantes,
entregue
às crianças
entregues.

Tadeu Francisco
out/11

Cobrança

Obra realista de Iman Maleki

Devi parte de mim
quando me cobrou
parte de si.

Tadeu Francisco
out/11

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Se vá

Obra de Iman Maleki

Afaste-me de você
e coroe minha resistência.

És meu ópio,
meu pedaço mais sujo,
minha incoerência.

Tadeu Francisco
out/11

Papel poeta

Poeta triste - Guilherme de Faria.
O
poeta
inquieta
o
silêncio.

Tadeu Francisco
out/11

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Olga e seu novo amor

Obra "Mulher Negra"

Que flerte da Olga.
Descobre a paixão;
cobre o amor.
Ouve
dos ventos
que um é só cheiro;
o outro mata a fome.
Sente, calada,
o frio da descoberta.

Tadeu Francisco
out/11

Um propósito - diálogo


- Filosofia
dê vida.

Tadeu Francisco
out/11

*Ps: obra de autoria desconhecida.

Torto - o homem com um pé só

Obra de Yan Pei Ming

O azarado pé esquerdo,
que faz mancar,
me faz caminhar.

Tadeu Francisco
out/11

sábado, 15 de outubro de 2011

À professora - quando acreditei em mim

Obra "Escritora Pensante"


Aprendi a crer, ser...
hoje sou eterno, mente, grato.

Tadeu Francisco
out/11

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Inquieto

Obra de C. Portinari

Toda palavra louca
entoa o meu avesso.
E decerto ele, 
louco,
diz ser,
tudo isso,
pouco.

Tadeu Francisco
out/11

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Sobre ser poeta - Jack Kerouac

Pela segunda vez (espero que de várias) a série "Sobre ser poeta" conta com uma participação especial.

A primeira vez foi sobre George Orwell, que o amigo e brilhante jornalista Daniel Souza Luz se encarregou de nos apresentar. 

Para a série de hoje, convidei uma escritora que conheci ao acaso - e feliz hora - no twitter, que sempre me brinda com as suas palavras no blog de sua autoria, Noites de outros dias, chamada Darla Medeiros. Darla, além de escritora, é professora, o que torna a sua presença por aqui ainda mais digna. Assim como nós, uma amante das palavras. Convido-lhes a conhecer mais o seu trabalho; vão se encantar.

A escolha de Jack Kerouac para a série advém de alguns pedidos, não muitos, mas alguns. Confesso que li pouco de sua obra, e não seria honesta qualquer palavra minha a respeito desse escritor. Após ler o texto de Darla, fui chamado a conhecer mais a sua vida e obra, creio que terão a mesma sensação.

O vídeo é um trecho do documentário "The Sorce", e traz algumas imagens do Kerouac. A trilha é de Mike Westbrook

Boa leitura.


Jack Kerouac 
(por Darla Medeiros)

           
E mais um pisciano vinha ao mundo em 12 de março de 1922. Seu nome? Jean-Louis Lebris Kerouac. 

Para os muitos amantes de literatura que se perderiam em suas obras futuramente, simplesmente Jack Kerouak. Da infância conservadora apegada à figura materna, ao futebol americano e à Marinha Mercante: um caminho. Das andanças e experiências com os amigos da Universidade de Columbia: uma inspiração. No intenso convívio com Neal Cassady: uma amizade. Jack Kerouac... Um homem de bases conservadoras que se vê em meio às próprias vivências, experiências e escrita sendo considerado o ‘papa’ do movimento literário beat... 

A figura do escritor tornou-se progressivamente mais pública nas décadas de 50 e 60, e o poeta, aos poucos, fechou-se ainda mais em seu mundo. Perguntas: eternas perguntas que movem o mundo. Buscou, muitas vezes, Jack Kerouac libertar o amor em casamentos que fracassaram rápido demais.  Nas entorpecências e nas fugas, o poeta buscou nas drogas um universo paralelo. 

Kerouac e Neal Cassady
Inspirou-se em muitos de seus escritos, pelos amores e imagens que marcaram as tantas viagens feitas ao lado de Neal. Inspirou-se a tantos outros nos momentos em que a benzedrina e os anestésicos faziam o seu pensamento agir em sensações e palavras peculiares. Allen Ginsberg, amigo de Kerouac nesse período, dizia admirar-se da capacidade do poeta em escrever, mesmo sob o efeito de tóxicos. 

Apesar de tantos escritos como “The Town and the City”, “Tristessa, “Os subterrâneos” e outros, as marcas maiores de Kerouac foram “On the Road” e “The Dharma Bums”. Para os hippies que embalavam um movimento cultural forte para além das fronteiras norte-americanas, “On the Road”passou a ser um espécie de ‘bíblia’ da vivênvia por eles adotada. Mas, com a fama veio o isolamento e a vida teceu seus imprevisíveis fios. Em meio a um movimento à frente de seu tempo e à proposta de liberdade cantada em hinos e proferida pela literatura, o homem que fazia fama só queria o isolamento. Períodos e períodos solitários houveram, em que Kerouac apenas se permitia estar acompanhado de uma garrafa de qualquer bebida alcoólica. E o homem que todos julgavam mais forte e mais frio do que realmente o era, pelos amigos era visto com a sensibilidade com que manifestava seus segredos em escritos. E o homem que sempre quis ser o observador ao invés do observado retornou à casa materna. O corpo já era velho, no homem ainda jovem...

Em outubro de 1969, a cirrose cobrava o preço de uma vida curta e desregrada, marcada pelo consumo exacerbado de álcool e drogas e por períodos contínuos e extensos de escrita exaustiva, em busca de um algo a mais que aqui não se ousa questionar. Resta, hoje, a lembrança dos rolos de material escrito em papel manteiga, para evitar a necessidade de virar páginas. Resta aos amantes da obra, os sentimentos e segredos de um homem intenso, sem vírgulas, pontos, interrupções, parágrafos ou convenções ( para a perplexidade e fascínio de muitos). 

 Poeta, pintor, novelista... Como diria Nietzsche “Humano, demasiado humano”. A obra de Kerouac é um diário de bordo da viagem pelas estradas de uma vida, uma caixa de segredos, uma pandora literária, luz e sombra dentro em si. Nas linhas torrenciais, a intensidade das palavras e sentidos cai como a gota de um universo paralelo sobre nós. Um mundo em que as aparências são desconstruídas e as sombras são projetadas sem pressa, mas com cada verdade que as constrói, nem que seja ela apenas o ponto de vista de quem o escreve.  Os escritos de Kerouac lêem a alma do leitor e, talvez, retratem o próprio interior do interior do poeta-homem-novelista-pintor... Na obra dele as misérias humanas estão confortavelmente brindando no bar da esquina e não envergonham-se de serem misérias e nem de serem humanas e o homem também não se envergonha delas. E é citando Kerouac que encerro este tratado sobre ele.

“E você tem existido para sempre, e vai existir para sempre, e todas as pancadas do teu pé cansado nas portas inocentes do armário foram apenas o Vazio fingindo ser um homem que fingia não conhecer o Vazio”.



Darla Medeiros

Saia

Obra Mulher
Saia de perto do palco,
saia bordada.

Tadeu Francisco
out/11

A minha música

Obra de Mariana Bonifatti

Meu bem,
que triste a canção que fez,
curta lamúria
descritiva ao fim.
 
Não posso dançá-la,
dance por mim.

Tadeu Francisco
out/11

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Clarice

Obra Clarice - Mariana Bonifatti

Clarice,
venha ver meu livro novo;
traga o seu choro
e um pouco de bebida.

Traga o seu nome,
que tanto amo,
e sua força descarada.


Venha, Clarice...
traga-me.

Tadeu Francisco
out/11

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Transplantada

Óleo de Maria Helena Vieira da Silva

Fiquei na sala de espera,
de lado,
padecendo ao seu chamado.

Levou meu coração,
minha espera,
minha sala,
meu lado.

Tadeu Francisco
out/11

A alma do pintor - cores insanas

Obra Jardim - Joan Miró

Cores
não são 
cores sãs
quando se colorem.

São dores
se mutilando
aos sabores
do pincel.

Ora tinta,
ora mel.

Tadeu Francisco
out/11

domingo, 9 de outubro de 2011

Refeição

Pescadores - Di Cavalcanti

Espero por um pouco de arroz
e que me faça a sobremesa;

espero que sobre
um pouco de mim
na sua mesa.

Tadeu Francisco
out/11

Tamanho e luar

Picasso - Baigneuse
Noite grande,
quão maior é meu sonho?

Tadeu Francisco
out/11

sábado, 8 de outubro de 2011

O quintal do sábado

Obra de Van Gogh

Sorriso de criança,
tal como a lembrança,
de ser naquela tarde,
só riso.

Tadeu Francisco
out/11

O que foi tempo



Escrevi sobre o tempo.
Malogrados minutos
de sentinela.

Nada passou,
sequer ficou.

Perdi tempo.

Tadeu Francisco
out/11

*Ps: Obra de autoria desconhecida

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sobre ser poeta - Tim Burton

Tim Burton
Outra vez decidi escrever essa série falando de uma pessoa ligada ao cinema. Repito que não sou da área. Não passo de um amante da 7ª arte.

Certa vez uma grande amiga me mandou um vídeo de uma romancista nigeriana que falava da importância do ato de contar uma boa história. A história que vivemos e a que somos, o nosso ambiente e o nosso espaço. E frisou o valor do lúdico com o pé no chão, do sonho à realidade. Comecei a pensar que quando se pode imaginar, como frequentemente fazem as crianças, a vida ganha mais cor e mais sabor. Penso assim como aspirante a escritor e como um bom leitor.

Nesse cenário ninguém é tão brincalhão e sinistro com as fantasias humanas quanto Tim Burton. Um aficionado por criações lúdicas e fantásticas sem fugir da normalidade real do seu insano limite. É meio contraditório falar assim, mas é assim que o vejo, dentro do que alguns chamam de realismo fantástico. Imagine um cenário de algo completamente impossível, com personagens completamente humanos, com condutas e pensamentos aceitos diante de uma aberração pairada à normalidade, esse é o roteiro de Tim.

Um retrato fiel do que digo aqui é o filme "Peixe grande". Para quem ainda não assistiu, indico com muita segurança. O conceito de imaginação, imagens, absurdos, fantasias com pitadas de realidade, ganha um corpo muito bem produzido com personagens profundos.

johnny depp e tim burton
Tim Burton nasceu nos EUA. Tem pouco mais de 50 anos e escreveu sua primeira obra em 1982, um curta metragem chamado "Vincent". Caiu no gosto do público com clássicos como "O Estranho Mundo de Jack", "Edward Mãos de Tesoura", "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça", "A noiva Cadáver", a refilmagem de "A Fantástica Fábrica de Chocolate", clássico dos anos 70, e o seu último filme "Alice no País das Maravilhas". Uma obra sua que conheci recentemente foi "Bones", de 2006, um vídeo clipe da banda "The Killers", que tanto gosto.

Tim nutre uma boa relação com o ator Johnny Depp, que trabalhou em alguns de seus filmes. Johnny é um ator excelente e perfeito para esse tipo de roteiro, porque tem um olhar caricato sem atuar em "overacting", o que poderia deixar os filmes de Tim um tanto quanto infantis.
Bastidores de "Alice no país das maravilhas"

A verdade é que todo mundo vira um pouco criança quando assiste seus filmes. Esse é o segredo. Quando os assistimos, por um momento, esquecemos das nossas preocupações e dos nossos problemas. Permitimos brincar com a nossa mente e a rir de nós mesmos, o que, paradoxalmente, nos torna maduros.

Quando eu tiver filhos quero assistir com eles os filmes do Tim Burton, e permitir a viagem que faço quando mergulho em suas obras. Permitir a minha própria criança a eles; em sonhos, em vontades, em imagens.

Segue abaixo o trailer do incrível filme "Peixe Grande", que citei acima.






Tadeu Francisco
out/11

Duas caras

"La buena cana" por Manet
O outro lado
da moeda de ouro
é de lata.

Na mesma moeda,
pele e prata.

Tadeu Francisco
out/11