quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sobre ser poeta - Franz Kafka

Por mais que haja alguma relutância por parte de alguns críticos, não quero chamar o Kafka apenas de um escritor de ficção. Para mim ele é um grande filósofo e que encontrou em contos e histórias, com sentimentos reais e fictícios, com alegorias macabras e fantasiosas, suas teses e teorias.

Kafka nasceu em Praga no ano de 1883 e morreu jovem, aos 40 anos. Com a escrita angustiante estreei lendo o seu famoso "A metamorfose", livro curto e que me rendeu poucas horas. O modo com que ele começa o livro, narrando a transformação de Gregor Samsa, que passa a ser um monstruoso inseto, me fez ficar encantado logo nas primeiras páginas.

Assim que entrei na faculdade descobri que Kafka também tinha feito direito, então passei a visualizar temas relacionados à justiça de uma forma mais consistente em suas obras. Participei de um grupo de filosofia na faculdade, e lá descobri que Kafka fazia parte de um movimento filosófico que englobava a metafísica e artes, com discussões humoradas e cínicas sobre a sociedade em seu contexto cotidiano.
1ª capa do livro "A metamorfose"

Nesse prisma, rapidamente percebi a alucinação descrita em "A metamorfose". Consegui unir os pontos que faltavam para entender as suas mensagens. 

Kafka tem um jeito particular de falar sobre as angústias e os desesperos humanos, vez que os liga às mais simples e rotineiras relações sociais.

Um professor, ironicamente de matemática, na sequência, me emprestou dois famosos livros de Kafka, "A construção" e "Um artista da fome"; os li rapidamente. Mais uma vez me aprofundei em tamanha simplicidade e franqueza. Após, li "O processo" e ganhei a obra "Consideração", seu primeiro livro, publicado em 1913.

Com tantas surpresas agradáveis que fui tendo com a leitura das obras de Kafka, decidi conhecer um pouco mais sobre a sua vida. E foi em um sebo, na rua Teodoro Sampaio em São Paulo, que comprei um verdadeiro achado: "Kafka - vida e obra", de autoria de Leandro Konder. Com esse livro aprendi sobre  seus ideais políticos, sobre sua família, a relação com o Marxismo, seus amores e dramas. Kafka ficou ainda mais interessante na minha concepção. No mesmo sebo, ainda comprei "O Castelo" e "A Sentença".
Desenho do próprio Kafka

Uma vez alguém me disse que para ler os livros de Kafka é necessário ter consciência de que ele, em nenhum momento, quis passar ao leitor uma história bela. Seus escritos fazem doer e incomodam. A sua dor é precisa e eficaz no ponto de vista filosófico e literário.

Tadeu Francisco
set/11

Recado ao poeta

Obra - Poeta en el limbo

Não se iluda.
Você não escreve poesia,
é ela quem escreve você.

Tadeu Francisco
set/11

Muitas letras

Obra de Pedro Cabral

E você desiste;
acha que já usou todas as palavras do mundo,
quando aquele sorriso te faz novamente um poeta.

Tadeu Francisco
set/11

Inimigos e poder

Anton Chekhov

Quando meus inimigos se forem,
quando eles pararem de correr,
estarei correndo ainda por eles,
e só.

Tadeu Francisco
set/11

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Meu lugar

Obra de Joan Miró


Entre tantas
entranhas;

Entre tantas
entradas;

Minhas saídas
são minhas escadas.


Tadeu Francisco
set/11

Varal

Obra de Paul Cézzane

Deixei a toalha molhada em cima da cama.
Deixei pendurado um pouco de mim;
a parte estranha...


Tadeu Francisco
set/11

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Riscos

Obra de Joan Miró

Os riscos tortos
não estão mortos;
são linhas,
enchendo de vida
seus corpos.

Tadeu Francisco
set/11

Coração ferido

Obra de Armanda Passos

Cutuco  muito;
sempre sangra.

Tadeu Francisco
set/11

Palestina

Obra de Carlos Latuff

Tento
ter
teto.

Tento
ter
terra.

Detento,
tento.

Tadeu Francisco
set/11

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Verdade (mentira)

"Prometeo" do pintor barroco Jusepe Ribera

Uma vez
ela falou que sou a verdade.
Não pude enxergar tal desvario.

Se sou a verdade,
por que me esconde?

Soou mentira.

Tadeu Francisco
set/11

UPP - Uma Pseudo Paz

Charge de Carlos Latuff

Meu novo velho punho
com sua nova luva

Passa
e fica.

Redundância perfeita
à sua dor.

Tadeu Francisco
set/11

Remédio

Obra "O beijo" de Toulouse-Lautrec

Sara,
cura,
sua...
seu beijo.

Tadeu Francisco
set/11

domingo, 25 de setembro de 2011

Despertar

Obra "Samba" de Di Cavalcanti

Aprendi a sambar
fugindo do seu som,
dando um toque em sua clave,
acordando o acordeão.

Tadeu Francisco
set/11

sábado, 24 de setembro de 2011

Vida passada

Filósofo em meditação - Obra de Rembrandt

Passou do tempo,
apodrecida,
minha vida.


Pesou.


Passada,
não sobrou mais nada.


Tadeu Francisco
set/11

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Saudosa mãe

Obra de Mel

Quero a vida de outrora;
com meu berço de madeira
e café quente sobre a mesa.

Quero a mãe que um dia tive,
com seu braço sempre pronto,
aconchegando os meus prantos.

Tadeu Francisco
set/11

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Sobre ser poeta - Charles Chaplin

Quero falar aqui sobre Charles Chaplin sem utilizar frases prontas ou quaisquer clichês.

Primeiramente, quero deixar claro que não sou crítico de cinema, nunca estudei cinema e sou apenas um bom amante de filmes que me emocionam e mexem com minha imaginação.

Com essa série quero ter a liberdade de levar ao leitor artistas dos mais diversos gêneros, sem ter que obedecer uma ordem lógica.

Chaplin foi um artista visionário e, sem dúvida, à frente do seu tempo. Quando comecei a me interessar por cinema, logo tive contato com seus filmes, mais precisamente com o filme "Em busca do ouro". A sagacidade de Chaplin como ator, escritor, diretor, me fez começar a entender a sua grandeza. Logo assisti "O garoto", "Luzes de Ribalta", "Tempos Modernos" e minha grande paixão cinematográfica, "O grande ditador". Fiquei encantado com o modo que Chaplin fez críticas contundentes aos valores sociais e políticos.

 "O grande ditador", primeiro filme falado de Chaplin, o projetou como um ambicioso diretor e um destemido cidadão, pois estreiou a película na própria Alemanha nazista na década de 40, mais precisamente na cidade de Berlim. Enquanto tínhamos os ideais dos EUA fazendo pouco caso às barbaridades nazistas, Chaplin, de forma solitária, denunciava. Uma das cenas marcantes que podemos extrair do filme, é a que o ditador brinca com o globo terrestre, jogando-o pra cima em meio a uma suave dança. Cena memorável. Bem, além do humor aguçado, nesse filme podemos perceber que ao incorporar "Hitler", o "judeu" encerra o roteiro com um discurso extremamente apaixonado e emblemático, para não dizer ácido. Esse discurso, da maneira como foi colocado por Chaplin no filme, gerou insatisfação por parte dos críticos, que declararam a desnecessidade de encerrar o ato explicando-o. Particularmente (como disse, não sou crítico de cinema), acho muito bem colocado e emocionante. O discurso segue em vídeo logo abaixo e deixo para o leitor, caso não tenha visto, o julgar.
Uma outra curiosidade recente foi a polêmica que envolveu um filme de Chaplin da década de 20, onde, supostamente, aparece uma moça falando em um aparelho celular. Alguns juram que ele, como visionário, colocou um aparelho de comunicação propositalmente na cena, outros, garantem que não passou de um figurante ouvindo um rádio portátil. E uma terceira corrente, mais complexa, acredita que a moça seria uma viajante do tempo.

Após ter contato com alguns curtas de sua autoria (Vida de cachorro, Ombros, armas!, Idílio Campestre, Pastor de almas), assisti o documentário "O vagabundo e o ditador", que traz ao público uma série de coincidências entre Hitler e Chaplin, citando datas e acontecimentos particulares, como, por exemplo, o nascimento de cada um, que se deu na mesma semana, do mesmo mês, do mesmo ano de 1889.

Em suma, Chaplin é um artista muito interessante e que merece uma atenção especial. Geralmente a figura do Carlitos é resumida por cenas batidas de trechos de filmes, onde Chaplin é colocado tão somente como um canastrão atrapalhado, quando, na verdade, além de ser um canastrão, é uma das pessoas mais sensíveis à arte que conheci.


Tadeu Francisco
set/11

Laranjeira

Obra "Cartão Postal" - Tarsila do Amaral

Subi meio pé de laranjeira.
Necessário o risco tolo,
é que quero um riso novo,
quero a vida e um certo doce.

Tadeu Francisco
set/11

Um quarto para (os) dois

Obra feita com fita VHS pelo artista Nick Gentry

Naquele quarto se ouvia
um destilar de sílabas,
salivas picantes,
um leve frio
e um suave mantra
sob a manta...

se ouvia o silêncio dos dois.

Tadeu Francisco
set/11

Traiçoeiro

Obra de José Malhoa

Deformo
o sóbrio;
formo
o ébrio.

Tadeu Francisco
set/11

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Céu rasgado


Uma raspa do céu;
que vem crua,
que vem nua,
que vem lua.

Tadeu Francisco
set/11

*Ps: obra de autoria desconhecida.

O valor das coisas

Obra de Camilla Pallavicini

Vale tanto
quanto a pequenez
dos pássaros.

Vale tanto
quanto o mistério
dos porões.

Vale tanto
quanto o disparate;

que se desprende
da poeira dos sertões.

Tadeu Francisco
set/11

Chefe

Floresta - Tarsila do Amaral

Peguei as minhas coisas
e respirei.
Saí pela estrada,
agora sou o rei.

Tadeu Francisco
set/11

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Da rua

Obra de Paula Rego

Sou a gota da gota;
o pouco do pouco.

Mais que o menino,
menos que o louco.

Tadeu Francisco
set/11

Moça suja

A

cara
lavada
da moça
levada

a

levou
longe.

Tadeu Francisco
set/11

*Ps: Obra de autoria desconhecida.

sábado, 17 de setembro de 2011

Comida e chão

Obra de Alexa Meade

Para o prato
não há jeito;
quando feito,
me ajeito.

Tadeu Francisco
set/11

*Ps: Já usei outras obras da Alexa aqui no blog e a acho genial. Para quem não acompanhou, a imagem acima não é um quadro propriamente dito, são objetos pintados que nos dão a ilusão de ser um quadro. Genial, não? Quem quiser conhecer mais, só clicar aqui.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Sobre ser poeta - George Orwell

Primeiramente, quero agradecer ao amigo jornalista Daniel Souza Luz por ser o responsável pela série dessa semana.

Recebi vários e-mails sugerindo a série com George Orwell e, como não quero ser injusto com o leitor, decidi convidar alguém para falar sobre George com mais propriedade, já que não tenho muita intimidade com as suas obras.

Outro nome não me veio senão o de Daniel, que é formado em jornalismo pela UNESP e um grande amante da literatura e do cinema. É curador do cineclube da Cia Bella de Artes de Poços de Caldas e prontamente aceitou o convite e nos brindou com suas palavras. Quem quiser conhecer mais sobre ele e seus  geniais "Nanocontos", pode clicar aqui e acompanhá-lo no twitter.

George Orwell


A primeira vez que ouvi falar de George Orwell foi na extinta revista de skate Yeah!, circa 1988, em uma entrevista do vocalista do Inocentes, Clemente. Como era uma das poucas bandas punks que conhecia e ele citava o notório 1984 e Admirável Mundo Novo como seus livros favoritos, me liguei imediatamente e decorei os nomes. Pouco depois, por coincidência, li um especial na Superinteressante sobre previsões futuristas e havia uma menção a distopias, com a explicação de que se trata de um subgênero da ficção científica com viés sombrio, no qual um estado totalitário controla todos os aspectos da vida humana e elimina toda individualidade – o oposto da Utopia idealizada por Thomas Morus. O gênero tem como obras-primas justamente os livros citados por Clemente, cujos autores são respectivamente Orwell e Aldous Huxley.
Distopia é um estilo marcadamente anticomunista, no qual até a ultra-individualista Ayn Rand se aventurou. A matéria da Superinteressante citava o livro Nós, lançado pelo russo Eugene Zamiatin no calor da Revolução Russa, como o marco inaugural do gênero. Zamiatin, comunista no início do século, despachado para a Inglaterra pelo regime czarista, voltou ao seu país para ajudar a revolução, mas já com uma visão mais libertária, ficou desconfiado e lançou o inovador Nós – no qual a palavra “eu” já não fazia sentido no mundo do ditador Benfeitor. Só o li recentemente e fiquei maravilhado por ver como Orwell assumidamente copiou a história de Nós para criar uma obra, por incrível que pareça, original e superior à intensa trama literária de Zamiatin. Inglês e também com espírito anárquico, Orwell lançou 1984 em 1948. Quando lia, ainda adolescente, sentia-me literalmente na pele do protagonista Winston Smith, cometendo a enorme temeridade de cada ínfimo gesto para esconder-se em um canto de seu quarto e registrar em suas memórias a verdade histórica, pois tudo era vigiado pelas câmeras do ditador Grande Irmão. Designado para reescrever a história de acordo com os caprichos momentâneos do Estado, Smith rebela-se discretamente, mas atrai a atenção de Julia, que também tenta resistir à eliminação do livre arbítrio. Não é uma história de amor, embora a afeição entre os personagens seja tocante, mas sim um profundo tratado sobre a liberdade e a desconstrução do espírito humano pelo arbítrio ditatorial. O melhor livro que li na vida.
Orwell também escreveu A Revolução dos Bichos, outra obra marcantemente política, mais alegórica, no qual o ataque ao regime stalinista é mais evidente. Também garoto quando o li e sem tais informações sobre o contexto histórico em que foi escrito, não o entendi como necessariamente anti-esquerdista, mas sim uma denúncia de toda manipulação política, independentemente de posicionamentos ideológicos. A edição brasileira de 1984 tem um comentário de Paulo Francis, para quem, em outro artigo que li posteriormente, a importância de Orwell é muito mais política do que literária (quase o taxando de escritor mediano) por ele ter sido um denunciador do comunismo. Discordo profundamente, não só Orwell era ótimo escritor – muito superior a Francis, que era agudo como polemista conservador, mas de cuja obra literária não se consegue vencer as enfadonhas primeiras páginas – como era crítico acerbo e certeiro de qualquer tipo de totalitarismo, seja de esquerda, seja de direita. Essa impressão inicial tornou-se certeza para mim quando reli 1984 e vi a excelente adaptação cinematográfica de Michael Radford.
Por tudo isso, acho bizarro que existam “orwellianos de esquerda e direita” discutindo que rumo o escritor tomaria. Ele morreu cedo, aos 46 anos, em 1950, e teve posturas dúbias no fim da vida – opositor de Stalin, teria denunciado ao governo britânico artistas que considerava comunistas, apesar de ter sido vigiado pelo mesmo governo (por ser visto como... comunista!). No entanto, a leitura de seus livros mais convencionais e menos conhecidos, como Moinhos de Vento e O Caminho para Wigan Pier, que são bons, embora menos arrebatadores que 1984 e A Revolução dos Bichos, mostra um autor sensível e partidário de um anarquismo humanitário, contraditório por vezes e por isso mesmo mal compreendido. Uma sina não muito diferente do seu predecessor Eugene Zamiatin. Por exemplo, o escritor português João Pereira Coutinho, outro intelectual conservador, cita Zamiatin como exemplo de perseguição por parte de Stalin em um artigo sobre Maiakovski publicado na Folha de São Paulo – Maximo Gorki teria intercedido por ele e salvo sua vida -, mas desconhece ou omite que Zamiatin morreu no exílio desejando ardentemente voltar para sua terra e ajudar a implementar uma utopia de liberdade. Críticos, acertadamente, do socialismo real assassino e paranóico de Josef Stalin, Zamiatin e Orwell, podem ter certeza, não seriam entusiastas de um mundo de indivíduos reificados por corporações/instituições que controlam a vida dos funcionários por câmeras e exigem o trabalho escravo das horas-extras não remuneradas.

Daniel Souza Luz

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Saco vazio

Obra de Nelson braga Jr.

Não tem nada no pote, senhor.
Não tem vida, nem boicote.

Só carrego comigo o que sobrou:
um pouco de água e um saco de dor.

Tadeu Francisco
set/11

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Quando chega a hora

Brughel II (o jovem)
Vejo a velha
na veia
do velho.

Vejo a velha
vermelha
com o sangue
do velho.

Tadeu Francisco
set/11

Nota vazia

Obra de Joarez Filho

Menos prolongada,
não inteira:
semi breve.

Tadeu Francisco
set/11

O monstro interior

Obra de Amedeo Clemente Modigliani

Aproximou-se com sacrifício.

Andava feito um surreal cristão,
com um vestido maior e sem cortes.

Seu rabo era curto e pouco agitava.

Convalesceu benzido,
mostrando-se miragem e delírio.

Pelo rei
orei.

Tadeu Francisco
set/11

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ana crônica

"Mulher" - Di Cavalcanti
De manhã
era cama;
de tarde
era dor;
de noite
era Ana.

Coisa sem graça e rotineira.
Não estava na moda,
estava sem cor a semana inteira.
 
 
Tadeu Francisco
set/11

Imagem e correnteza

Obra de C. Monet
Ao contrário,
o rio está
contra os lados.

Contados,
faz de conta
que escorre contra.



Tadeu Francisco
set/11

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Estar


Foi olhando os seus fios de cabelo soltos pela casa,
que entendi o jeito que encontrou de estar sempre perto.

Tadeu Francisco
set/11

*Ps: Obra de autoria desconhecida.

Crescendo

Obra de C. Portinari
Cada passo,
um estilhaço.

Cada esteira,
uma beira.

Um pedaço de ameixa,
um pedaço de certeza.


Tadeu Francisco
set/11

domingo, 11 de setembro de 2011

Sem razão

Marriage of Fígaro Poster

Berros errantes...
berrantes.

Tadeu Francisco
set/11

Todos os mares

Barco-leve, obra de Zé Luis Simon

Se fiquei olhando o mar,
esperando a onda me responder,
foi pelo navio torto do cais.
Ele estava ancorado.
Não pude vê-lo;
não mais.

Tadeu Francisco
set/11

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Tênue

"Dog barking at the moon" -  Joan Miró

Para o tempo,
não há um tempo.

Tadeu Francisco
set/11

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sobre ser poeta - Ernest Hemingway

Quando eu estava na 6ª série minha professora me proibiu de ler um livro chamado "Memórias de um Cafajeste", de Carlos Imperial, que tinha acabado de pegar na biblioteca. Talvez o título tenha chamado a sua atenção. Ela tirou o livro das minhas mãos, o levou à diretoria e veio com a sentença: " Você é muito novo para ler essas coisas".

Fiquei chateado. E para compensar tamanha birra decidi cometer um crime. Em um intervalo entrei sorrateiramente na biblioteca e, escondido, peguei o livro. Caso encerrado! E sem maiores lesões à minha liberdade de ler. O livro é bom. Como eu era novo, adorei ler páginas e páginas de aventuras da  jovem guarda com drogas, mulheres e bebidas. Mas hoje acho que a adrenalina de lê-lo escondido foi o que o tornou mais interessante e bom.

Após o episódio rabisquei alguns contos a respeito do que acabara de ler. Foi quando um professor leu as minhas histórias e falou que eu precisava ser um pouco mais detalhista. "Detalhista, o quanto?" - perguntei. Esticando um livro do Ernest Hemingway (1899 - 1961), chamado "Paris é uma Festa", ele respondeu: - "Detalhista sem ser chato, como ele" - falou apontando o livro. E foi assim que "conheci" Ernest.


Ernest hemingway e Fidel Castro

Peguei o livro e comecei a ler com muita empolgação. E, diferente da maioria, comecei por este livro: "Paris é uma Festa", e não pelo best-seller "O velho e o mar", que li na sequência. "O velho e o mar" foi escrito em Cuba no início dos anos cinquenta e é incrível. A aventura ali narrada foi uma das coisas mais profundas que li na minha vida.

Detalhista sem ser chato. Isso traduz Hemingway, que, além disso, é profundo naquilo que cerca os personagens. O dom do escritor de te levar, por exemplo, às ruas de Paris e ao quarto do personagem simultaneamente, é fascinante. "Por quem os sinos dobram", "Aventuras de um homem jovem", são algumas das inúmeras obras desse belo escritor.



Fica aqui registrado o início da minha história com o senhor Hemingway, que espero levar comigo por muitos e muitos anos.

Tadeu Francisco
set/11

Nuvem

Obra de Monet

A forma da nuvem era perfeita.


Não precisou de adivinhação.
Era a mãe,
no céu.

Tadeu Francisco
set/11

Boa fé

Obra de Cândido Portinari
Fé em pé,
no alto morro.

Só tem a ralé
e sujeira nos pés.

Que fé boa
a do menino,
sem espaço e com tanto tino.

Tadeu Francisco
set/11

Perder

Obra "Homem Triste"
E aquele homem morreu
três, quatro, cinco vezes
em uma semana;
 
e de tanto morrer...
aprendeu a viver.

Tadeu Francisco
set/11