terça-feira, 31 de maio de 2011

O último poema de maio

"Jovem adormecida" de Pablo Picasso (1935).

Tal qual o dia me foi longo;
o mês me foi longe.
Tão longe,
que não pude mais tocá-lo;
tão longe,
que me levou o resto do verão;
deixando-me fria,
no chão.

Tadeu Francisco
maio/11

Como fumar?

"Caipira picando fumo" - Almeida Júnior

Descrente saúde.
Só pra ver o quanto se paga
pelos meus maços.
Pigarros valiosos.
Em tabletes estendidos
puxando o néctar
que tilinta nas suas moedas;
dos seus ouros
nos meus couros.

Tadeu Francisco
maio/11

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sobre ser sincero

VAN GOGH - "O JARDIM DO POETA" - 1888

- Você confia em mim?
- Não.
- Então tenho certeza  que não vai se decepcionar.

Tadeu Francisco
maio/11

Estética

Quadro do artista Nelson Magalhães Filho

A fome de beleza
Preparou a mesa .
Farta,  crua e fria;
sem vingança,
com franqueza.

Tadeu Francisco
maio/11

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Nobre mãe

Pintura MATERNIDADE de Almada Medeiros

De tudo que levo
o seu aconchego me basta.
- Querido anjo,
ensina-me a cuidar
do seu doce encanto.
- Querido pé,
ensina-me a nunca perder a fé.
Nobre mãe,
estilhaço da minha estrada
longa, incerta, intensa.

Tadeu Francisco
maio/11


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Letras e fel

Quadro de Vitor Farat

Parafraseando louco.
Entoando louco.
Ensandecendo mais um pouco.
Parafraseando mel,
aceite final,
fel.


Tadeu Francisco
maio/11

Dói


Você mereceu o poema,
não as flores.
Quero-te de volta,
dores.

Tadeu Francisco
maio/11

*Ps: um dos quadros mais conhecidos do mundo "Guernica" do pintor Pablo Picasso. Esse quadro foi criado para representar o bombardeio na cidade espanhola de Guernica em 1937, pelos alemães.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Nada exato

Quadro da corrente artística do Fauvismo.

É porque o sadismo da minha parte se fez.
O embate lhe prometeu
o santo, o milagre e o pranto.
Sua vez de pintar o meu paladar...
sua vez.

Tadeu Francisco
maio/11

Aquela cor

"Ruiva". Obra de Marco Antonio Moreira Boff.
Pernas torneando-me névoa.
Pés certos.
Ruiva,
minha caminhada
curta.

Tadeu Francisco
maio/11

A marcha - outro diálogo

Manifestante na marcha da maconha em SP

Chapei-me com a surra que levei.
Eu trouxe a fumaça,
você trouxe o fogo.
Marchando ao meu encontro,
soldou-me desvairado.
Preso no que chamam de estar livre;
no que chamam de estar chapado.


Tadeu Francisco
maio/11

Aproveito o tema, e publico o artigo do sempre pertinente magistrado Marcelo Semer, que saiu hoje no portal Terra Magazine. Quem quiser ler mais sobre o nosso judicário brasileiro através de uma visão garantista, crítica e descontraída, recomendo que acesse o Blog Sem Juízo, do Marcelo.

Repressão à marcha da maconha é nostalgia da ditadura*

por Marcelo Semer
De São Paulo

Diferentemente de outras cidades, como Rio de Janeiro e Porto Alegre, a Marcha da Maconha em São Paulo foi palco de uma violência e intolerância raramente vistas.

Ao que se depreende das notícias veiculadas pela imprensa, a repressão não se deu pelo uso coletivo de entorpecentes, mas pela insistência dos manifestantes em querer simplesmente se manifestar.

A substância tóxica mais consumida parece ter sido mesmo o gás lacrimogênio, disparado a granel pela polícia, como se vê nas imagens de TV.

Será que podemos dizer que defender a legalização da maconha seja mesmo uma apologia ao uso das drogas?

Se a manifestação fosse de gestantes pela não criminalização do aborto, diríamos que se se tratava de uma apologia à interrupção da gravidez?

A democracia é construída por contrastes. É natural divergir e faz parte das regras respeitar o pluralismo.

Pode ser pluralismo defender algo que hoje é ilícito?

Pois é o que os ruralistas fizeram ao pleitear mudanças no Código Florestal. Com a significativa diferença de que com a revisão do Código, busca-se expressamente a anistia para todos aqueles que já cometeram os atos ilícitos de desmatamento.

O debate quanto à descriminalização dos entorpecentes, aliás, está em pauta no mundo inteiro. Por que estaria proibido por aqui?

A democracia fica menor cada vez que uma manifestação é reprimida a bala.

Nesses momentos, é impossível não se lembrar dos anos de ditadura e as tantas passeatas que foram interrompidas na base do cassetete.

De lá para cá, todavia, uma nova Constituição foi escrita e nos acostumamos a chamá-la de cidadã, justamente por assegurar o direito à reunião, à livre manifestação sem necessidade de autorização e à liberdade de expressão sem censura prévia.

Nada disso parece ter comovido as autoridades paulistas.

A nostalgia da repressão chega, curiosamente, em um momento de despertar da cidadania, em sua acepção mais legítima.

Estamos no limiar da construção de uma nova política, ainda que não saibamos exatamente qual será ela.

As redes sociais aproximam as pessoas de tal forma, que não estão mais sendo necessárias lideranças para convocar ou promover manifestações, suprindo, para o bem ou para o mal, uma enorme crise do sistema representativo, que atinge governos e oposições.

Os exemplos da Praça Tahir, e de vários outros pontos pelos quais sopraram os ventos da primavera árabe, mostraram a velocidade da disseminação nas redes sociais, e sua enorme influência na capacidade de mobilização. O Egito derrubou um ditador de décadas, sem um único líder governando as massas.

Até São Paulo provou um pouco dessa nova espontaneidade, com o churrasco da 'gente diferenciada'. Marcado por um convite no Facebook, agregou em cascata centenas de pessoas indignadas com o preconceito como motor de recusa a uma estação de Metrô.

Desde o dia 15 de maio, mais de uma centena de praças espanholas estão repletas de jovens, de desempregados e de aposentados, clamando por uma democracia real, que não os exclua das riquezas do país e não os marginalize nas decisões.

Reuniram-se sem líderes e sem partidos e passaram a cobrar perspectivas que a Espanha vem lhes negando: "Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir", dizem em um de seus mais repetidos slogans.

Dá pra pensar na nostalgia dos anos de chumbo?

Não há espaço nesse admirável mundo novo para uma democracia que interdite o debate, um Estado que decida apenas ouvindo suas elites, uma política que sirva para o enriquecimento de seus burocratas, e juízes que se estabelecem como censores.

Alguma coisa está fora da ordem e isso não é necessariamente ruim.

*Publicação autorizada

Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Expansão - todo som - parte II

Quadro "Festa Junina" Cândido Portinari - 1741

- E o meu desafino ecoou.
Tire o som.
Tá vendo?
Afinou.

Tadeu Francisco
maio/11

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Todo som

Dancei diante dos seus olhos,
em três passos;
três caras dispostas.
E no som daquela valsa
toquei seus pés.
Começamos,
assim,
o final.

Tadeu Francisco
maio/11

Atenção em verso

obra de Ana Meireles - quadro a óleo sobre acrílico.

Cara, focinho, corisco.
Cada corrida
um trejeito,
um belisco.

Tadeu Francisco
maio/11

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dialética do erro

Quadro "Gafieira" de Di Cavalcanti.
Com
valor.
Sem
pudor.
Calor,
com vigor;
só,
amor.

Tadeu Francisco
maio/11

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Divisão

Obra de Pablo Picasso
E como houve tristeza
reparti alegria.
Uma pra você,
outra pra mim.
Saí
dividido.

Tadeu Francisco
maio/11

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Seja rápido

Portanto serei breve.
Permita-me?
Fui
por
tantos.

Tadeu Francisco
maio/11






*Ps: tela 80x1.00 "multidão"

terça-feira, 17 de maio de 2011

Harmoniosamente social

Quadro do paulista José Cordeiro (1980).
Em cada canto,
um canto.

Tadeu Francisco
maio/11


Um aprendiz


O que se viu de fora,
na escola,
foi a bela moça maliciosa,
letrada.
O que se viu por dentro,
foi ela também;
ingênua,
lenta.

Tadeu Francisco
maio/11
*Ps: pintura à óleo de Diva do Val Golfieri.

Companhia


Hoje foi dia,
noite,
tarde.
Hoje foi você;
sem alarde.

Tadeu Francisco
maio/11
*Ps: quadro de Di Cavalcanti, "Ilha de Paquetá".

segunda-feira, 16 de maio de 2011

De um outro jeito


Eu fico com Maria,
como um rolo
quando tia.
Eu fico com Maria,
como um tolo
quando via...
quando rua.

Tadeu Francisco
maio/11
*Ps: quadro "Marie-Thérèse Walter", pintado por Picasso, que foi leiloado por US$ 40,7 milhões em Londres.

Aviso

Caros leitores,
o servidor voltou ao normal.
Recuperei alguns posts e já os recoloquei no blog.
Desculpe o transtorno.
Enfim, de volta com a programação.

Tadeu Francisco

A velha estante


Pouco sabia guardar.
Ah, velha estante!
Parei pra assistir...
e lá se foi meu instante.

Tadeu Francisco
maio/11

Amor de primavera


Despeço-me das flores
morto em pétalas.
Foi-me em vão o leve frio
na minha manta de repouso;
de lã.
Quero-te cor,
aroma,
flor.
Quero-te uma estação,
quero-te primavera.

Tadeu Francisco
maio/11
*Ps: quadro "Primavera" de Tarsila do Amaral.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Aviso aos leitores

Caros leitores, infelizmente o servidor deste blog (Blogger) permaneceu indisponível desde ontem, razão pela qual não houve atualização.
Se não bastasse, sumiram alguns posts que publiquei este mês. Como estou viajando, não conseguirei recolocá-los até segunda-feira.
Pelo menos agora, enfim, consigo acessar minha conta.
Do mais, continue a saga pelos meus fragmentos e meus pontos.
É sempre um prazer ter vocês por perto!

Tadeu Francisco

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Oriente, (ex) poente.


Quando o japonês é igual
não entendo o tiro certeiro;
um é bom;
o outro é mau.
Nada igual.

Tadeu Francisco
maio/11

*Ps: quadro "Sol poente" de Tarsila do Amaral (1929).

terça-feira, 10 de maio de 2011

(de) esquerda

 
Pelegos,
relevos,
gracejos;
ora,
não sabe endireitar-me?
Não é pra ser,
sou esquerda;
assim soo.

Tadeu Francisco
maio/11

*Ps: Quadro "O ouro do azul", 1967, Juan Miró (Espanha, 1893 – 1983).

O leitor - um diálogo sobre a morte


Poucas páginas para o fim.
Apreciando cada ponta de tinta,
lamento o fim da linha.
O livro ainda está inteiro,
no começo,
já eu...

Tadeu Francisco
maio/11
*Ps: Obra de Rodrigo Silva, que você pode conhecer mais clicando aqui.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Os ama


Submundo pintado nas muralhas.
Uma estranha arte do pó,
que renega seus filhos:
a não violência em meio ao calor.
Um direito sem proporção, de exposição.
Humanos?
Simples desumanos,
tais quais os que escrevem o terror
em seus livros de receita.
Saboreie.
-Próximo!

Tadeu Francisco
maio/11





*Ps: Obra "barack Obama" de Rodrigo Silva, que você pode conhecer mais clicando aqui.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Homem com homem. Mulher com mulher.

Deixo aqui uma singela homenagem aos leitores gays e lésbicas pela vitória alcançada ontem no Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a união estável homoafetiva. O amor supera a lei; sempre:


E quem falou que preciso da faca sem ponta?
O corte me interessa mais;
subindo a serra;
perfurando o caminho.
Não interessa o resto,
sejam galinhas,
sejam porcos.
Vou por cima,
pelos céus.

Tadeu Francisco
maio/11

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Quanto valho?


Tenro em valores,
cotou-me.
No tilintar das moedas,
sou seu troco.

Tadeu Francisco
maio/11

*Ps: quadro The Money Changer, de REMBRANDT (1626).

Saber correr

Sinto a demora,
espero.
Sinto esperar,
demoro.
Sinto,
espero,
apresso-me.

Tadeu Francisco
maio/11
*Ps: quadro - Gustave Courbet.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Duo


Cada casal
virando dois.
Cada questão
virando três.
Cada lado,
virado.
Coisificando a relação;
tapados.

Tadeu Francisco
maio/11
*Ps: quadro "Amante" de Pablo Picasso.

Dia do trabalho - uma crise



Trabalho no mato
em torno do céu.
Às vezes sozinho em prantos,
Menino nos cantos.
Tampouco passarinho,
quiçá toda terra.
Homem queimado
em aba e chapéu.


Tadeu Francisco
mai/11