segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sobre ser poeta - Fernando Pessoa

Juntamente com Clarice Lispector e Cecília Meireles, Fernando Pessoa é um dos poetas mais sugeridos na minha caixa de email para esta série. Relutei um pouco em escrever sobre ele, porque tenho medo de não demonstrar a grandeza que atingiu na literatura mundial (ouso dizer). 

Fernando Pessoa foi o primeiro poeta que me inspirou a ser escritor, instigando-me em dois passos. Primeiro, porque fui tendo a sensação peculiar de que poderia alcançar tudo que desejasse, criar mundos e fantasias, ser eternamente feliz. Segundo, em contrapartida, porque amadureci e aprendi que não é bem assim. Quando começamos a escrever, a despertar o poeta adormecido, o que acontece de fato é o caminho inverso. Nossas dores se  acentuam e a dor do outro se torna a nossa.

Os dizeres de Pessoa possuem vida própria. Quando lemos seu poemas, de pronto reconhecemos a autoria e já sentimos escorrer as mesmas lágrimas que escorreram nos seus olhos quando da criação.

Por Fernando Pessoa tive vontade de viver no início do século, só para enchê-lo de perguntas sobre tantos mistérios que encontro em seus versos; mistérios que, de tão escancarados e diretos, deixam a minha cabeça desesperadamente inquieta. Fernando era único, mesmo assinando como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro; seus heterônimos. Pessoa morreu em 1935 e sobre seu possível epitáfio, deixou alguns dizeres em meados de 1900:

Se depois de eu morrer, 
quiserem escrever a minha biografia, 
não há nada mais simples. 
Tem só duas datas,
a da minha nascença 
e a da minha morte. 
Entre uma e outra 
todos os dias são meus.
Como Alberto Caeiro.

Creio que Fernando queria ser vários, queria ser o mundo. Escreveu sobre todos os tipos de emoções e não tinha um foco específico, o que lhe dá méritos por ser bom em qualquer tema inerente ao ser humano. Não por menos, nos deixou um dos maiores poemas, na minha opinião, quando escreveu:


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente. 
                                                                      Fernando Pessoa; Autopsicografia

Algo que me incomoda sobre a literatura de Fernando Pessoa é o desleixo, às vezes, presente nas escolas, pelo menos com as que tive contato. Parece que quanto mais se repete um poeta, sem dar a devida atenção às suas obras, ele se torna comum e vazio. Fazendo um breve diagnóstico, após alguns trabalhos em diversas escolas, cheguei a uma conclusão triste: a maiorias dos professores e professoras não lêem poesias que supostamente ensinam aos alunos.

Como consta da grade curricular, eles repassam aos alunos tal como lhes foi passado, meramente em material; o que empobrece o artista, salvo exceções. Só sei que quando você, em primeiro lugar, não se convence de algo, dificilmente convencerá terceiros. E com Pessoa acontece isso. Ele acabou virando um escritor para não leitores. É uma espécie de fenômeno que acontece com os livros da moda, que tanto vendem. Temos uma maioria de não leitores em nosso país, lê-se leitores eventuais. E são eles que compram as obras que estão em voga. Tirando algo bom disso tudo, temos um Fernando Pessoa para todos os gostos. Para os leitores assíduos de obras complexas e profundas, e para os leitores esporádicos, que se esbaldam ao citar frases de poetas sem um encaixe no contexto.

O vídeo abaixo é uma interpretação visual do poema de Fernando Pessoa na Voz de Paulo Autran:



Tadeu Francisco
nov/11

4 comentários:

  1. Lindo, amor!
    Descricao perfeita.
    Sua inteligencia e sensibilidade tornam sua escrita rica e peculiar.

    PS: perdoe a falta de acentos, o teclado esta desconfigurado.

    Beijos!!! ;)

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  2. Gostei do seu jeito de escrever sobre o Fernando Pessoa, Tadeu. Você demonstra admiração sincera, sem esnobismos de crítico literário. Não conhecia esse vídeo com o Poema em Linha Reta, mas sou fã das interpretações do Paulo Autran. Abraço!

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  3. Que bom que gostou, Carla. Realmente é uma admiração sincera e nada técnica. É o sentir mesmo. Obrigado pela sempre presença.

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  4. Que bom você por aqui, amor. E que possamos ser mais Pessoa com esse grande escritor.

    beijoss

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