quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Sobre ser poeta - Jack Kerouac

Pela segunda vez (espero que de várias) a série "Sobre ser poeta" conta com uma participação especial.

A primeira vez foi sobre George Orwell, que o amigo e brilhante jornalista Daniel Souza Luz se encarregou de nos apresentar. 

Para a série de hoje, convidei uma escritora que conheci ao acaso - e feliz hora - no twitter, que sempre me brinda com as suas palavras no blog de sua autoria, Noites de outros dias, chamada Darla Medeiros. Darla, além de escritora, é professora, o que torna a sua presença por aqui ainda mais digna. Assim como nós, uma amante das palavras. Convido-lhes a conhecer mais o seu trabalho; vão se encantar.

A escolha de Jack Kerouac para a série advém de alguns pedidos, não muitos, mas alguns. Confesso que li pouco de sua obra, e não seria honesta qualquer palavra minha a respeito desse escritor. Após ler o texto de Darla, fui chamado a conhecer mais a sua vida e obra, creio que terão a mesma sensação.

O vídeo é um trecho do documentário "The Sorce", e traz algumas imagens do Kerouac. A trilha é de Mike Westbrook

Boa leitura.


Jack Kerouac 
(por Darla Medeiros)

           
E mais um pisciano vinha ao mundo em 12 de março de 1922. Seu nome? Jean-Louis Lebris Kerouac. 

Para os muitos amantes de literatura que se perderiam em suas obras futuramente, simplesmente Jack Kerouak. Da infância conservadora apegada à figura materna, ao futebol americano e à Marinha Mercante: um caminho. Das andanças e experiências com os amigos da Universidade de Columbia: uma inspiração. No intenso convívio com Neal Cassady: uma amizade. Jack Kerouac... Um homem de bases conservadoras que se vê em meio às próprias vivências, experiências e escrita sendo considerado o ‘papa’ do movimento literário beat... 

A figura do escritor tornou-se progressivamente mais pública nas décadas de 50 e 60, e o poeta, aos poucos, fechou-se ainda mais em seu mundo. Perguntas: eternas perguntas que movem o mundo. Buscou, muitas vezes, Jack Kerouac libertar o amor em casamentos que fracassaram rápido demais.  Nas entorpecências e nas fugas, o poeta buscou nas drogas um universo paralelo. 

Kerouac e Neal Cassady
Inspirou-se em muitos de seus escritos, pelos amores e imagens que marcaram as tantas viagens feitas ao lado de Neal. Inspirou-se a tantos outros nos momentos em que a benzedrina e os anestésicos faziam o seu pensamento agir em sensações e palavras peculiares. Allen Ginsberg, amigo de Kerouac nesse período, dizia admirar-se da capacidade do poeta em escrever, mesmo sob o efeito de tóxicos. 

Apesar de tantos escritos como “The Town and the City”, “Tristessa, “Os subterrâneos” e outros, as marcas maiores de Kerouac foram “On the Road” e “The Dharma Bums”. Para os hippies que embalavam um movimento cultural forte para além das fronteiras norte-americanas, “On the Road”passou a ser um espécie de ‘bíblia’ da vivênvia por eles adotada. Mas, com a fama veio o isolamento e a vida teceu seus imprevisíveis fios. Em meio a um movimento à frente de seu tempo e à proposta de liberdade cantada em hinos e proferida pela literatura, o homem que fazia fama só queria o isolamento. Períodos e períodos solitários houveram, em que Kerouac apenas se permitia estar acompanhado de uma garrafa de qualquer bebida alcoólica. E o homem que todos julgavam mais forte e mais frio do que realmente o era, pelos amigos era visto com a sensibilidade com que manifestava seus segredos em escritos. E o homem que sempre quis ser o observador ao invés do observado retornou à casa materna. O corpo já era velho, no homem ainda jovem...

Em outubro de 1969, a cirrose cobrava o preço de uma vida curta e desregrada, marcada pelo consumo exacerbado de álcool e drogas e por períodos contínuos e extensos de escrita exaustiva, em busca de um algo a mais que aqui não se ousa questionar. Resta, hoje, a lembrança dos rolos de material escrito em papel manteiga, para evitar a necessidade de virar páginas. Resta aos amantes da obra, os sentimentos e segredos de um homem intenso, sem vírgulas, pontos, interrupções, parágrafos ou convenções ( para a perplexidade e fascínio de muitos). 

 Poeta, pintor, novelista... Como diria Nietzsche “Humano, demasiado humano”. A obra de Kerouac é um diário de bordo da viagem pelas estradas de uma vida, uma caixa de segredos, uma pandora literária, luz e sombra dentro em si. Nas linhas torrenciais, a intensidade das palavras e sentidos cai como a gota de um universo paralelo sobre nós. Um mundo em que as aparências são desconstruídas e as sombras são projetadas sem pressa, mas com cada verdade que as constrói, nem que seja ela apenas o ponto de vista de quem o escreve.  Os escritos de Kerouac lêem a alma do leitor e, talvez, retratem o próprio interior do interior do poeta-homem-novelista-pintor... Na obra dele as misérias humanas estão confortavelmente brindando no bar da esquina e não envergonham-se de serem misérias e nem de serem humanas e o homem também não se envergonha delas. E é citando Kerouac que encerro este tratado sobre ele.

“E você tem existido para sempre, e vai existir para sempre, e todas as pancadas do teu pé cansado nas portas inocentes do armário foram apenas o Vazio fingindo ser um homem que fingia não conhecer o Vazio”.



Darla Medeiros

5 comentários:

  1. Estou acostumada a ver a Darla em Outro formato de texto, mas confesso que até me inspirei a ler o tal Kerouac. Essa moça é fera.

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  2. Gostei da proposta de arte de seu blog, Tadeu. Como sempre apaixono-me pela sua escrita, Darla. E pensar que um dia sugeri-lhe Kerouac. Acho que plantei uma boa semente. E cada vez que leio você no Noites de Outros Dias ou em outros espaços tenho a certeza de que os frutos estão amadurecendo sempre mais. Abraços!

    Prof. José Antônio

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  3. Líbia e Prof., sem dúvida a Darla só veio somar junto ao blog. Sejam sempre bem vindos por aqui. Abraços.

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  4. Agradeço aqui, publicamente o espaço e o convite, Tadeu. E aos amigos de sempre que acompanham o http://noitesdeoutrosdias1.blogspot.com/ e que deixaram por aqui seus comentários a sempre sincera gratidão que lhes dedico.

    @NoiteDeOutroDia

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