sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Sobre ser poeta - George Orwell

Primeiramente, quero agradecer ao amigo jornalista Daniel Souza Luz por ser o responsável pela série dessa semana.

Recebi vários e-mails sugerindo a série com George Orwell e, como não quero ser injusto com o leitor, decidi convidar alguém para falar sobre George com mais propriedade, já que não tenho muita intimidade com as suas obras.

Outro nome não me veio senão o de Daniel, que é formado em jornalismo pela UNESP e um grande amante da literatura e do cinema. É curador do cineclube da Cia Bella de Artes de Poços de Caldas e prontamente aceitou o convite e nos brindou com suas palavras. Quem quiser conhecer mais sobre ele e seus  geniais "Nanocontos", pode clicar aqui e acompanhá-lo no twitter.

George Orwell


A primeira vez que ouvi falar de George Orwell foi na extinta revista de skate Yeah!, circa 1988, em uma entrevista do vocalista do Inocentes, Clemente. Como era uma das poucas bandas punks que conhecia e ele citava o notório 1984 e Admirável Mundo Novo como seus livros favoritos, me liguei imediatamente e decorei os nomes. Pouco depois, por coincidência, li um especial na Superinteressante sobre previsões futuristas e havia uma menção a distopias, com a explicação de que se trata de um subgênero da ficção científica com viés sombrio, no qual um estado totalitário controla todos os aspectos da vida humana e elimina toda individualidade – o oposto da Utopia idealizada por Thomas Morus. O gênero tem como obras-primas justamente os livros citados por Clemente, cujos autores são respectivamente Orwell e Aldous Huxley.
Distopia é um estilo marcadamente anticomunista, no qual até a ultra-individualista Ayn Rand se aventurou. A matéria da Superinteressante citava o livro Nós, lançado pelo russo Eugene Zamiatin no calor da Revolução Russa, como o marco inaugural do gênero. Zamiatin, comunista no início do século, despachado para a Inglaterra pelo regime czarista, voltou ao seu país para ajudar a revolução, mas já com uma visão mais libertária, ficou desconfiado e lançou o inovador Nós – no qual a palavra “eu” já não fazia sentido no mundo do ditador Benfeitor. Só o li recentemente e fiquei maravilhado por ver como Orwell assumidamente copiou a história de Nós para criar uma obra, por incrível que pareça, original e superior à intensa trama literária de Zamiatin. Inglês e também com espírito anárquico, Orwell lançou 1984 em 1948. Quando lia, ainda adolescente, sentia-me literalmente na pele do protagonista Winston Smith, cometendo a enorme temeridade de cada ínfimo gesto para esconder-se em um canto de seu quarto e registrar em suas memórias a verdade histórica, pois tudo era vigiado pelas câmeras do ditador Grande Irmão. Designado para reescrever a história de acordo com os caprichos momentâneos do Estado, Smith rebela-se discretamente, mas atrai a atenção de Julia, que também tenta resistir à eliminação do livre arbítrio. Não é uma história de amor, embora a afeição entre os personagens seja tocante, mas sim um profundo tratado sobre a liberdade e a desconstrução do espírito humano pelo arbítrio ditatorial. O melhor livro que li na vida.
Orwell também escreveu A Revolução dos Bichos, outra obra marcantemente política, mais alegórica, no qual o ataque ao regime stalinista é mais evidente. Também garoto quando o li e sem tais informações sobre o contexto histórico em que foi escrito, não o entendi como necessariamente anti-esquerdista, mas sim uma denúncia de toda manipulação política, independentemente de posicionamentos ideológicos. A edição brasileira de 1984 tem um comentário de Paulo Francis, para quem, em outro artigo que li posteriormente, a importância de Orwell é muito mais política do que literária (quase o taxando de escritor mediano) por ele ter sido um denunciador do comunismo. Discordo profundamente, não só Orwell era ótimo escritor – muito superior a Francis, que era agudo como polemista conservador, mas de cuja obra literária não se consegue vencer as enfadonhas primeiras páginas – como era crítico acerbo e certeiro de qualquer tipo de totalitarismo, seja de esquerda, seja de direita. Essa impressão inicial tornou-se certeza para mim quando reli 1984 e vi a excelente adaptação cinematográfica de Michael Radford.
Por tudo isso, acho bizarro que existam “orwellianos de esquerda e direita” discutindo que rumo o escritor tomaria. Ele morreu cedo, aos 46 anos, em 1950, e teve posturas dúbias no fim da vida – opositor de Stalin, teria denunciado ao governo britânico artistas que considerava comunistas, apesar de ter sido vigiado pelo mesmo governo (por ser visto como... comunista!). No entanto, a leitura de seus livros mais convencionais e menos conhecidos, como Moinhos de Vento e O Caminho para Wigan Pier, que são bons, embora menos arrebatadores que 1984 e A Revolução dos Bichos, mostra um autor sensível e partidário de um anarquismo humanitário, contraditório por vezes e por isso mesmo mal compreendido. Uma sina não muito diferente do seu predecessor Eugene Zamiatin. Por exemplo, o escritor português João Pereira Coutinho, outro intelectual conservador, cita Zamiatin como exemplo de perseguição por parte de Stalin em um artigo sobre Maiakovski publicado na Folha de São Paulo – Maximo Gorki teria intercedido por ele e salvo sua vida -, mas desconhece ou omite que Zamiatin morreu no exílio desejando ardentemente voltar para sua terra e ajudar a implementar uma utopia de liberdade. Críticos, acertadamente, do socialismo real assassino e paranóico de Josef Stalin, Zamiatin e Orwell, podem ter certeza, não seriam entusiastas de um mundo de indivíduos reificados por corporações/instituições que controlam a vida dos funcionários por câmeras e exigem o trabalho escravo das horas-extras não remuneradas.

Daniel Souza Luz

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