segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Crônica VI

O homem que me pediu pão



O velho barrigudo, de olhos azuis, sabia ser banguela.

Pode parecer estranho, mas ser banguela é uma coisa que tem que saber ser; ele sabia.

Devorei sua história de vida em doze minutos. Fiquei sabendo que sua filha e esposa obesa queriam comida; estavam famintas.

Coração mole que sou, não resisti, entrei na primeira padaria que vi e comprei alguns pães para o homem, três, pra ser exato. Um para cada um.

Ele me esperou do lado de fora. Como eu não trazia dinheiro no bolso, mandei marcar.

Entreguei a sacola e ele aquiesceu agradecido. Resistiu um pouco, pois, segundo ele, preferia trabalho.

Solitário, questionei a veracidade de tudo aquilo, em um âmago preconceituoso. Mas por qual razão um homem, apesar de banguela, bem trajado e de fala correta, pediria um pão?

Quando ele se foi, o sondei no canto da  rua.

Não vi nenhuma mulher. 

Não vi nenhuma filha.

Sozinho, ele comeu os três pães.

Tadeu Francisco
ago/11

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