terça-feira, 19 de julho de 2011

Crônica V

O palestrante

David Brown - caricatura de Joan Miró
A oratória se dissolvia em um tema chato, algo relativo à física quântica misturada com alguns embalos de ondas magnéticas ressonantes. A voz velha do orador – professor renomado - transpassava o ar e chegava com intensidade aos ouvidos dos atentos; em martírio, em chiado. A mesa era composta por colegas desinteressados e bajuladores, nada digno de nota.
O rapaz ao fundo incomodava. Atrapalhava a palestra, os vizinhos e o palestrante. Bem vestido, fedia a cachaça. Suava, gesticulava, sorria.
O nobre professor, com um leve mexer das mãos, soube fazer chegar ao presidente da noite um sinal autorizando a retirada daquele rapaz embriagado. O malogrado público deixava escapar risadinhas, que encorajavam o meliante bêbado.
Mal sabia o nobre palestrante que o tema muito inquietava a cabeça do inoportuno rapaz. Misturado em sanidade e consciência, mesmo embriagado, imaginava-se em um grande filme americano defendendo com bravura as intermitências e balelas dissertadas pelo professor; contrárias à sua crença.
Com muita classe, o presidente da mesa autorizou a intervenção ao chato etílico e deselegante, que já berrava, aos fundos, trechos desconcertantes de alguma obra da doutrina física.
Um baixinho rapaz, acompanhado de um peito estufado e um arregaçar de mangas, feito um vagão descarrilado, foi o eleito para conversar com o dissonante chato. Tal foi a surpresa quando os dois metros e doze do bêbado se apresentaram. O pequeno homem, após alguns tropeços para trás de medo, continuou o martírio da sua caminhada rumo ao atrapalhado, fazendo cara de mau - mas amedrontado no âmago – de modo que o público não percebesse seu receio; pois muita gente o admirava em tamanha coragem.
Com uma tentativa de suborno pessoal, e por questão de honra, o apaziguador machão não se deteve e, com um breve cochichar, fazendo cara de poucos amigos, a mesma que ficaria no imaginário da plateia, foi incisivo ao falar bem baixinho:
- Está quente aqui, não?
Mal sabia o público que o pacificador apenas falava reles palavras sobre o tempo, enquanto, fazendo tipo, gesticulava para a porta dando a entender uma falsa fúria e ordem. O bêbado ouviu a pergunta sem nada entender. Ficou ainda mais insano por não entender nada que o baixinho estava falando. Olhou desajeitado pro homem do tempo e gargalhou freneticamente. A plateia ficou séria.
Coitado do homenzinho, humilhado e freado na tentativa pacífica. Assustado e recatado, deu passos para trás, não se dando conta da imensa janela de vidro que estava aberta logo atrás. Estatelou-se no chão.
O palestrante desconcertado, não imaginou que a sua oratória seria alvo de tamanha desgraça. Pigarreou alto querendo chamar atenção de todos, foi em vão. O público se focava lá para baixo, no desengonçado pigmeu estatelado. O orador não se conteve, e quando do esvaziamento da plateia, passou a gritar o assunto, ignorando completamente o ocorrido com o baixinho.
O bêbado ainda prestava atenção, o único, e já se sentia naturalmente são ante a queda do pequeno homem, que, todo quebrado, mal gesticulava. Passaram-se três longos minutos até um menino de Deus descer as escadas para acudi-lo. Todos desceram até o térreo. Fizeram uma roda quase perfeita em torno do corpo do pequeno. Apenas o bêbado permaneceu firme na palestra, e ousou se sentar bem na frente.
O palestrante não parou de falar, mas o fazia em tom fúnebre. Sentou-se no palco e, ainda aos berros, em meio às lágrimas, começou a concluir todo o seu tratado quântico.
Concluiu infeliz.
O tempo se esgotou, o palestrante agradeceu a presença do embriagado compenetrado, que levantou e o aplaudiu por longos 40 segundos.
Entre palmas descompassadas e nada harmônicas, a sirene da ambulância fez coro e abafou a empolgação do bêbado.
O baixote foi levado ao hospital e o palestrante decidiu pagar uma dose a seu único ouvinte.
Na maca do hospital, o pequeno homem nada entendia, mas ainda serrava os punhos pronto para uma briga.
Entre soros e soluções médicas, no dia seguinte, eis que o baixote abre o olho e encontra alguns notáveis, dentre familiares e o dono do hospital, que foi o único a perguntar:
- Tudo bem, amigo?
Ante a aquiescência do pequeno, fechou a questão:
-Desculpe-me por ontem na palestra. Bebi demais!

Tadeu Francisco
dez/10

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