terça-feira, 30 de novembro de 2010

Folhear

Encontrei à deriva a capa que me sugeria você,
inanimada e estática.
Abri.
Folheei por dentro;
te encontrei;
nos movemos.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Esmiuçando a chuva

Com os braços despertos
molhava-se em cansaço.
Não mais coberto,
numa espécie de efeito tardio do ópio,
transcrito em sensibilidade,
abria seu peito ao mundo.
Momento errado.
Nenhum transeunte passava.
Chovia forte.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Atiradores da elite


Não me via mais em arte ou subúrbio.
Era só para ser um papo sobre maconha, Rio de Janeiro e futebol.
Restou ao Estado da elite atrapalhar a nossa conversa fiada.
Incrível como os atiradores parecem conseguir de tudo,
menos tirar as dores.
Sonorizei-me com dois tipos gemidos:
o de prazer,
gerado pelo orgasmo coletivo dos apresentadores televisivos.
O de dor,
que dói.

Tadeu Francisco
Nov/2010


* A charge acima é do genial Carlos Latuff, que foi disponibilizada em seu twitter. Mais do seu trabalho pode ser encontrado aqui.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O livro e a moça

Quando a encontrou estava nua.
Logo se tornou imbatível
e menos crua.
Foi despida pelas letras
e vestida por elas.
Uma troca e duas razões.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Inacabado

Por eu não ser pronto,
perco-me nas ideias prontas;
e ponto.

Tadeu Francisco
Nov/2010

O leito da morte

Foi a primeira vez que a viu, não a única.
A pele cheirava flores;
gadanha afiada.
Nunca a senhora morte lhe foi tão íntima,
necessária.
Agarrou-a com força.
Mas a dona não quis saber;
lhe escapou pelos dedos,
viva. Viva!

Tadeu Francisco
Nov/2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A resposta

Estava no dia da resposta chegar.
Ouviu o assovio distante e dissonante do carteiro.
Viu as cartas,
eram tantas.
Não se conteve:
tropeçou, ofegou, machucou.
Pagou caro,
eram contas.

Tadeu Francisco
Nov/10

Entendendo chocolates

E lá na minha infância, perdido em meados de algum ano de data irrelevante, sonhava em comer chocolate todos os dias quando me tornasse adulto.

Agora percebo que, chocolates, só traduziam o que eu não sabia chamar de felicidade.

Tadeu Francisco
Maio/10




*Imagem extraída do filme "A fantástica fábrica de chocolate" do Tim Burton, que inspirou, também, o poema "Consumismo fantástico".

Consumismo fantástico


Era livre para escolher a cor.
Anos de luta para que pudesse ter.
Por que não escolhia não ter?

Tadeu Francisco
nov/2010

Litígio em família

Não queria a ação.
Queria bagunça, desassossego, tirar o sono.
Do céu ao inferno em um protocolo;
penhorou seu irmão;
perdeu a razão.

Tadeu Francisco
Nov/2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Chão batido

Quando o suor desceu pelo seu peito
conseguiu demonstrar seu esforço.
Elas precisavam ver o desespero escorrer,
mesmo em seca.
A imagem só era vendida se fosse suja,
se tivesse terra.
Não deixou a poeira para trás,
o pó ficou para frente, rente.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Prazo

Posso pedir?
Estou em tempo?
- Tempo, tempo!

Tadeu Francisco
Nov/2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A bengala


É majestosa.
Gosta de ser de madeira e não entende a de alumínio.
Como brilha?
Machuca com orgulho seus pés de apoio em respeito ao chefe.
Lamenta-se por perder a melhor parte,
afinal, nunca vai ao interior da festa.
Fica estática no dorso da porta de entrada;
olhando a parede e esperando a saída.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Menor infrator


Como companhia só o crak matinal.
Iniciou cedo e acabou nos catorze.
Um pequeno órfão com a mãe viva,
em pancadas maiores,
morreu invisível,
sem tempo,
menor.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Os circuitos curtos

Fadado, nasceu eletrônico.
Longos circuitos e cimentos,
nada concreto.
Soube alterar a natureza
deixando-a morta,
sem choque,
chocada.

Tadeu Francisco
Nov/2010

*Apresento neste post a parceria com o designer e amigo Rodrigo Silva, autor da arte-imagem acima.

A deusa no divã


Respondo inocente,
ledo engano.
É análise.
Tola, entrego a senha da invasão.
Descobre-me toda.
Estou na sua mão.

Tadeu Francisco
Nov/2010.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Olê, mulher rendeira

Fito a mulher rendeira,
desprovida de renda,
rendendo-se...
Arme-se com os panos,
entoados retalhos,
finos pedaços,
precisos encantos.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Sobremesa

Sobre a mesa,
nossa vida inteira em algumas notas.
Dedilho,
ora suave, ora veloz.
Sei que irá ouvir;
que irá cantar;
que irá saber.
Não é mais uma música;
é você nos acordes,
sem cortes.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Paciência


Um estranho relógio que tictaqueava seu ócio.
Corria pelas paredes com as pernas largas.
Ela aguardava.
Não ligava para o marcador andante.
Afinal, emburrada, só queria ser chamada;
nada mais lhe importava.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Perfume



Laça-me os olhos.
Aspiro.
Ainda assim lhe reconheço.
Penso nos sentidos apurados
e me vejo em apuros,
sem sentido.

Tadeu Francisco
Nov/2010


*Poema baseado no filme "O perfume - história de um assassino".

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O vestibular

Estuda, lê, cansa.
Desdenha a linha do profeta,
arrisca o x bem forte,
em questão.
Passa, crê, dança.

Tadeu Francisco
Nov/2010



*Poema feito para a minha queria cunhada Sofia. Parabéns!

O homem sereno


No meio do sereno
parte dele escorria névoa,
olhos negros marejados.
Outra banda, vendaval.
Na feição estava sereno,
igual.

Tadeu Francisco
Nov/2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Amo

Toca forte quem sabe olhar.
Imerso em silêncio, sucesso e presença.
Afogo-me.
Percebo de longe e não entendo;
amo.

Tadeu Francisco
Nov/10

O escritor

A ficção é pura e crua;
nua, só aqui no meu lápis.
Não tem tim tim por tim tim.
Perco-me em um leve pensar,
preocupante.
Levanto, ensaio, saio.
Eternizo-me nas letras;
não sangro mais,
pois agora sou papel.
Deixo de ser meu para ser de todos.
Aumento a dor,
alargo o sorriso,
arrisco uma lágrima.
Acalmo-me.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Chapéu - um conto

Pega o terno engomado,
em prantos e pele,
com sua roupa impecável e aroma agradável.
Todas o amam.
Só carrega consigo um pequeno defeito:
seu inseparável chapéu panamá,
que está furado,
culpa do maldito cigarro esquecido.
Decora a voz grossa,
ajeita os trejeitos,
pega o buquê.
Ela dá adeus.
Ele, triste, chora aos céus.
E assim vai embora a
linda mulher apaixonada por chapéus.

Tadeu Francisco
Nov/2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Medo


Recalco perdido nas suas dimensões.
Estava linda com seu jeito de ser ela.
Olhava para as molduras reluzentes.
Sabia ser mansa por fora
e tempestade  por dentro.
O que ela tinha afinal?
Tinha um jeito normal de se esconder nos medos.
Normal lá,
não aqui.
Encorajada se enfrentou.
O medo diminuiu,
virou história.
As páginas,
viraram glória.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Prazer em conhecer

Paro de andar por um segundo,
mísero.
Levo e trago.
Poso como o irmão do meio.
Não mais novo,
sequer maduro.
Sou filho,
confuso e único.

Tadeu Francisco
Nov/2010


*Foto tirada em março/2010 no centro de Curitiba/PR.

Tristeza


Sei que a tristeza
nunca é menos beleza.
É só tristeza,
que passa,
que volta,
que meia,
que bate;
inteira.



Tadeu Francisco
nov/2010

Gota

Foi pingando que não se deu conta.
Pingava sem pressa, em gotas.
Não sabia guardar a chuva;
sabia se guardar,
pingando,
entre esgotos e gotas,
esgotando.

Tadeu Francisco
Nov/2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Frustrado

Tentou ser esperto;
não chegou nem perto.
Desperto, ficou longe.
Negaram-lhe dinheiro,
assim ganhou um status:
ladrão frustrado.
Sem tino, funesto,
a contragosto,
honesto.


Tadeu Francisco
Nov/2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Destaque

Aparece multicor na pele clara.
Tenta por vezes chamar atenção.
Colore-se com tintas reais,
desprende, dança,
nada adianta.
A vitória é dela;
com sua meiguice incolor.

Tadeu Francisco
Nov/2010

A revolta do pneu


Entre as rodagens, enchia.
A cada passada, rodava.
Eu era preto.
Sonhava arder em protesto,
mas não,
queimava na estrada,
borrava, berrava.
Inútil.
Disso tudo, estava cheio.

Tadeu Francisco
nov/2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Frascos


Fracos na casa,
perfeitos ao mundo.
Frascos perfeitos;
par feito frascos.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Agressivo é o João


João não mede esforço na corrida.
Bate e pita,
como um ator.
Surra o marreco e come a galinha;
em uma frase que não foi inspirada em cantiga.
Sente,
nada inocente,
a dor da pancada.

Tadeu Francisco
Nov/2010

O espelho suicida

Era proibido quebrar;
que azar.
Quebrava-se devagar.
Uma ponta aqui,
um trincado acolá.
Escondido.
Estava inspirado,
pirado.
Quando quebrava,
ainda assim,
seus cacos refletiam;
era disso que o espelho gostava.
Quebra, quebra!
No fim da vida
não tinha mais o que quebrar.
Quieto, refletiu.

Tadeu Francisco
Nov/2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Se eu puder


Serei ouvidos,
colo, pouso,
criado, mudo.
Se eu puder,
em punho.
Se deixar,
pulso.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Tatuagem

Arrancou-lhe os cabelos com seus toques macios.
Marcou-a.
Carinhos longos e tendenciosos
permitiram sua saída,
à francesa.
Nada a desconfiar.
Sumiu para sempre.
Abandonou-a amargurada.
Mas antes deixou parte de si naquele ventre;
sabia deixar sua marca,
ora passageira,
ora eterna;
eterno.

Tadeu Francisco
Nov/2010

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Um par

Quem é ela, senão eu?
Par uníssono no mesmo traçado;
traçados,
entre laços,
laçados,
trançados.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Terra do nunca

Transformei-me.
Nas coxias e no lar,
antes,
apenas um cochilar.
Agora,
um escutador de histórias.
Na página dezesseis,
entendi que ela não ia voltar.
Os símbolos da capa formavam
o N de notas e o L de livres;
em lá menor, soltos.
As páginas mostravam os meus anos,
infinitos.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Ps: A imagem faz parte do filme "Em busca da terra do nunca".

IDH

O índice estava bem baixo.
Lamentou a perda inestimável.
Prato cheio, coração vazio.
Oscilações inexplicáveis para uma farta vida miserável.

Tadeu Francisco
Nov/2010

O sonhador

Foi olhando o fundo da velha caneca de leite que ressuscitou seus dons.
Fez forma no alumínio suado;
atingindo o ápice da escultura.
Desenhou um corpo cansado.
Ouviu a aclamação popular pedindo bis.
Em um salto,
agradeceu a todos,
envergando-se com estilo.
Abriu os olhos e notou os
quietos banquinhos,
a mesa vazia
e a cozinha suja.

Tadeu Francisco
Nov/2010

sábado, 6 de novembro de 2010

Palhaço iniciante

Assoprou forte e desafinado seu trombone novo.
Era um hino infantil.
Despistou a vergonha com seus passos engraçados,
ensaiados.
Esboçou sua graça.
Ninguém sorriu.
Sem graça,
saiu.

Tadeu Francisco
Nov/2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Olhos


Optei pela leveza daqueles olhos.
Pesou-me tanto.
Em encanto e pranto,
nada santo.

Tadeu Francisco
Nov/2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A história de uma prostituta

Moça de sorriso, açucarada.
Permitia inconsequências,
coisa não rara às moças soltas,
que as de família jamais nos ouça.
Flertar era com a cama;
persuadir, na cama.
A casa abarrotada de gente,
não era de toda vital,
dementes.
Vida fácil, pouco espaço,
relacionamentos unos e duradouros, escassos.
Um dia parou, não deu mais um passo,
esperou que a procurassem.
Revoltou.
Seu telefone nunca mais tocou.

Tadeu Francisco
Nov/2010

O bar

Respinga, pinga, despista.
Cultua o balcão
em charme à bela mulher.
Pede bebida,
não acha o limão.
Bebe, soluça, petisca.

Tadeu Francisco
Nov/2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

(In)completo

Sou meio boca, passagem, riacho.
Meio estranho, meio inteiro, meio metade.
Quase completo, quase perfeito, quase errado.
Sempre atento, sempre dormindo, sempre deitado.
Sou o que você pega, paga, peca.
Absorto,
é você quem diz o meu nome, minha cor e minha rima.

Tadeu Francisco
Nov/2010

O anjo vencido

Havia perdido meu posto,
deposto.
Calcifiquei as asas nas mãos do incrédulo;
isto me custou a vida.
O gozado foi perceber que,
só agora,
que sou humano,
posso voar.
Apenas nas batalhas me bate o cansaço,
mas isso é para o corpo;
morto.

Tadeu Francisco
Nov/2010

Pulsando

Só me é interessante
o que me deixa cantante.

Tadeu Francisco
Nov/2010

O meio

Escombros não conseguem sorrir quando são filmados.
Somos gerados por mil tombos e um pedaço de tempo.
E o intervalo entre a queda e a glória?
Não sei,
estou nele.
E esta é uma outra história.

Tadeu Francisco
Out/2010

Tempos modernos

Depois da cãibra,
só contorno e voz.
Ouço o pito!
Sem questionar,
repito.

Tadeu Francisco
Jul/2009

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sentiu

E quando me perguntou sobre o amor,
coloquei suas pequenas mãos no meu peito.
Não precisei proferir poemas e versos.
Não precisei de tempo e declarações.
Respondi, assim.

Tadeu Francisco
Nov/2010