sábado, 30 de outubro de 2010

Maturidade


Esqueceu-se lá trás
Em meados dos anos 70.
Voltou para se achar
E não chegou a tempo.
Voltou ao presente
Tardiamente,
Madura,
Sem tempo.

Tadeu Francisco
out/10

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O velho juvenil

Condenaram-no pelas suas estripulias juvenis.
Repetidas repreensões,
claras, firmes.
- Gema, culpado!
Tornou-se chato:
cresceu.





Tadeu Francisco
Out/2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Íntimos

Isolados em conversas banais,
eram bocas falantes,
cabeças silentes.
Em algumas mentes, tragédias,
em outras, romances.

Tadeu Francisco
Out/2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sobre como ser árvore

Como era sereno o chorar da mata fechada.
Com um eco vibrante tentei abrí-la;
que desastre.
Quem sou eu para competir?
Ainda padeço da minha pele rosada;
nem um dedo de galho;
nem uma veia com seiva.
Despretensiosamente parei.
Aconchego-me nos retalhos,
não no orvalho.

Tadeu Francisco
Out/2010

Esperando


Forçava.
Mudava de lugar.
Mudava o lugar.
Mantinha-se.

Tadeu Francisco
Out/2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Remo

Perdeu-se sem vento.
Apesar do rosto feio,
tinha um belo nau;
frágil.
Cantou.
Queria remar,
ir longe
e chegar.
Não notou que só tinha um remo.
E ficou rodando, rodando, rodando.
Cansou.

Tadeu Francisco
Out/2010

O andarilho



Uma fitinha
de santo chinês
fazia a vez

Pela frente
e por trás.
Pelos lados,
Ninguém.

Andava de ré,
meio com fé,
meio para frente,
meio em mente,
meio demente.

Tadeu Francisco
Out/10

Sobre favela e dinheiro

As gírias vinham das notas,
cantando em notas.
Elas quebraram o troco do malandro.
Trocaram a quebrada do vadio;
vadias!!

Tadeu Francisco
Out/2010

Entre Linhas

Quis entender os documentos.
Observava as letras, números;
não se via.
Deitado,
documentou sua dor.
No papel ela parecia menor,
mesmo assim,
assinou.

Tadeu Francisco
Out/2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O dançarino

Tom, tom, tom.
A melodia valsava no palco.
Saí salso,
pedi água.
Deram-me tango.

Tadeu Francisco
Out/2010

Chá das cinco

Chão gelado,
palavras quentes,
silêncio doído.
Gritei.
Ela,
sem entender,
sorriu.
Que pena,
não me ouviu.

Tadeu Francisco
Out/2010

Crônica III

O Cinema Iraniano

Lavou a sua única camisa.
Uma bela camisa azul.
Somente com ela poderia ir ao cinema, local sagrado.
Convencionou assim para despistar a sua falta de dinheiro.
No caminho de pedra, de carona em uma bicicleta amiga e velha, um arame bastou para abrir um rasgo na sua manga.
Estava há 20 minutos do filme.
Em respeito ao sacro local, tinha que arrumar aquele furo.
Entrou no primeiro balcão:
- Preciso de uma agulha!
De agulha e linha na mão, costurou o pano. Serviço porco.
Correu junto aos minutos regressos.
Nada adiantou.
A moça disse não, o tempo também.
Perdeu o filme, consertou a manga.
Sorriu, pois o local ainda estava lá e de lá não sairia.
Entendeu que as escolhas fazem o norte.
Sabe agora não se atar em panos.

Tadeu Francisco
Outubro/2010

Dois degraus

Foi um salto tão grande,
que chorei satisfeito,
em penas,
o suficiente,
apenas.
Foi com os pés fincados;
trincados,
trincando-me,
que voltei para memorizar a altura.
Cadê o imenso abismo,
funesto dois degraus?

Tadeu Francisco
Set/2010.

Engenhei

Na luz,
ofuscado e embaçado,
via força.
Engenhei, brilhante,
uma bela auréola;
destruí-me.





Tadeu Francisco
Set/2010

O verde partido

Bradava,
seja contra a fumaça, a cortina,
a desgraça.
Fazia,
fumava.
Desperdiçava a bituca na sarjeta;
entoava o hino verde.
Preto,
de luto,
sujava.

Tadeu Francisco
Out/2010

domingo, 24 de outubro de 2010

De tudo que tenho

Permitindo-me, rabisquei a distância presente;
rascunhei o grande encontro etílico.
Nestas maresias vitais,
nestes desassosegos todos,
entendi que as águas turvas são sempre alinhadas.
Minha função? Alinhavá-las.

Tadeu Francisco
Dez/2008

sábado, 23 de outubro de 2010

Voz

Um belo outono foi o suficiente pra ele acordar e perceber:
- poeta, não precisa ser a voz do mundo;
basta ser a voz de alguém.
Rouco, todo o resto se aprumou.
E não foi pouco.

Tadeu Francisco
Jun/2002

Gado de corte

Chego sorrindo no grande palanque.
Ouço cabeças batendo,
destoando nos trotes dos cavalos amarelos.
Aperto forte a carne da unha.
Urro e relincho,
forte nelore.
Vou pro abate;
abatido.
Quantos aplausos!
Sangro e fecho o espetáculo.
Sou nobre;
mas não me soou nobre.

Tadeu Francisco
Out/2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Liberdade provisória

Era nos respingos de terceiros
que inalava esperança.
Esperou o cheiro vagar.
Vagou,
viu um céu aberto e um vagonete abandonado.
Tinha saído dos trilhos,
agora,
maltrapilho,
brincava com eles.
Degustou o novo aroma;
amou no seu novo quarto.
Estranhamente,
sentiu-se preso.
Que mal me fez ele,
maldito bodum da cela?

Tadeu Francisco
Out/2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O erro

Nunca tinha acertado,
no âmago,
penso eu,
poucas vezes queria.
Foi no errado que encontrou bons consolos.
Assim, optou pelo erro,
coitado,
fracassou,
desta vez,
acertou.

Tadeu Francisco
Out/2010

Isaura

 Violou a caixa do correio com bravura.
Estava vazia com um bilhete dentro.
Decidiu encontrar com ela no ateliê.
Não deu tempo.
Com o seu respeitado sono pesado,
leve,
escorregou no banco macio.
O bilhete o acompanhou.
Voou ao chão,
desenhando curvas ao planar.
O ex sortudo,
sem resistência,
pisou e pisou.
Deixou a Isaura em prantos,
desdenhada pelo dorminhoco,
que só queria ter um lugar para acordar.

Tadeu Francisco
Out/2010

O monge não executivo


Após a longa oração, abriu a pasta e relatou as benzeduras.
Quão dura tornou a burocratização de Deus.
Largou os textos, relatos.
Relapso, mexeu nos seus papéis.
Deus cuidou dos deles.
Assinou a proza que o fez bento.
Benzido,
não se atreveu mais executar.
Deixou isso pra Deus,
Ele que execute;
Ele que assine.
Os papéis não são meus,
são, Deus?

Tadeu Francisco
Julho/2009

Aos cinquenta

Ao acaso, se viu homem.
Barba feita, pele firme, rosto amargurado,
olho feio, medroso, mal amante.
No meio do relógio e da parafina,
entre a velhice e a complacência,
não suportou mais uma onda.
Nem a onda que molha,
nem a onda que morna.
Gelou.

Tadeu Francisco
Jan/2008

Levado dia

Passa leve o tempo.
Levei um dia,
passeado e cansado.
Respirei
e o ar foi levado;
foi ar pra tudo quanto é lado.

Tadeu Francisco
Out/2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Lápis

O lápis estava correndo sobre o papel.
As frases fugiam pela margem.
Lacei-o perdido em lembrança.
Quis se vingar de mim;
quebrou-se com dolo.
Quebrou-me.




Tadeu Francisco
Out/2010

Sambante

Foi chegando e chegando.
Tropeçou com estilo.
Sambou no salão.
Reluziu feito a mulata fluorescente.
Na hora de ir embora,
não encontrou a porta.
Fingiu.
Preferiu não mostrar para os outros que era cego.


Tadeu Francisco
Agosto/2009

Vanilla Sky

Vale pelo suado,
em pelo.

Pelos buracos da máscara,
meu mundo ainda estava nítido.

A recíproca dos seus olhos não obedece;
nunca obedeceu, não seria agora.

Alguns veem olhos,
outros,
a maioria,
plásticos.

Pago o meu mundo real ou pego meu mundo pago?

Em pesadelos, fui obrigado a abrir meus olhos;
me encarar.

Abra os olhos...
abra os olhos...
abra os olhos...

Ps: Texto baseado na refilmagem "Vanilla Sky" (abra los ojos - versão
original). 
Ps²: A imagem acima é parte de uma cena do filme.
Tadeu Francisco
Novembro/2003

Travessia

Paralelos ao traçado,
desconhecidos na imersão.
Só conhecia sua rota.
Travesso, atravessou.
O mar nunca fica pra trás;
só, me traz.

Tadeu Francisco
Janeiro/2003

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Papo de varanda



Sentado na varanda,
percebi que o morro próximo me impedia de ver o céu.
Tentei imaginar um Monet.
Queria conversar com Deus.
Nunca transpassei.
Contristei.
Maldito morro.
Benditos desejos.
Morro em preces benditas;
mau ditas.

Tadeu Francisco
Outubro/2010

Estéril


Foi sonhando que se atreveu.
Viu a grávida;
por dentro, a vida.
Viu o seio.
Morto,
quis a ceia.
Estéril,
não percebeu a gravidade.

Tadeu Francisco
Junho/2010

Crônica II

O juiz e a corcunda

A primeira testemunha entrou na sala de audiência após esperar quase uma hora. Seria decidido se Maria e João eram ou não amantes.

Assim que entrou, meio vagarosa, olhou fixamente para os homens sérios que estavam sentados. Não percebeu que suas pernas não mais se moviam; tremiam.

Ela entrou e sentou na cadeira dura e desajeitada, que a Justiça comicamente "bem" acolhe seus visitantes.

Com as mãos sobre a barriga, pois era muito gorda, fitou as costas do computador usado pela bela menina emburrada.

Sentiu-se violada, pois expôs todos os seus dados pessoais a um estranho.

Começou o martírio das perguntas.

O Juiz, com pressa, dando a entender que não suportava perder seu tempo com alguém tão inferior a ele,  disparou uma série de questões incoerentes e tendenciosas.

A mulher não entendia nada.

Ela era negra, corcunda e muito feia.

Do que abstraiu, tentou explicar que não era vizinha da Maria, mesmo morando na mesma rua."A rua era longa, senhor Juiz".

O Julgador fingia não entender e ficava nervoso. Queria que ela falasse só o que ele queria ouvir; a todo custo.

Sua grosseria correu pelos corredores do fórum.

A mulher chorou porque falou a verdade e o ar daquela sala enchia suas palavras de mentiras.

Uma ferida ali se abriu.

A mulher idosa jamais imaginou que nos seus avançados anos um novo trauma viria lhe fazer companhia.

O juiz não teve piedade e a esfaqueou:

- Assine e saia.

Aqueles quinze minutos se estenderam como se fossem dias de tortura.

Ela só queria sair dali. Mal assinou a folha. 

Para os advogados, escrivã e Juiz, apenas mais um corriqueiro dia.

Para ela, ofensa e humilhação eterna.

Ninguém se deu conta do que fizeram com aquela senhora corcunda.

Todos riram após o ocorrido com piadas banais.

Ela saiu cabisbaixa, triste e nervosa.

O que ninguém percebeu é que, tanto mentiras, como verdades, favoreciam a Maria; que só amou demais um homem cafajeste.

Tadeu Francisco
08-06-2010

A ida do filho

Sorrindo se despediu.
Pela última vez virou o pescoço.
Agora triste,
pescou o osso.

Tadeu Francisco
Janeiro/2004

Bolsa Família

Era porteiro por inteiro.
Ao contrário do que falavam,
o seu sonho não cabia em uma bolsa.
A sua casa, farta de infantes chorantes,
não tinha uma porta;
só tinha o porteiro.

Tadeu Francisco
Junho/2009

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Ditadura

Acusou o meliante:
- O militar não sabia militar. Sabia berrar.
Milícia, sem malícia,
não tinha camisa.
Bravo! Milito contra.
O militar, berrante,
não aceita meu conto;
me joga num canto.
Espanto.

Tadeu Francisco
Março/2006

Bang bang


Viu-se raso.
Do embaraço que se formou quando o sol ousou ser mais ele.
Aquela luz entrou.
Perfurou;
mas não esquentou.
Uma espécie de verão deserto,
desses de filme do faroeste.
As coisas que aprendi ficaram no três.
Teve tiro. Teve excitação.
A contagem escorria pelas mãos que tremiam.
A perna arqueava, formando a ferradura.
Faltou a sorte;
sobrou coragem.

Tadeu Francisco
Outubro/2010

Cesta Básica

 Arroz, batata, quando muito, um doce da roça.
O feijão é caro, claro.
No final da semana seu dinheiro acabava.
Tudo a custa de um salário magro.
Queria diversão naqueles parcos dias.
Mas não dava.
A sexta era básica.
A sua cesta, básica.


Tadeu Francisco
Outubro/2010

Emprego sujo

Ele acordou cedo e resmungou suando:
- O ser humano é um bicho nojento.
Percebeu o tanto de excremento que se solta.
Limpou-se. Usou o desodorante barato.
Desodorou-se com elegância. Lavou o cabelo seboso.
Respirou fundo, respeitou-se ao fundo.
Saiu.
Era o dia mais importante da sua vida,
exerceria uma importante vaga que conseguira.
Agora tinha um emprego cobiçado:
a maior loja de cosmético do país.
Chegou suando.
Sujo e fedido.
Sentiu-se nojento.
Sentiu-se excremento.

Tadeu Francisco
Outubro/2010

domingo, 17 de outubro de 2010

Sócrates e o filósofo errante

Premedito o tempo que me traz discórdia.
O não saber da alma me laça feito um corte de vento.
Bobo da corte;
do corte.
As avenidas que têm um nome,
são na verdade pessoas espalhafatosas procurando uma luz dentro do mundo urbano e vazio do seu peito.
Começou de maneira revoltosa,
espantosa,
a fazer capítulos e esperar na varanda a resposta de um filósofo menos errante.
Remedia seu próprio tempo com desculpas descomunais,
que seriam uma capa de viagem se não fosse a franqueza de suas mentiras.
Ah, filósofo errante!
Quanto mais se sobe mais se erra,
e mais se atira ao alvo uma pouca e séria gravidade do parto de suas ideias!

Tadeu Francisco
Julho/2005

sábado, 16 de outubro de 2010

O gosto

Gosto de sentir o gosto amargo para saborear o simples.
Gosto de ver o campo de Auschwitz para entender até onde vai a crueldade do homem.
Gosto de ser menos filósofo quando assisto TV.
Gosto do (mau) dito quando dito pelo bem.
Gosto de ver prédios.
Gosto de ver filmes.
Gosto de ver como tudo é pequeno quando eu olho para o céu.
Gosto de tentar entender as mazelas.
Gosto do gomo mais fraco, porque acredito na sua envergadura.
Gosto de ver pessoas se recuperando.
Gosto de ver pessoas se curando.
Gosto do silencio quando ele consegue dizer tudo.
Não gosto do desgosto;
do esgoto.

Tadeu Francisco
Maio/2009

Ruído

O ruído foi alto.
A tormenta? Incrivelmente linda.
Não decifrei o som,
mas me aventurei no seu contra tempo,
contra o tempo.
Mastiguei o sabor antes de sentir o cheiro do alimento.
Corri.
Encontrei-me.
Perdi.
Busquei-me.

Tadeu Francisco
set/2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O baile

Dançou, dançou e dançou.
Estava inspirado na dissonância do ar.
Diz:- sonância!
Ecoa aos quatros cantos do salão.
Sonante, 
dormiu cansado.

Tadeu Francisco
Out/10

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Carabina

Do tiro, me ponho em sentido.
Com a pele enrrugada, me mostram os papéis.
Alvo fácil não se mexe.
Quando assim,
me retiro.
É pelo tiro,
pela tira,
pelo sossego,
que atira.

Tadeu Francisco
Outubro/2010

A poça

Foi mexendo naquele caderno velho que cortou o seu dedo.
Quando o sangue jorrou,
misturado a tinta azul,
uma nova cor se formou.
O escrito, ali foi apagado.
A nova forma apareceu.
O exame não negou.
Negra era a força.
Era tinta e era sangue.
Era emoção e eram frases.
Era uma gota,
mas não uma poça.

Tadeu Francisco
Outubro/2010

Partir

Partir
nem sempre significa sair do lugar,
mas sair em busca de uma nova história.

Partir
não implica locomoção; 
mas inquietude e aversão à apatia.

Parta,
antes que te partam.
Amyr Klink já dizia que
o maior naufrágio é não partir.

Não bastam barcos e velas.
Não basta sair sem rumo.
Não basta sair correndo.

Partir,
é determinar seu sonho.
É a construção poética ao lado de quem se ama.

Não é solitário. 
Às vezes saudoso.

O partir é amar e se amar.
Amar a vida.

É criar.
É desejar.
É imaginar.
É sonhar.
É se atirar.

Tadeu Francisco
Setembro/2003

O passado sem ideia

Pegou no consenso da criança todo o seu passado bobo.
Consentiu seu passado.
Acobertou seus devaneios.
Como num passe de mágica,
fecharam-se as cortinas -
que beleza de espetáculo -
vieram as idéias morais e imorais.
E eu só vi o rosto do palhaço bravo na tv.

Tadeu Francisco
Janeiro/2004

Crônica I

- O nascimento e a morte -
Relatos de uma audiência criminal

Hoje presenciei um nascimento e uma morte.

Como a vida me soou mais incrível por isso.

Era uma audiência com os doutores engravatados.

Sala gelada, fria, cadeiras duras. Acho que o moribundo a ser julgado matou alguém. Bom, foi o que me falaram.

Ele entrou pela porta cabisbaixo, andando lentamente e quase se arrastando.

Há apenas alguns dias estava vivo como nunca, eu vi. Falava num tom melancólico, meio que soando arrependido, mas com sentimentos aflorados. Ele sentia que tinha feito algo errado, mesmo sem entender ao certo o que era.

Quando o vi naquela sala pálida, percebi que seus olhos estavam estéreis. Naqueles olhos que tanto jorraram lágrimas, nada mais saía. Secou.

Todos da sala olhavam pra ele desconfiados.

Ele se intimidou. Ficou acuado feito um alce momentos antes de ser abatido. Não deu outra: seu corpo foi estremecendo, o coração palpitando numa espécie de convulsão, as veias se acentuando na cor verde ressaltada sob a pele e, em meio aos barulhos dos relógios e a tosse vinda do corredor, sua respiração foi ficando ofegante e de repente seu coração parou. Morreu. Ali, na minha frente. “Que Deus o tenha”, diriam os mais crédulos. Eu nada disse.

Caiu duro e gelado feito um saco de pele. Nem barulho fez.

Possuía uma algema entrelaçada nos seus punhos que marcava suas mãos com tamanha força que até em mim doía.

Esperei pelos homens da funerária. Estranhei, pois eles não foram retirar o corpo. Nem os bombeiros chamaram. Sequer curiosos foram ver o defunto estatelado no chão.

Todos prosseguiram na sua rotina. A escrivã continuou com o seu maligno humor. O Juiz se limitou a acender um cigarro e sentar na janela. Já que é assim, também fiquei no meu lugar. Quando dava, eu analisava o corpo estendido. Era um rapaz jovem. Morreu timidamente.

Mas o que me deixou atônito foi o que veio depois. O corpo morto foi repentinamente se transformando numa placenta. Coisa estranha. Parecia um monstro dentro de uma água viva. Penso que isso é uma coisa comum, pois ninguém da sala deu a mínima para aquela aberração toda.

Formou-se um feto no chão, bem diante dos meus olhos. Assustei. Dei de levantar da cadeira, mas me contive.

Pela transparência da placenta consegui ver que era um bebê grande, já crescido. Porém, o que me chamou atenção, foi ver que não havia nenhuma mulher gerando aquele feto. O útero estava dentro de umas grades de ferro, que o prendia como se fosse uma caixa.

Acho que já estava na hora do bebê nascer, pois ele forçava as grades com suas mãos maduras e machucadas. Pareciam mãos de um homem adulto.

As grades não o sustentavam mais, de modo que, como uma explosão, o bebê arrebentou as grades e escapou da placenta.

Foi água pra todos os lados da sala. Uma água fétida e podre que chegou a bater nos pés do Juiz fumante e respingar no rosto de todos que lá trabalhavam.  Enquanto a escrivã só dava uma olhadela, tirando um mosquito da sua mesa, o Promotor limpava seu rosto com um lenço.

Convenci-me que essa cena é mais normal do que imaginei. Segurei-me na cadeira e levantei um pouco meus pés para que a água não espirrasse nas minhas calças. Penso que agi naturalmente por não querer passar por inexperiente.

O bebê já era crescido. Devia ter uns 30 anos. Ele não chorou, mas respirava ofegante. Ficou um tempo deitado na sala e logo a água evaporou, deixando só o cheiro insuportável no local.

O recém nascido se retorceu um pouco. Tinha o olhar controlado e fechado. Bocejou ferozmente e se levantou. Sabia andar sem nenhuma dificuldade. Eu fiquei atônito, mas os trabalhadores daquela sala ainda permaneciam calmos, olhando tristemente pros seus computadores.

Por incrível que pareça, o bebê já tinha nome e o magistrado sabia qual era. Sem pestanejar, o direto Juiz chamou pelo seu nome e foi enfático ao mandar ele se sentar num banco: o banco dos réus.


Tadeu Francisco
16-07-10

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma carta para Marcos Scheres

Marcos Scheres foi um amigo, um irmão. Faleceu cedo em decorrência das drogas. Senti raiva dele. Senti raiva do pó. Esta carta foi apresentada no Festival de música Expressão Livre de Monte Sião/MG no ano em que ele desistiu da vida:

Foi tudo tão simples como um sonho tradicional,
como um começo de novas experiências, atitudes e de uma ousada ideologia.
Foi tudo tão mágico, rápido e, confesso, um tanto dolorido.
Por uma última vez ele tentou insistir na sua liberdade.
Insistiu como um Homem forte e capaz de construir uma história digna de orgulho.
Só que não vi um final feliz.
Eu chorei.
Este homem encontrou obstáculos que sugeriram para ele derrotas e, como não as admitia, se foi.
Um pedaço de mim também se foi.
Fiquei menos sorridente e menos músico.
Alguns acordes voltaram.
E ele voltou nos versos e em forma daquele sonho tradicional.

Tadeu Francisco
(não datado)

Fofocas

Dão formas para o seu corpo.
Dizem o que você pensa,
sem saber qual fé professa.
Dizem que você bebe demais,
sem saber a hora do seu sono.
Cruel é fazer deles a sua história.
Não dê chance ao pálido mundo que criaram para você.
Não foque assim.
Não fofoque pra mim.

Tadeu Francisco
Novembro/2007

Ardente

Arrisquei-me tanto, que meu fôlego, ausente, não foi percebido.
Corri incessantemente.
Ardi com orgulho.
No deleite, chorei.
E por quanto tempo queimei?
Não sei ao certo,
ainda queimo.

Tadeu Francisco
Jun/2010

Vou ter que fechar

Vou ter que fechar as portas.
O marasmo extrapolou no tempo.
Suas ausentes atitudes destoaram a minha vida.
O silêncio desarmonizou a música.
Não foi reflexão.
Foi covardia.
Tirou-me o chão,
nos dois sentidos.
Desculpe-me, vou ter que fechar.
Minha inquietude não permite mansidão.

Tadeu Francisco
Novembro/2007

O rosto

E foi naquele vão que encontrou seu reflexo.
Não se reconheceu,
mas sabia que era seu,
aquele rosto torto.

Tadeu Francisco
Maio/2010

Deste lado, destilado

Foi a vez do vento levar o sussuro ao bosque.
E o bosque gritou.
Eu, destilado,
deste lado fiquei.
Não me incomoda.
Pouco importou.
O santo agradeceu o gole.
O gole santificou o chão.

Tadeu Francisco
Maio/2010

A alma "Zé"

Ele tinha um nome gozado, quase um ninguém.
Furto em explicar a origem daquele chamariz.
Talvez um "Zé" logo resolveria a questão.
Mas da pirografia estupenda e rebuscada daquele nome próprio,
Zé,
o nome insonso,
era apenas como chamavam a sua história.
Azedou no canto e decidiu inverter as coisas.
O espetáculo agora fica pra alma;
o nome pacato,
agora sim,
faz parte do seu nome.

Tadeu Francisco
Agosto/2010

Realismo Fantástico

Era uma história feia, com esquisitices.
Porém a ilusão que beirava a insaniade deixou ele ver além, foi o toque a mais daquele verão.
Não aspirou o ar puro, pela cor preta da fumaça.
Mas aspirou a vontade, com vontade.
A ponte não tinha altura, sequer perigo.
Suou frio e soou aos céus.
Não sei ao certo quando é arriscado.
Fez dos seus passos um risco,
assim tornou todos importantes,
sempre e sempre.

Tadeu Francisco
Out/2010

Mundo

E do mundo fica o resto;
e do resto o mundo.
Só me resta o mundo.
E fundo.
E mudo.

Tadeu Francisco
Set/2010

Olhos

Vejo barcos e não âncoras.
Vejo botes e não plásticos.
Vejo vôos e não cadeiras.
Vejo as falas e não as línguas.
Vejo tudo que me faz rouco.
Vejo a náusea no navio cortante.

Tadeu Francisco
Ago/2010

Noite

De noite, quando não há concorrência,
meus sentimentos concorrem entre si;
meu pensamento se acidenta.

Tadeu Francisco
Agosto/2010

Notas de Chaplin

Entre notas borradas de Chaplin e a certeza do incerto.
O desejo bastou às ideias.
O cheiro, que não mais ausente,
se expressou em palavras.
Poesia que se fez carne
Da cor queimada à luz.
Das outras vezes que tentei falar 
Sobraram-me versos órfãos.
Não darei explicações.
Dar-me-ei.

Tadeu Francisco
maio/2008

*Primeiro poema feito para Mariana

Entenda-me

Em um dia, não menos incandescente,
as coisas do universo tiveram sentido.
Bastou o olhar certeiro,
que perfurou a alma daquele par de atentos.
Só o tempo pra explicar.
Aliás, quem quer explicação?
Os dois não querem.
Eles se entendem.
Eles se amam


Tadeu Francisco
Julho/2008

Meio sem avisar

Ela chegou meio sem avisar, meio sem querer.
Por tão pouco nada teria acontecido: as falas não teriam se encaixado,
os toques não teriam se encontrado,
os olhares não teriam se cruzado.
Estaria escrevendo sobre outras linhas, outras cores.
Por muito mais, em vão, pessoas passaram por mim.
Não com ela.
O seu jeito de andar já compõe o toque divino,
que Deus me permita a comparação.
Nem sobre as verdades precisamos dizer,
porque ela está sempre ali;
mais e mais.

Tadeu Francisco
Maio/2008

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Entre Minas e Chilenos

Entre luzes e câmeras a repórter chorava.
Dissimulada, seu microfone amplificava.
Em prantos, os presos na terra.
Marrons marrudos.
Sentava na poltrona e bocejava.
Riu, coçou os pés.
Queria ela parar de falar e entender.
Foi fundo e fundo.
Cavou e fingiu tristeza.
Tinha uma notícia.
Não tinha mais terra.

Tadeu Francisco
Out/2010

Sobre roupas e mundo

No mundo.
Nu, mundo.
Sobraram-me roupas;
o mundo nu.
Despi-me.

Tadeu Francisco
Out/10

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mania de Fingir

E nessa velha mania de fingir,
amarro a própria história.
Só ficam os nós.
Dão-se os nós.
Sós, os nós.
Treco estranho.
Dei-me um nó?
Só, desatei-me.

Tadeu Francisco
Jan/09

Um rabisco - Intruso parte II

Intruso, eu?
Talvez da sua vida, 
antes da minha.
Antes de ser eu, 
você.
Antes do meu,
o seu.
Dentro do meu,
o nosso.
Dentro de uns rabiscos,
nossos planos.
E desta forma, 
na sobra do rabisco que fiz pra você,
o seu rabisco;
nosso sonho.

Tadeu Francisco
Ago/07

Amor à distância - Uma canção pra você

Reinventamos alguns medos.
Inventamos uma nova forma de amar;
um amor que se rega a distância.
Muitos sorrisos, mas tão solitária.

Tadeu Francisco
Nov/07

Intruso

Intruso, eu?
Quem deve obedecer as regras?
Quem me dera obedecer todas as ordens.
As ordens do ar, do céu, do sol, do vento...
Descobri que sou intruso da minha própria vida.

Tadeu Francisco
Jun/07

Breve conto de amor

-É assim?
-Não sei. Falaram-me que sim.
Estranho esta coisa de não existir rosto nas idéias. Vital, mas estranho.
Tudo que se propaga tende a deixar rastros, a criar uma estrada.
Ele não almejou tanto, também pudera, cada sonho destruído foi como um tapa.
Tudo bem que ele ainda não morreu. É caro um funeral digno.
Mas ele esteve lá.
Daquela antiga história nada sobrou; tudo mudou: a cidade era mais jovem, apesar do tempo ter passado.
Só que para ele o tempo ficou parado. O mesmo pirralho. A mesma inocência.
Se não tivesse ela não teria amor no conto, e sem amor não há sucesso, não há público.
Ele aprendeu a ludibriar. A vida o ludibriou.
Cada qual com seu qual.
Cada risco na sua linha.
Assim, se viu incapaz.
Viu uma luta vã.
Não adianta querer mudar as peças quando o desenho da caixa já está estampado.
Saltou pra longe e conheceu a vida como um homem.
Deixou o pirralho pra depois; pra depois dos noventa.

Tadeu Francisco
Nov/07

As Ciências Criminais

Pegue um pouco de desespero. Pronto!
Junte com os sorrisos escorridos e uma lágrima; compõe-se vida.
O desespero é mais abundante que a água trêmula da nossa psique.
De cético ao nada, levado a esmo pelas intempestivas incongruências do cárcere.
Essa é a prisão dos problemas sociais.
Dos bandidos.
Do criminoso.
Do assassino.
Que insistimos em tratá-los como autores das nossas perturbações.
Ora, mundo, quem é capaz de atingir a perfeição neste espaço porco?
Quem é capaz de ser mais do que o tiro nessa pré-julgada sociedade?
Nesse pré-juízo da mídia?
Dos conceitos pré?
Não sejamos o ente comum do senso.


Tadeu Francisco
Out/07

Amor sincero

Encontrei um problema na sinceridade.
Desvirtuou-se apaziguada na origem daquele amor.
Foi no caminho torto aos olhos nús,
certo aos olhos deles,
que a vida começou no final feliz.

Tadeu Francisco
Maio/10

Preguiça

Fui deixando as coisas como estavam: mobília passada, sofá descascado, alma esbulhada.
A soleira da porta era o que mais interessava, a cada chute uma ponta de vivência.
O quarto, sem luz, retratava a esperança dos pés juntos, mornos.
Quando decidiu a supremacia pra si, não foi tarde; foi-se.
Com propriedade laçou seu calçado;
sem propriedade tropeçou quando inverteu os pés.
Os passos foram longos, mas a cadeira estava cada dia mais velha;
cada dia mais cheia.


Tadeu Francisco
Out/10.

Neblina

Foi quando ele chegou na beira do precipício.
Do ar faltou à vida.
A culatra encurralou-se.
No resto do passo
O medo venceu.
E no equilíbrio, 
Foi onde se faltou.
Gira mundo e traz o mar ao céu.

Tadeu Francisco
Abril/10

Desforme

De todas as perguntas,
ficou somente a forma do seu rosto.
Só a dúvida ficou sem forma.

Tadeu Francisco
Maio/09

Manso

Sono ausente, da mansidão dissipada.
Amanse.
Ama-se.
Amarra-se.

Tadeu Francisco
Jun/10

Desconhecidos

Daquele vento fraco me soprou o desconhecido.

Foi no embalo dos dedos,

clamando pela luz,

audacioso na esperança,

que o par descontente esboçou um sorriso.

Pelo conhecimento já fiz muito; dessa vez, pelo seu silêncio,

nos tornamos velhos olhos conhecidos.

Tadeu Francisco
Maio/10

Imperfeição

Do que me consome, só o consumismo some.
Do meio? Só dou a metade.
E aquele rabisco foi o mais imperfeito que fiz; apesar da exatidão.

Tadeu Francisco
Ago/10

Corpo são

Corpo são, mente (não) sã.
Corpo são, mente, Sã.
Mente sã, corpo mente.

Tadeu Francisco
Jun/10

O porão

A música canta inquietação.
Dá forma ao silêncio.
Não escolhe corpo, escolhe porão.

Tadeu Francisco
Fev/03

Trouxe-me além

Vasta peripécia da vida.

O querer, não quase incomparável.

Do saber, não sem admirar.

É quando as feridas deixam se tocar.

Quando a distância passa a se encurtar.

O longe demasiadamente perto.

Juntando em dez letras a única extensão existente.

Deixe-me olhar.

Do próprio. Da própria.

Da tentativa enlouquecida e coerente do amor.

Tadeu Francisco
Dez/07

O pulo

Salto na luz das cores e mergulho na inércia da brisa.

Implico com o silêncio e quebro as barreiras do som.

Canto como quem se despede da vida.

Choro como se eu despedisse do último gozo.

Bebo de todos os gostos.

Tadeu Francisco
Out/07

Uma Resposta de Deus

Eu não projetei pessoas, tampouco soluções.

Dei um espaço a mais para as lágrimas, de modo que elas pudessem escorrer também quando alegre o corpo que as guardam.

Abri um descaso ao interior fétido, mas vital.

Deixei aquele espaço oco e escuro ir além.

E sempre que me perguntam de onde surgiram as emoções, respondo de pronto: - da parte mais escondida, ensanguentada e sensível do seu corpo.

Ó, coração!

Tadeu Francisco
out/08

Conto Policial

Nossa! Que será que ele quis nos mostrar com isso? Usando métodos extraídos da filosofia alemã. - questionou o detetive buscando pistas certeiras.

Ao ler o curso investigativo no jornal, o assassino se espanta:

- Meu Deus! Sou tão bom? Filosofia alemã? Nem havia pensado nisto!

Tadeu Francisco
Fev/07

Passeio

Às vezes sou passeio;
às vezes passagem;
às vezes parada;
mas no fim,
ou no simples começo,
tenho um só amor,
com um só nome e um só rosto.

Tadeu Francisco
Jul/08

No canto

E foi naquele canto escuro,
no grito da sua solidão,
que teve força.

Entendeu que só assim as coisas mudariam.

Estático,
mudou-se.

Tadeu Francisco
Mai/10

Composto

E do ritmo que ele sente,
a música se materializa.

A caneta se move.
O mundo comove.

Tadeu Francisco
Mai/10

Prosas e sentidos - Vontade de escrever -


Pela vontade de escrever
foi se arrimando.
Foram virando versos
os apetrechos.
Foram viram trechos
os anversos.

A casa nebulosa
deixou-se aluar.

A pedra destilada
tornou-se sóbria.

Na capela ficaram as rezas;
e delas saíram as prosas.

Tadeu Francisco
out/08

O operário

Coração oculto de nenhuma inércia.
Os tumultos? 
Criamos na ânsia de sermos um.
E porque não faltou a fórmula
Deixamos aquele canto belo nortear.
O que dali saiu
foi por algum motivo.
As barreiras que cresceram, 
Ergueram-se pelas mãos de 
um 
Mero operário destilado.
É pelo ser. 
É pelo "sermos".
De nada adianta 
se tudo não fizer sentido.
E é só assim que 
o sentido pode fazer tudo.

Tadeu Francisco
Maio/10.