segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A poesia...


O homem que não sabia ler - crônica quase real.

Fechado por luto


*História baseada em fatos (e em lutos) reais.  




O homem, usando uma calça jeans clara e uma camiseta branca impecavelmente limpa, por volta da minha idade, uns 30 anos, aproximou-se de uma loja de roupas baratas. Estava com a barba feita e com os cabelos penteados para trás. Seus olhos, castanhos claros, e sua boca grossa acentuavam o vermelho alaranjado de sua bochecha, tal qual o céu no fim do dia.

Eu estava parado ao lado, dando atenção aos meus pensamentos, quando sua voz me interrompeu. Ele falou com segurança, fitando meus olhos precisamente.

De imediato, não entendi o que ele queria; quando me dei conta que perguntava algo sobre a placa que estava pendurada na maçaneta do estabelecimento. A porta estava fechada.

- Pois não? Desculpa, não entendi.
- Gostaria de saber o que está escrito na placa. 
- ?
- Desculpa. É que eu não sei ler.

Respondi de pronto, sem me atinar à sua debilidade educacional:

- "Fechado por luto".
- Obrigado - ele me respondeu.

Caí por mim ao pensar no que acabara de acontecer, quando ele voltou.

- Não consta o motivo da tristeza?
- Não. Apenas isso.
- Obrigado mais uma vez.

E ele se foi. O homem da minha idade que não sabia ler talvez tivesse algum problema grave que o impedira de estudar na infância, talvez tivera sido um rebelde imaturo na adolescência, ou talvez seus pais lhe tiraram da escola por algum motivo sério. Não sei. Sei que ele não sabia ler e se desculpou por isso, como se fosse um mal assim ser. 

O que me incomodou na verdade foi que nada em sua aparência lhe indicava iletrado. Sempre imaginei analfabetos pessoas simples, mal vestidas ou idosos. Puro preconceito meu.

O homem que não sabia ler queria saber o motivo da tristeza dos donos da loja. Provável que fosse curioso.

Caro homem, não precisa se desculpar por não saber ler, isso não diz respeito a erros.

Fui embora também querendo saber o motivo do luto.

E com isso aprendi que as letras, de luto ou não, não encontram apenas visões, encontram também corações.


Tadeu Rodrigues
Jan/2015

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Há final

Picasso 

Há final, saudoso ano. Há. Quer você queira, quer não.
A mesa pode estar farta, a louça lavada, a sala varrida,
a toalha perfumada, as frutas frescas, a avó sorridente,
a vida reclamada, o dinheiro curto, o calor insuportável;
Mas há.
São tantos os finais que desconheço os (re)começos.
Talvez um bocejar, talvez uma revoada, talvez uma brisa mais fria.
E nos reerguemos no talvez.
Talvez valha a pena, talvez não.
Talvez sejamos novos, talvez os mesmos velhos.
É só mais um ano no calendário ou só mais um ano a menos de vida?
Talvez vejamos o ano novo agarrados ao ano velho.
Talvez brindemos à nova virada com as antigas taças compradas pelo tempo.
No fim, estamos quase novos, quase inteiros, quase poetas..
Afinal, não sei, ainda quero festejar.


Tadeu Rodrigues
Dez/14

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O presente - Crônica de terça

O Sonho, Pablo Picasso

Prometeram-lhe algo especial. Ficou com aquilo na cabeça, imaginando o que seria.
 

Algo especial por quê? Não fizera nada demais.
 

Disseram-lhe que ser quem era bastava.
 

Tinha os olhos grandes e parados, não se moviam com a velocidade dos pensamentos oportunos ao sonhador infiel que era. Infiel porque sonhava seus desejos, mas os apagava quando do cair da noite. Iam-se com a claridade do dia e mergulhavam na escuridão.
 

Mas então, o que de especial merecia?
 

Chegou no horário marcado de banho tomado e roupas limpas. Sentou-se no banco combinado. Coçou a palma da mão esquerda e lembrou de sua saudosa mãe dizendo ser isso sinal de dinheiro. Bem que precisava de alguns trocados.
 

Ela chegou pelas escadas e trazia consigo um pacote embrulhado meticulosamente. Ele a observou em cada detalhe e a desenhou em memórias; precisaria daquilo para o sonho noturno diário.
 

- Oi.
- Oi.
- O que trouxe pra mim?
 

Ela o olhou e lhe estendeu as mãos, empurrando o embrulho.
 

Ele o pegou desconfiado e abriu o pacote lentamente. Ela desviou o olhar. Deixou-se aérea e incerta em um dueto de mistério. Olhar e pacote.
 

Antes de abrir o embrulho por completo, ele o chacoalhou.
 

- Não! - ela disse nervosa.
 

Ouviu-se pedaços de coisas se quebrando. Ela começou a chorar e foi embora com as mãos no rosto. Ele pensou em ir atrás, mas desistiu. Voltou-se ao embrulho e terminou de abri-lo.
 

Eram apenas cacos. Não sabia ao certo o que eram e sequer o que formavam.
 

No interior da caixa havia um cartão:
 

"Fiz pra você".
 

Ele tentou formar algo com o que caiu, como um quebra-cabeça desajustado. Foi em vão. Nenhuma forma. Nenhuma pista. Apenas o cartão e o rosto em lágrimas.
 

Ele se sentiu especial por alguns minutos.

Tadeu Rodrigues
nov/14