quinta-feira, 26 de março de 2015

Alice e Felipe

Gangsters modernos - uma história de sangue

 

Munch

- Uma boa amante não usa perfume, não deixa rastros - ela sussurrou no ouvido dele, que não sorriu.


O salão do fino bar era escuro e as pessoas que o ocupavam pareciam tristes.

Ele vestia um terno bem cortado e seus cabelos estavam penteados para trás. Ela, de vestido, estava em harmonia com o lugar.

O garçom lhes trouxe os drinks, um daiquiri e um mojito.

Ele estava tranquilo, mas por algumas vezes tocava o cabo de sua arma que estava colada à cintura. Ela aparentava dominar o mundo.

Passaram-se quarenta minutos antes que começassem de fato a conversar.

- Você vai me entregar? - ela perguntou.
- Talvez seja o prudente.

Ela engoliu seco.

- Você é um filho da puta covarde!
- Mas seu marido...
- Que se foda o meu marido. Ele que se exploda. Você sabe melhor do que ninguém que meu casamento é negócio.
- Agora que está em baixa você diz que...
- Cala a sua boca!

Ela cuspiu no rosto dele. As pessoas que estavam ao lado olharam assustadas. Juravam que se tratava de uma briga de casal, mas juravam porque não os conheciam. Tratavam-se dos irmãos Figueira. Felipe e Alice Figueira.

Entendido pelo seu amadorismo, Felipe não via em sua irmã qualquer base familiar. Ela sabia disso. Até porque o marido de Alice jurara Felipe de morte.

O tempo parou em alguma moldura refinada do bar e ela pôs-se a chorar.

- Eles não vão te matar. Já foi dito.
- Não se eu matá-los antes.

Felipe pediu outro mojito.

- Bebida de mulher isso - Alice lhe disse.
- Que se foda.

Ela sorriu com certa malícia em meio às lágrimas.

Um estrondo foi ouvido no fundo do bar e as pessoas se atiraram ao chão. Pôde-se ouvir tiros. Pôde-se ouvir desespero. Alice correu para o balcão, quando notou que era seu marido quem atirava. Não suportou. Seu corpo foi picotado, retalhado pela raiva do homem enganado.

Felipe sacou sua arma e abriu fogo contra seu cunhado, atingindo em cheio sua cabeça. Não se notou ferido. Caiu sobre o corpo da irmã; e o sangue deles, unidos pela genética, uno, mudou de cor, escureceu e secou... como galhos de uma figueira sem vida.

Tadeu Rodrigues
mar/15

quarta-feira, 25 de março de 2015

Multidões

Obra de Edgar Duvivier

A história do triste poeta preso na multidão, 
sem solidão.

Tadeu Rodrigues
mar/15

segunda-feira, 23 de março de 2015

Entre (os) nós

Pintura de Iman Maleki

Na nossa estrada 
Um pouco de tudo 
Em meio ao nada.

Tadeu Rodrigues
mar/15

quinta-feira, 19 de março de 2015

Chiados

Johannes Vermeer




A solidão acendeu a luz e caminhou assustada. 
Muito barulho por nada.

Tadeu Rodrigues
mar/15

terça-feira, 17 de março de 2015

Crônica de um final infeliz

http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/gogh/gogh.chambre-arles.jpg
Van Gogh

Estávamos suando no jardim de inverno.
Ela rendia-se aos olhares frios da pequena mesa de ferro.
Segurei suas mãos assustadas e, na certeza de que peles conduzem sentimentos, suspirei.
Lentamente seus dedos escorregaram entre os meus.
Levantei-me e fui à porta de saída. Ela nem se mexeu. Olhei para trás esperançoso. Queria que viesse correndo, que saltasse em meus braços... que voássemos.
Nenhum sinal de vida. Nenhum sinal sonoro.
Pude ouvir meus passos firmes, sentindo uma correnteza estranha nos rios das minhas veias saltadas. Poderia ser ela contra a corrente, já que era a minha maré alta.
Cinco, dez, vinte, duzentos infinitos passos de distância. Estava em casa olhando a TV desligada. Ao lado, sua foto me mostrava o que deveria ser o amor. Ali ela me olhava; e olhava bem no fundo dos meus olhos.
Apeei da cadeira como se o mundo dependesse disso.
O telefone tocou. Não atendi. Poderia ser ela com sua voz arrependida.
Grelhei um peixe e me deixei cair em prantos.
O telefone tocou novamente. Estava insistente.
Atendi. Era engano.

Tadeu Rodrigues
Mar/15



Destino - Walt Disney e Salvador Dalí

Ontem postei uma entrevista com Salvado Dalí. A amiga Anna, com muito carinho, lembrou desta animação feita por ele, Dalí, e pelo Walt Disney.

Fazia tempo que não a assistia. Vale a pena.

Ps: caso não seja automático, só acionar a legenda em português nas configurações.




Tadeu Rodrigues
mar/15

segunda-feira, 16 de março de 2015

Dalí

Sempre que pesquiso por obras do Rembrant em meu navegador, sou remetido pela pesquisa a algumas obras de Johannes Vermmer.

E isso me faz lembrar de um vídeo no qual Salvador Dalí (que cita Vermmer) se julga um mau pintor.

O vídeo é este:



Não consegui colocar o vídeo com legenda. Então, quem quiser legendado, é só clicar aqui.

Tadeu Rodrigues
mar/15

Toques

Andrew Atroshenko

Cegueira, 
surdez, 
mudez...
sobra-nos tato.

Mar/15

Engana-se

Fernando Lopes

De dedo em riste;
De alma encardida;
Coração triste;
Profunda ferida.

Tadeu Rodrigues
mar/15

quinta-feira, 12 de março de 2015

Um trecho qualquer

O livro "O Pintassilgo" tem trechos muito bons. Dentre eles, um dos quais grifei: 


"Se havia algo 
que meus anos de narcóticos tinham me ensinado 
era que camisas engomadas e ternos frescos 
eram muito, muito úteis 
para esconder uma multidão de pecados."

Donna Tartt - O Pintassilgo