quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Garoto voador

Iman Maleki

Era um garoto voador. 
Voava ele mais sua mãe. 
Ele mais seu pai.
Ele mais seus anos
(pequeninos).
Quanto mais alto ia
Mais ele voava
Menos.

Tadeu Rodrigues
Agosto/15

O que é?

Autoria desconhecida

É a mulher massacrada.
É o preto, é o pobre, é a puta.
É ferida, é desgraça, é a luta.
É a palavra dilacerada.
É a mercadoria dos sonhos. 

É rebanho de rebeldes.
É a veia da estrada.
É um grão de pó. 
É oceano seco de maré tranquila.
É a pele ardente de frio.
É a segunda lua no céu 
que se esqueceu de amanhecer.
É sertão aqui dentro.
É a miséria do luxo.
É o beijo... 
é o beijo, que dentro do corpo vejo, 
que dentro do corpo sinto.
Não minto.

É poesia.
Entende?


Tadeu Rodrigues
agosto/15

Terra quente


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Pintura de Jorge Di Paula

Alguns filhos aquela mulher experimentou ao longo de sua vida quente do nordeste.

Neles, seu reflexo suado de pele morena umedecida de verdades um tanto doloridas.

Dentre os seus, um pássaro voou para longe. Para bem longe. Cruzou oceanos, amores, endereços, dinheiro, bares, palcos, saltos, vilas, países, casas.

Aquela senhora, desgarrando sem escolhas da cria, orou muitas vezes escondida. Não sabia muitas palavras; mas sabia agradecer e pedir. Muito pediu por aquela incerteza que se apresentava a um pedaço dos seus.

Sentia a vertigem dos dias mal dormidos, da fome traiçoeira pelos arredores da casa; do chão de terra batida no interior da sala. Sentia a vertigem da desconfiança pelo que poderia ter acontecido de mal até aqueles dias aos seus filhos. Em especial à sua cria que voou. Em especial pelo que ela passou sob seus olhos. Pelas suas invasões e queixas. Pela sua pouca idade e falta de consciência do que pudesse estar acontecendo.

Mas a pequena senhora bradou:

- Vá pra longe, filha. Não tenha pressa em voltar!

Sentia que um dia ela voltaria e lhe traria paz.

Permaneceu na sua modesta casa e ganhou mimos de quem consegue sair. Recebia os telefonemas com sorriso na voz e lágrimas de saudade no coração. Não dedicou muito de sua vida a si, pois mergulhou seu universo no universo dos filhos. Queria que algo eles tivessem, e tiveram.

Acomodou-se os sonhos em algum lugar enterrado entre o sol e os anseios. Talvez nem mais tivesse tempo. Ninguém perguntava sobre seu nó na garganta ou seu aperto no peito. Ninguém perguntava se ela tinha dormido bem ou se estava cansada. Ninguém pensava que ela poderia ter querido dançar na festa do bairro naquele dia em que se deitou mais cedo. Ninguém. Talvez esse acontecimento estranho seja doença de quem ama demais.

De quem renuncia pelo outro.

E a pequenina senhora foi a senhora das renúncias. Renunciou suas vaidades, mas nunca abriu mão de sorrir. Renunciou suas viagens, mas nunca abriu mão das saudades. Renunciou seus estudos, mas nunca abriu mão do seu mundo. Renunciou amar, mas nunca abriu mão do amor. Até quando lembrava com amargura o que os poucos homens de sua vida lhe representaram.

E ela também ensinou o que pôde. No tempo que pôde. Falou sobre recato e sobre moral. Falou sobre esperança e sobre posturas, ainda que um pouco corcunda por conta da idade.

Lá do céu não se ouve os barulhos ardentes da terra seca. E a menina foi longe… muito longe. Quase um clichê desperdiçado de um roteiro de filme de sucesso.

Ela soube crescer e soube ser luz. Lembrou-se da moral da mãe, do recato, de ser boa. E assim foi: boa.

Em um âmago suave de dias corridos, quando o tempo corrói sem piedade a pele e deixa os anos ficarem vencidos, ela aprendeu a olhar sua mãe como sua melhor passagem.

Ouviu seus amores do passado, sua verdadeira história; seu verdadeiro pai.

Ainda em tempo, vivia um caso de amor parecido. Amava e era amada com força divina; beirando uma febre. Talvez o amor ali naquela família fosse genético. Viam o verdadeiro nas essências… coisa rara.

E a cria desgarrada certa vez confidenciou ao homem que mais a amou:

- Essa é a história da minha mãe. Ela queria ser jornalista.


Tadeu Rodrigues
Agosto de 2015