segunda-feira, 18 de maio de 2015

Resenha - Entrelaçadas

Recebi por email uma resenha singela, detalhista e reflexiva sobre o meu livro Entrelaçadas, escrita por Rômulo Magno.

Rômulo analisou o livro levemente sob o prisma filosófico, flertando com a psicologia e emitindo suas impressões pessoais. Gostei muito de saber que Entrelaçadas pode despertar os mais variados sentimentos.

Só tenho a agradecer o Rômulo pelo carinho e pelo tempo desprendido à leitura e à resenha.

Obrigado.

Tadeu Rodrigues


Quantos gatos sua vida ainda duraria? Dois, quem sabe três?


E assim se revela um dos mais árduos debates filosóficos a que se congregam quase todos os seres humanos em perscrutar. Assim também desponta do romance “Entrelaçadas” mais uma das grandes questões persecutórias a que a sociedade, nas mais variadas circunstâncias temporais e espaciais, insiste em debater. Mas creio que tal ideia não tenha sido antes exposta de forma tão leve, em que a personagem Carmen presume e calcula a duração de sua vida não mais em anos humanos, mas em existências felinas. Dessa forma, é salutar a criatividade e a leveza de que o autor se reveste para definir um momento de vazio existencial de uma mulher com quase cinquenta anos de idade, prevendo que já não mais seria capaz de realizar grandes coisas e que a possibilidade de encontrar um motivo realmente forte de viver, se não veio até agora, é provável que não viesse mais. Outros autores, como Sartre, preferiram dar um ar mais lúgubre ao sentimento, chamando-o de náusea ou tratá-lo da mesma forma como se trata uma pústula ou uma doença, como Albert Camus. O que chama a atenção é que uma preocupação profunda venha revistada de forma tão terna, ao enfatizar o esvair dos dias, não na debilidade do corpo e da alma, mas sim na singeleza da duração da vida do gato, o único companheiro de verdade da personagem.

E assim, o romance em tela, remete-nos não apenas à questão da finitude da vida, mas a inúmeras outras questões dolorosas. Parte-se de questões mais terrenas, como a busca por melhores condições de vida, narrada através da personagem Valentina, até questões mais abrasivas como a causa que levaria alguém a dar cabo a própria vida, quando esta é tão cara aos seres em geral. Mas como todo romance, acredito que a história não teve intuito de esgotar tais discussões. Como todo livro, terapia ou filosofia que se preze, o objetivo não é plantar uma certeza em nossa mente, mas sim, criar ainda mais dúvidas e aprofundar o diálogo com a alma, remetendo-nos a uma das mais valiosas ideias de Lacan que acreditava que a vida é um equilíbrio dinâmico e combativo do qual emerge o ser humano. E de tantos conflitos, dos mais diversos portes, também surgem personagens únicas, femininas e fortes, que veem seu destino “entrelaçado” por um por desejo de morte, ou de vida, pois acaba dando no mesmo, manifestado na casualidade do encontro de uma carta antiga.

A casualidade faz com que Valentina encontre em sua nova casa uma carta suicida que a leva a perder o equilíbrio e a impulsione desmedidamente na busca pelo escritor da mesma, no afã de desvendar o futuro do escritor. E depois de tantas buscas, ela encontra o que ansiava. Talvez não necessariamente como gostasse de encontrar, mas, ainda assim, trazendo um pouco de alento à personagem Carmem (aquela do gato rs), neta do falecido dono da carta, que talvez por coincidência (ou não), estivesse passando por uma profunda transformação de vida que seria concluída com o aparecimento da nova amiga. Valentina a tira do ostracismo, justamente através do caminho inverso a que ela se propusera viver: bem logo quando Carmem decide perdoar seu avô suicida, a questão retorna, fazendo com que ela novamente repense o caso e dê uma nova luz ao acontecimento. Certamente, neste momento nos deparemos mais uma vez com as ideias da tão citada psicanálise presentes no livro, na medida em que o existir não deve se encerrar, mas se refazer, pois cada vez que o palco da discussão é remontado, novos ares são lançados às ideias, fazendo com que a alma possa florescer. E assim floresce a vontade de Carmem, que ao encontrar Valentina, permite-se conceber um novo sentido a seus dias, abrindo as portas de sua alma ao mundo, tornando-se mais feliz e mais envolvida com os outros seres humanos.

E nesse novo envolvimento com seus semelhantes, Carmem adota uma nova resolução, a de expor aos interessados os motivos de seu ente. Ela acredita agora que a exibição de sua dama de ferro aplaque as dores de outras pessoas que estejam passando pelas mesmas agruras de seu avô. E assim, é dada vida a jovem Helena, afligida pela depressão que, contrária a todos os impulsos de vida, não se sente desejosa de viver, apesar de todas as tentativas de fazê-lo. Mas justamente pela nova resolução de Carmen, ajudada pelo apoio de Valentina, a jovem, em um momento de tensão do romance, decide não mais se “entregar” a morte e agarrar-se a vida, talvez encarnando também o conselho de Isabel Allende, já que “não se deve se desejar à morte, pois esta vem para todos; mas deve-se escolher a vida, pois esta é um milagre”.

E assim, nesse ínterim de tantas coincidências provocadas pela resolução do autor, encerra-se um romance singelo, mas de tão profundas reflexões. Uma história, que além de passar o tempo ocioso, remete nossa própria alma às reflexões do vida-e-morte. E talvez nos exponha de novo a ideia, tanto divulgada, mas também tanto esquecida, de que somos nós, apesar das limitações, que damos sentido a nossa própria existência e que mesmo que nossa vida seja como um livro, em que o autor decide os rumos, talvez também possamos nós subverter o autor a dar o rumo que desejamos a nossa própria existência.

Rômulo Magno
18/05/2015

O Céu do Instagram

Céu de Cores - Paula Garcia



Romeu tirou sua melhor foto. Estava passando as férias na praia, quando, sem sono, deitou sobre a areia no início da manhã, quase madrugada, e "clique". Postou uma linda foto do céu litorâneo em seu perfil do instagram.

Na imagem, nada mais se via além de um céu alaranjado e avermelhado, com algumas nuvens o riscando magistralmente, formando desenhos delirantes. E só era possível saber o lugar da foto, pois Romeu teve o cuidado de fazer um "check in" em sua localização.

Não demorou muito para os "likes" aparecerem.Vieram de todos os cantos. Os compartilhamentos viraram milhares. Os parentes, os amigos dos parentes, os vizinhos dos amigos dos parentes, todos comentando efusivamente a linda foto do céu. Até que o inesperado aconteceu: um ator famoso divulgou a imagem. Em poucas horas, os que era mil virou milhões. Atribuíam a autoria da obra a fotógrafos renomados do país. Os comentários romperam as bandeiras e parte do mundo já conhecia a famosa foto do Romeu, que sequer tinha seu nome citado nas postagens.

E ainda era meio da tarde. Dia internético conturbado.

Alfredo, primo do Romeu, que também passava as férias na praia, animou-se com o que pudesse vir a ser a fama virtual do primo:

- Por que você não abre um perfil no instagram sobre "céus"?
- Sobre "céus"?
- É. Você  vai ficar famoso. É só escrever um longo texto dizendo-se fotógrafo. Arrumar algumas brigas com quem está se pondo como autor da foto. Logo seu nome ficará em voga e saberão quem é você...
- Na verdade eu...
- Você leva jeito. Vai ter um monte se seguidores. Aproveita que você viaja muito. Saia tirando fotos apenas dos "céus" dos locais que está, marque a localização e poste!
- Mas eu só queria...
- Vai ser demais. Você pode abrir um "tumblr". Divulgar suas fotos. Montar um livro com as melhores imagens. Vendê-las. Arrumar patrocinadores.
- Mas eu...
- Gravar alguns vídeos. Mostrando a curiosidade do local que está, mas sempre focado no céu que está filmando. Quem sabe um dia isso vire um documentário chamado Céu? - disse Alfredo com um olhar ambicioso lançado ao mar.
- Mas...
- Eu posso te ajudar e...
- Mas eu não quero nada disso.
- Não?
- Eu só queria ver o céu em paz.

E o sol de pôs.


Tadeu Rodrigues
maio/15

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Cancioneiro

Pino Daeni

- Solidão, ouça-me pelos cantos da casa; 
Não pelos cantos do mundo.

Tadeu Rodrigues
maio/15

Longe

Pino Daeni

Em sua nuca, 
minha terra do nunca.

Tadeu Rodrigues
maio/15

Acepções

ANGELICA -OMAGGIO A PINO DAENI
Pino Daeni

Era a pura acepção do vento. 
Ninguém a via voando, 
Mas voava. 
Era a pura acepção das asas.

Tadeu Rodrigues
maio/15

Foi-se

Iman Maleki


Foi tropeçando que aprendeu a dançar.
Foi imaginando que aprendeu a sonhar.
Foi se esquecendo que aprendeu a lembrar.
E foi doendo que aprendeu a amar.

Tadeu Rodrigues
mai/15

terça-feira, 12 de maio de 2015

Idas e vindas




Que bom que veio.
Que apareceu.
Que sorriu.
Que tocou.
Que tirou o fôlego.
Que me tirou do chão.
(...)
Que bom que veio.
Que sorriu de novo.
Mas (se) partiu,
Que pena.

Tadeu Rodrigues
maio/15

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Carta para Flora - Ni Brisant

Falei agora pouco com o Ni e pedi por este post, que estava em seu blog.


O nobre poeta Ni Brisant, que tanto admiro, escreveu uma carta para a sua filha Flora quando ela nasceu. Li a carta em seu emocionante livro "Para Brisa".


Ni é um escritor incrível, e quem quiser conhecer mais o seu trabalho é só clicar aqui.


Ni Brisant


Segue a carta:


São Paulo, 17 de dezembro de 2010

Flora, coragem!

Ontem o Romário foi demitido da empresa. Aqui, ele era meu único amigo. Antes dele chegar, era eu o “Bahia”, mas depois ficou sendo ele.
Gostava de conversar com o Romário porque a gente se entendia bem; bastava um olhar pro outro e dizer: eta pleura; da gota; vixi, cabrunco. Era decente!
Sabe, quase todo dia ele me mostrava aquele retrato no Ibirapuera com a mulher e suas duas filhinhas na garupa daquela bicicleta azul. Os olhos do Romário – assim como o de todas as pessoas - tinham estrelas, mas toda vez que falava da família e dos planos de voltar pra casa, os olhos dele se enchiam de constelações. E eu achava bonito escutar seus sonhos, podia medir o universo em suas palavras.
Pelo menos pude abraçá-lo antes que ele fosse embora. Sentirei falta, e é ruim pensar que não nos veremos mais... Sei lá. Pior deve ser não ter de quem sentir saudade, não ter de quem lembrar, não sentir.
Filha, queria ter dito que sentia mor orgulho de tê-lo como amigo e que era pra ele não ficar triste, nem desanimar, porque merecia coisa melhor que isso aqui. Enfim... mas talvez ele nem acreditasse. 

Achasse que eu só tivesse querendo fazer média ou tentando consolá-lo... essas coisas. Mas é verdade, eu admiro cada um dos meus amigos; todo retirante é meu conterrâneo.
Acho que ainda essa semana vão colocar outra pessoa para fazer o mesmo trabalho que ele fazia aqui. 

Afinal, tem sempre um “Bahia” procurando emprego. Ontem voltei pra casa pensando como vai ser o Natal do Romário. Pensando se vai ter “Papai Noel” pra trazer presente pras filhinhas dele. Porque é só chegar novembro e já tem Papai Noel na cidade toda. Até no ônibus tem. Não é certo que falte logo na casa do Romário, logo agora. Não quero te desanimar, mas Papai Noel não é um cara legal.
Filha, você deve estar se perguntando porque estou lhe falando essas coisas. Pois bem. Ninguém jamais escreveu sobre o Romário, sobre um pião, um desempregado. E escrevo isso porque talvez ninguém diga que o meu amigo vai fazer falta, que ele não pode ser substituído só porque existe outra pessoa que sabe apertar os mesmos botões, que sabe repetir os mesmos gestos de máquina.
Lhe contei essa história porque você precisa saber que eram “Bahias” os homens e mulheres assassinados na Candelária, Nagasaki, Hiroshima, Jerusalém e, dia desses, aqui perto de casa. 

Também foram os “Bahias” que inventaram a ginga, o groove, as greves, as guitarras. Não criamos a guerra. Nós somos o revide! Woodstock, a Tropicália, o Pasquim, o Manguebeat: tudo movimento de “Bahias”. Garrincha, Elis, Chaplin, Dercy Gonçalves, João do Pulo, Bruce Lee, Jesse Owens, Lima Barreto... nenhum deles era baiano; eram todos “Bahias”.
Os livros de história não falam da gente; ninguém quer registrar nos filmes nem nas fotografias a grandeza do meu amigo. Mas ele existe. E é por isso que tou lhe escrevendo agora. Para que saiba que é bom conhecer e ter orgulho das pessoas, não porque elas são bem sucedidas, mais inteligentes ou chamam a atenção das outras. É bom gostar dos amigos exatamente pelo que eles são: humanos, amigos.
Flora, defenda com honestidade os seus sonhos. Que nunca falte sol em seu coração e amor para fazer acender constelações em seus olhos. Porque tanto faz ser um Bahia ou o filho do rei, sem luz nem amor, a gente é nada.
Com todo coração,
do seu pai, Ni.

[Da coleção Cartas a Flora, Ni Brisant]

terça-feira, 5 de maio de 2015

(D)escreva-me

Andrew Atroshenko


Escondida em meus versos-invernos; 
Perfazia olhares-verões;
quentes.
(...)
Ela escrevia todos os dias
os pecados, aos pecados, em pecados;
Eu a lia, pecador, santificado.

Tadeu Rodrigues
maio/15