quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A menina, os olhos e o coração

Arthur Hackers


Ela tinha o semblante indecifrável. Algo como um mar sereno e surpreendentemente forte.

Não conseguia reconhecer seu jeito de andar, sua cor de pele, o tom dos seus cabelos castanhos. Mas reconhecia o seu olhar, e ela sorria com os olhos. Isso me transpassava a barreira do racional. Era como se seus olhos assumissem o lugar dos lábios; encarnassem a santidade e dessem um golpe fatal à minha falta de juízo final.

Ela precisava trabalhar e fazia todos os dias cedo, com afinco. Ela escrevia cartões. Profissão rara. Todos os dias se sentava no banco da praça com papel e caneta e ouvia as pessoas. Contavam-lhe histórias, brigas de família, segredos, que ela se limitava em criá-los em uma frase bonita de feliz aniversário, sentimentos de pêsames ou cartas de amor.

Quando escrevia, seus olhos ficavam sérios; e ela passava a sorrir apenas com o coração, que, por incrível que pareça, lhe deixava ainda mais envolvente. Parecia entender o mundo em todas as suas nuances; inclusive o meu mundo.

Certo dia, a moça que sorria com os olhos se aproximou de mim. Nunca me notara antes. Eu, sem graça, pedi por um cartão.

Ela ajeitou os cabelos por trás da orelha para me ouvir melhor, quando contei a minha secreta história de amor:

- Todos os dias eu venho a essa praça ver uma pessoa.
- Uma pessoa?
- É. Uma menina que sorri com os olhos.
- Com os olhos? - perguntou-me um pouco perdida.
- Ou com o coração.

Tadeu Rodrigues
fev/2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Entrelaçadas

Caríssimos leitores/amigos,

Quem me acompanha pelo twitter ou facebook já sabe do lançamento do meu novo romance "Entrelaçadas", que será no dia 28-03-2015, pela Editora Penalux (editora pela qual nutro muito carinho, graças a atenção e presteza que o Wilson e o Tonho têm para comigo. Sinto-me cuidado.) na querida cidade de Poços de Caldas.

Entrelaçadas tem como tema central o suicídio. Através de diversas óticas, narro a história de três mulheres: Carmem, Valentina e Helena. Elas, de idades diferentes, possuem ligações distintas com pessoas que tiraram, ou tentaram, a própria vida.

Apesar do tema ser denso, tentei escrever uma história leve e envolta por sensibilidade, pois acredito que ler uma história vai além de passar os olhos nas palavras. Trazer o leitor ao mundo criado é a grande chave.

Escrever esse livro me foi um aprendizado. Pesquisei muito sobre o tema e conheci pessoas que me fizeram uma pessoa melhor. Conheci também, através de cartas suicidas, um universo muito singular e sombrio; mas, ao mesmo tempo, um universo incrivelmente humano. Lidar com a morte é algo tão fascinante quanto lidar com a vida. Como disse meu amigo psicólogo Celso Pateli parafraseando algum estudioso que não me recordo o nome: "suicídio tem mais a ver com literatura do que com psicologia".

É bom que se saiba, também, que Entrelaçadas não é um livro de auto-ajuda. É um drama em sua pura acepção.

Quero dizer, por fim, que sem o apoio de pessoas especiais e prestativas este livro não teria acontecido. Quando do lançamento colocarei os agradecimentos do livro aqui em sinal de gratidão.

A partir do dia 28-03 o livro poderá ser adquirido pelo site da editora ou pelo email: tadeufrodrigues@gmail.com

Espero que gostem da história.

Abraço a todos.

Tadeu Rodrigues


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A morte e a rima

imagem
Picasso - Encarando a morte

Os poetas, 
depois que morrem, 
vão pra dentro da gente.

Tadeu Rodrigues
Fev/2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A Passagem

Bom, esses dias postei o curta-metragem "Vincent" e fez bastante sucesso aqui no blog. Muitas visualizações e muita gente pedindo mais.

Vou tentar postar sempre alguns por aqui.

Aproveitando, o amigo Marc Dourdin, da Mamute Filmes, dirigiu este curta-metragem incrível, chamado A Passagem, que vale a pena conferir.




Tadeu Rodrigues
fev/2015

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Discernir

Andrew Atroshenko

A demora da pressa;
o pecado da reza;
a sujeira pós-festa.

Tadeu Rodrigues
fev/2015

Estado democrático

Picasso

A poesia é a democracia das dores. 
E a lágrima... 
bom, a lágrima não escolhe coração.

Tadeu Rodrigues
fev/2015

Vincent

Coisa boa a gente compartilha.

Curta-metragem "Vincent", do Tim Burton e Rick Heinrichs - baseado no conto O Corvo, do Poe.

Excelente!





"Ou a vida é de fato esse grande roteiro, mesclando Tim Burton na infância; e Scorsese na metade adulta."

Tadeu Rodrigues
Fev/2015

Sobre telas e segredos

Van Gogh

A cor da sua boca, 
Etnia do sorriso, 
revela o meu pincel favorito.

Tadeu Rodrigues
Fev/2015

As vozes e o temor

Van Gogh






O medo nos diz o quanto ainda resta.

Tadeu Rodrigues
fev/15

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O dia em que escolhi polenta frita


Eu sempre quis batatas. Ela, polenta acompanhada de um "tanto faz".
Tanto faz por tanto fez, escolhíamos a batata, sempre.
Talvez um viés machista cultural se encaixe aqui. Não sei bem.
E, além do vencido "tanto faz", ela finalizava a análise do cardápio dizendo: "escolha você, eu como tão pouquinho".
Eu a vencia.
Gostava daquele carinho e daquele olhar sobre quem ficaria mais satisfeito, afinal.
Com a fome apertando, deixar-me escolher as batatas soava mais carinhoso do que um "eu te amo".
Foi domingo à tarde, após uma dormida mais longa até às 16h que sentamos em um bar.
Ela, com um semblante sereno, chamou o garçom e sequer olhou o cardápio, sabia que eu optaria pelas batatas.
"Quero polenta frita, garçom" - eu disse, para a sua surpresa.
"Polenta!?"
"É."
Ela sorriu e me beijou. Entrelacei meus braços sobre seus ombros e ficamos enamorados em silêncio.
Não me importei com o gosto da polenta. Era até bom.
Mas gostei de ver o sorriso dela e o que aquela escolha causou.
Nunca mais pedi só batatas.
Agora éramos meia porção de batata, meia porção de polenta.
Estávamos fritos.

Tadeu Rodrigues
fev/2015